Tem por título Histórias Rocambolescas da História de Portugal e por autor João Ferreira. A Esfera dos Livros lançou-o em Abril de 2010 e o que me chegou às mãos pertence à 6.ª edição, datada de Agosto de 2010, o que significa coisa nenhuma visto que as seis edições mencionadas na ficha técnica não dão conta do número de exemplares publicados, o que torna a indicação irrelevante.
Alguém bem intencionado fez o favor de mo oferecer. Conforme as minhas apetências, eu próprio teria comprado o livro apenas pelo título, que é complicado, mas é tentador. Um erro, afinal: João Ferreira, jornalista com mestrado em História Cultural e Política, escreveu um livro que só serve para mostrar o que ninguém deve escrever — ou que alguém pode atrever-se a escrever às escondidas, mas que ninguém deve publicar para não o mostrar.
«Milagres que nunca existiram, um filho que bate na mãe, um irmão que bate noutro irmão, execuções e assassinatos num país de brandos costumes, heróis que afinal não foram assim tão bonzinhos, reis loucos num país de loucuras, aliados piores que o pior dos inimigos, batalhas vitoriosas com uma mãozinha divina ou grandes desastres militares, traições e conspirações de vão de escada, um rei com gosto por freiras, outro impotente que não conseguia satisfazer a mulher, um governo que nem cinco minutos durou, um atentado onde tudo correu mal e o visado saiu ileso, um ditador temível que resistiu 40 anos no poder até cair de uma cadeira de lona…
(…)
Sabia por exemplo que nunca existiu uma escola náutica em Sagres, que frei Miguel Contreiras nunca existiu? Que D. Pedro, além de D. Inês, amou também o seu escudeiro? Que a morte dos Távora envolve sexo, mentiras e política? Sabia que Vasco da Gama, herói das Descobertas, era temido por ser um homem cruel? Que Palma Inácio foi o primeiro pirata do ar?
(…)»
Apesar do que se lê na contracapa e dos treze temas que procuram agrupar no índice 68-historinhas-68, o livro pouco ultrapassa as 300 páginas, pelo que não admira que cada texto só ocupe duas ou três. Os textos são, ao fim e ao cabo, meros apontamentos e a selecção é confrangedora.
A título de exemplos, entre uma chusma de banalidades, encontram-se o sebastianismo, os assassinatos de D. Carlos e de Sidónio Pais, Aljubarrota, o bispo do Porto D. António Ferreira Gomes que enfrentou o Estado Novo, a concupiscência de D. João V, etc., num conjunto de curtas notas que nada acrescentam ao que toda a gente mediana sabe.
Há duas breves referências ao marquês de Pombal (que ainda é hoje o inspirador do maior número de ensaios sobre a História de Portugal), mas nem uma palavra sobre o rumo do processo que lhe moveu D. Maria I, que lhe retirou todas as mordomias e o desterrou para Pombal, onde foi visitado e interrogado duas vezes pelos desembargadores de Lisboa.
Também Salazar é referido a pretexto da estafada queda da cadeira e tratado como um homem que «gostava de viajar, de ganhar dinheiro (…)», o que abre dúvidas sobre a seriedade do autor.
Já a confirmação apressada de que nunca existiu uma escola náutica em Sagres é algo que carece de prova histórica por diversos motivos e, sobretudo, porque o conceito de escola (mais ainda de escola náutica) no século XV é muito distinto do que conhecemos.
Inversamente (ainda como simples exemplo), o autor não descobriu uma só linha que publicasse sobre Artur Virgílio Alves Reis e a imensa fraude que constituiu nos anos 20 o primeiro megaprocesso em Portugal, uma das lacunas graves a considerar perante um livro de Histórias Rocambolescas que podem lembrar tudo menos Rocambole e o seu criador.
De resto, o livro tem uma escrita fracota e a revisão não é melhor. Das Histórias Rocambolescas de João Ferreira salva-se o prefácio de Ferreira Fernandes, mas adivinho-lhe o gesto de louvável amizade.




Li umas páginas do livro (duas ou três histórias na diagonal) e fiquei exactamente com essa impressão. Foi tão “exactamente” que nem vou acrescentar nada!
Ainda bem que não estou só. Espero que o livro não te tenha feito mal. Um abraço para Xangai.
Pela tua descrição isso parece-me uma açorda mal temperada de mitos, coscuvilhices de alcova, intrigas e outras insignificâncias avulsas. Ou seja, tem tudo para ser um belo sucesso comercial… 🙂
Tens razão. Mas parece que nem sucesso conseguiu ser: as sucessivas edições devem ser bem pequeninas, o que justifica o livro esconder o número de exemplares publicados.