Com pinças


Teresa Ribeiro,

Apanharam duas médicas a receber dinheiro de um laboratório farmacêutico. Estranho. Pergunto-me o que terá falhado para o caso ter caído nas malhas da justiça. Cá para mim foi algum colega invejoso que as denunciou, porque como se sabe as boas relações entre laboratórios e médicos nunca são perturbadas pelas autoridades. Nem pela Ordem dos Médicos, sempre muito preocupada em defender a classe no matter what, nem pela justiça. Aliás, soube-se agora que a justiça nestes casos só pode actuar em relação aos médicos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. No consultório toda a corrupção é consentida. O bastonário da OM, que designa estes casos por “falhas éticas graves”, não vá ofender os corruptos, diz que está mal. Mas é a lei que temos. A lei às vezes é uma querida, mas só para quem merece.

7 comentários em “Com pinças”

  1. Sou filha de médicos, cresci a acreditar piamente na nobreza da profissão e a testemunhá-la. Custa-me imenso, pessoalmente, constatar estes casos de vigarice pura numa classe que deveria reger-se pela ética mais do que qualquer outra. Mas eles existem, e os laboratórios todo-poderosos são uma tentação permanente para os menos sólidos de carácter. Quanto à lei, acho inaceitável que deixe de fora a medicina privada. Se o argumento é o de que o dinheiro em causa não é o do contribuinte comum, está completamente errado. Corrupção é sempre corrupção, seja em que cenário for, e o cidadão que paga a medicina privada tem tanto direito a ser defendido de fraudes como o que usa o SNS em exclusivo.

    1. Óbvio, Ana. Esta lei é escandalosa, inadmissível. E a Ordem, que é sempre tão vivaça a defender os médicos, também deveria sê-lo a fiscalizar os que põem essa nobreza inerente à profissão em causa.

  2. Que tal proibir os tais médicos de passar receitas do SNS? Não estão a ganhar ilicitamente com as prescrições? Claro que os seus doentes seriam prejudicados mas… poderiam mudar de médico!

  3. Fizeste bem em levantar aqui esta questão, Teresa. Confesso que ainda me custa a crer que a Ordem dos Médicos tenha dupla face em questões éticas, dependendo apenas se o Estado é ou não o patrão. E custa-me igualmente a crer que, se for mesmo assim, não haja vozes críticas na classe médica que se ergam, bem sonoras, a contestar tal facto.

    1. A Ordem veio dizer que acha muito mal que a lei não permita actuar junto dos profissionais liberais, mas como órgão regulador da classe claro que devia ser a primeira a denunciar estas situações.

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