Apanharam duas médicas a receber dinheiro de um laboratório farmacêutico. Estranho. Pergunto-me o que terá falhado para o caso ter caído nas malhas da justiça. Cá para mim foi algum colega invejoso que as denunciou, porque como se sabe as boas relações entre laboratórios e médicos nunca são perturbadas pelas autoridades. Nem pela Ordem dos Médicos, sempre muito preocupada em defender a classe no matter what, nem pela justiça. Aliás, soube-se agora que a justiça nestes casos só pode actuar em relação aos médicos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. No consultório toda a corrupção é consentida. O bastonário da OM, que designa estes casos por “falhas éticas graves”, não vá ofender os corruptos, diz que está mal. Mas é a lei que temos. A lei às vezes é uma querida, mas só para quem merece.
Com pinças
Teresa Ribeiro,


Sou filha de médicos, cresci a acreditar piamente na nobreza da profissão e a testemunhá-la. Custa-me imenso, pessoalmente, constatar estes casos de vigarice pura numa classe que deveria reger-se pela ética mais do que qualquer outra. Mas eles existem, e os laboratórios todo-poderosos são uma tentação permanente para os menos sólidos de carácter. Quanto à lei, acho inaceitável que deixe de fora a medicina privada. Se o argumento é o de que o dinheiro em causa não é o do contribuinte comum, está completamente errado. Corrupção é sempre corrupção, seja em que cenário for, e o cidadão que paga a medicina privada tem tanto direito a ser defendido de fraudes como o que usa o SNS em exclusivo.
Óbvio, Ana. Esta lei é escandalosa, inadmissível. E a Ordem, que é sempre tão vivaça a defender os médicos, também deveria sê-lo a fiscalizar os que põem essa nobreza inerente à profissão em causa.
Bom texto!
A corrupção existe em todo o lado, também na Alemanha há médicos corruptos. Mas o sistema português favorece mais esses casos.
Obrigada, Cristina.
Em Portugal, como se sabe, os corruptos têm a vida muito mais facilitada.
Que tal proibir os tais médicos de passar receitas do SNS? Não estão a ganhar ilicitamente com as prescrições? Claro que os seus doentes seriam prejudicados mas… poderiam mudar de médico!
Fizeste bem em levantar aqui esta questão, Teresa. Confesso que ainda me custa a crer que a Ordem dos Médicos tenha dupla face em questões éticas, dependendo apenas se o Estado é ou não o patrão. E custa-me igualmente a crer que, se for mesmo assim, não haja vozes críticas na classe médica que se ergam, bem sonoras, a contestar tal facto.
A Ordem veio dizer que acha muito mal que a lei não permita actuar junto dos profissionais liberais, mas como órgão regulador da classe claro que devia ser a primeira a denunciar estas situações.