Em Novembro, assim que Papandreou manifestou o seu desejo de referendar o programa de austeridade imposto à Grécia, ergueu-se o carmo e a trindade entre Bona e Portugal. Que era irresponsável, diziam, permitir ao povo discutir — e aprovar ou não — os sacrifícios necessários para permanecer no euro. Três meses depois os gregos fazem manguito ao tal programa que não discutiram nem aprovaram. Vai ser pior para eles — afirma, com o altruísmo do costume, quem sabe que vai ser também pior para nós. Ah, o referendo: até parecia uma boa ideia. Onde ela já vai.
E que tal um referendo?
vidabreve,

E agora os partidos gregos do centro e da direita querem adiar por um ano as legislativas. O que só ajuda a provar que austeridade não combina com democracia.
Suspenda-se, então.
Extinga-se, então.
Haja paciência.
O momento é de excepção. E momentos excepcionais necessitam de sentido de Estado e dever, não de patrioteirismo eleitoralista. Será uma verdade de La Palisse mas a democracia é feita de direitos e deveres, não apenas de idas às urnas.
A classe política grega mentiu, fez malabarismos contabilísticos e agora, em vez de pensar no país e na Europa (que lhes paga as continhas) pensa na cruzinha no boletim de voto. E claro a culpa é da Alemanha.
Recordo que na confortável Alemanha também existem bolsas de pobreza – concretamente 12,6 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza – e pessoas a recolher comida de caixotes do lixo e a viver na rua.
“Haja paciência.”
Boa ideia.
“O momento é de excepção.”
Por acaso já tinha percebido.
“E momentos excepcionais necessitam de sentido de Estado e dever, não de patrioteirismo eleitoralista.”
Suponho que nesse “patrioteirismo eleitoralista” a senhora inclui tudo o que são eleições, referendos e consultas populares — enfim, a democracia em geral, não é?
“Será uma verdade de La Palisse mas a democracia é feita de direitos e deveres, não apenas de idas às urnas.”
De facto, é uma verdade de La Palisse. Mas se a senhora dispensa a democracia, não se onde haverá de guardar esses direitos e deveres.
“A classe política grega mentiu, fez malabarismos contabilísticos”
Sem dúvida. Mas este post é sobre a possibilidade, agora tardia, de um referendo. Não batamos tão cedo as asas da retórica, e tal.
“e agora, em vez de pensar no país e na Europa (que lhes paga as continhas)”
E eu a julgar que as continhas eram pagas pelos impostos e por empréstimos a juros altos.
“pensa na cruzinha no boletim de voto.”
Bem, aqui permito-me discordar da minha cara amiga. Quem está a pensar em cruzinhas sou eu. Enfim, quem terá pensado em cruzinhas, há três meses, foi um ex-primeiro-ministro que talvez quisesse evitar o o caos que agora se manifesta nas ruas. Mas como a senhora não aprova a democracia em tempos excepcionais, temo que não valha a pena desenvolver o raciocínio.
“E claro a culpa é da Alemanha.”
Vou a Berlim em Março, informarei as autoridades do seu brilho argumentativo.
“Recordo que na confortável Alemanha também existem bolsas de pobreza – concretamente 12,6 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza – e pessoas a recolher comida de caixotes do lixo e a viver na rua.”
A sério? Não me diga que também há alemães preguiçosos, tão piegas como nós. Provavelmente foram esquecidos pelo Governo da senhora Merckel, que teve de socorrer aquela bandidagem na Grécia.
Agradeço que me tenha aberto os olhos.
Que torpe o seu comentário!!!
Por estas e outras costuma ficar a falar com os seus botões. A sua falta de educação é proverbial e directamente proporcional à sua pouca capacidade argumentativa.
Respeite as opiniões dos outros.
“Que torpe o seu comentário!!!”
A Ana Mestra não será por acaso um pseudónimo de Helena? Estou a reconhecer o género, e algo do estilo.
“Por estas e outras costuma ficar a falar com os seus botões.”
Sim, sim, como confirmará facilmente aqui:
http://vidabreve.wordpress.com/
Não me apetece varrer os arquivos do Delito, desculpe lá.
“A sua falta de educação é proverbial e directamente proporcional à sua pouca capacidade argumentativa.”
Eu, pelo meu lado, fiquei extasiado com a educação e a capacidade argumentativa da minha amiga. Os silogismos e analogias de que dá provas arrasaram-me por completo.
“Respeite as opiniões dos outros”.
Respeito, sim. Venha de lá uma opinião, que eu prometo fazer muita força.
A Helena nao se esconde atras de pseudónimos, assume sempre que pensa.
Faz muito bem. E Ana Mestra seria um pseudónimo tão infeliz — como Anamar, ou Máriza, que nos põem logo pensar em canções de charme.
É natural que em momentos difíceis como os actuais haja quem diga, como outrora José Régio, que “não vou por aí”. E há também muitos que pensam que a resistência é o signo diário da esquerda. Dizer não é tão fácil, difícil é mesmo apontar caminhos alternativos.
Qual é a alternativa para a Grécia diga-me? Não se reformar? Quem nos ameaça a todos: a Alemanha ou o imobilismo grego?
Parte da prosperidade actual alemã deve-se a profundas reformas quer no mercado laboral, quer a um duríssimo corte de benefícios sociais ( medidas tomadas aliás por um governo do SPD, equivalente ao PS português).
Angela Merkel, a chanceler que reúne o desprezo de tantos por essa Europa fora, escolheu um caminho, centrou-se no que entende ser essencial e jogará aí todo o seu peso político. Recomenda-se à Europa que não a subestimem e que abram os olhos para a sua determinação. Se há um país que pode – e que vai em interesse próprio – salvar o euro , esse país é a Alemanha. Agora não abusem da sua paciência.
Quanto aos seus outros considerandos, não me merecem resposta.
Ah e quando for a Berlim não se incomode a recomendar os meus méritos à chanceler, é que ela conhece-os.
“Ah e quando for a Berlim não se incomode a recomendar os meus méritos à chanceler, é que ela conhece-os.”
Fico muito contente por poder conversar, no Delito de Opinião, com uma amiga da senhora Merkel. Eis uma prova que muito nos honra do alcance quase universal do nosso blog.
Como a senhora deve ser alguém de elevado estatuto nas instituições europeias, não me furto a responder-lhe.
“É natural que em momentos difíceis como os actuais haja quem diga, como outrora José Régio, que “não vou por aí”.
Pois se José Régio o disse, quem sou eu para desmenti-lo? Replico-lhe com outros dois versos do mesmo poema:
“Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?”
Gosto muito de poesia e de coisas bonitas.
“E há também muitos que pensam que a resistência é o signo diário da esquerda.”
O meu signo é Sagitário, mas sou suficientemente generoso para me incluir nessa advertência.
“Dizer não é tão fácil, difícil é mesmo apontar caminhos alternativos.”
Por ingenuidade, certamente, acreditei que para apontar “caminhos alternativos” era necessário começar por dizer não. Como me enganei.
“Qual é a alternativa para a Grécia diga-me? Não se reformar? Quem nos ameaça a todos: a Alemanha ou o imobilismo grego?”
A senhora persiste em incluir a Alemanha num post em que eu não a criticava. Já me parece uma obsessão, mas suponho que esteja aqui a defender a sua amiga. Quem nos ameaça? Bem, é difícil responder. A Alemanha chacinou algumas dezenas de milhões de europeus na década de 30 e 40, mas os atenientes e os espartanos também não andavam a brincar há cerca de 1500 anos. Olhe, esclareça-me a minha amiga.
“Parte da prosperidade actual alemã deve-se a profundas reformas quer no mercado laboral, quer a um duríssimo corte de benefícios sociais ( medidas tomadas aliás por um governo do SPD, equivalente ao PS português).”
Não quero cortar o seu amável discurso, que deve ter encantado o Reichstag, mas a senhora percebeu que o meu texto era uma defesa um pouco tardia do referendo na Grécia, não percebeu?
“Angela Merkel, …, escolheu um caminho, centrou-se no que entende ser essencial e jogará aí todo o seu peso político. Recomenda-se à Europa que não a subestimem e que abram os olhos para a sua determinação.”
Ui, ui, confesso que já estou aterrorizado. O peso da senhora Merkel não é coisa despicienda. E tenho a certeza de que a “Europa” não subestimará o aviso severo que a senhora lhe dirige nesta caixa de comentários.
Fique atenta ao Der Spiegel desta semana.
“Se há um país que pode – e que vai em interesse próprio – salvar o euro , esse país é a Alemanha.”
Vai mesmo? Mas não estará assim, como direi, um bocadinho atrasada? A Helena, durante os seus serões com a chancelerina, talvez pudesse apressá-la um pouco.
“Agora não abusem da sua paciência.”
Acima de tudo, não abusarei da sua. Lamento ter interrompido a loucura do seu dia a dia, certamente assoberbado em reuniões internacionais.
Helena,
encontrei o seguinte texto num blogue:
«Hoje, o trabalho de memória não é feito com um dedo acusador, mas sob a vigilância perene do artigo primeiro da Lei Fundamental alemã: “A dignidade do Homem é intocável”. Artigo que qualquer estudante tem na ponta da língua.»
Sim, foi no seu blogue. Dando de barato que a vigilância de um artigo da Lei Fundamental vale o que vale (quantos artigos da Lei Fundamental portuguesa são letra morta?), pergunto-lhe: onde fica a dignidade dos gregos? Ou serão os habitantes da Europa do Sul menos Homens do que os da Alemanha? Pois.
Carlos,
a dignidade da pessoa humana, quer se pense na acepção cristã ou como imperativo kantiano, ultrapassa as querelas discursivas, é válida para etíopes, quenianos, chineses, gregos, portugueses ou alemães. O Homem é um fim em si mesmo, não tem preço.
Ao longo da crise grega tem sido ditos demasiados disparates ( podem-se apontar aos alemães uma série deles) e procura-se tecer a teia de todos os medos. Uma estratégia recorrente na teatrocracia que se instalou é a de transformar a Alemanha no inimigo objectivo, desculpabilizando erros alheios e mascarando a incapacidade de apresentar soluções.
Considero ser profundamente injusto, para não dizer intelectualmente pouco sério,usar a factura do passado nazi para criticar qualquer defesa do interesses nacionais (e neste caso dos interesses europeus) pela Alemanha.
O conceito de Übermensch, de que o nacional socialismo se apropriou para justificar a loucura de uma raça ariana superior, conduziu ao horror dos Lager (campos de concentração) e a aniquilação de milhões de pessoas. O trauma nazi fez com que a coluna dorsal da sociedade alemã contemporânea seja o “Nie wieder Auschwitz”.
Helena,
quanto a mim, é precisamente a observação do imperativo categórico kantiano que mais tem falhado no discurso alemão. Claro que a Grécia não está inocente, mas opções que passem por humilhar um povo que já está sacrificado não levam a lado nenhum.
Quanto à questão nazi, não sou a favor da sua utilização de forma leviana. Contudo, pense da seguinte forma: ainda existem gregos que viveram a ocupação nazi. Acha que é possível tudo isto não ressucitar velhos fantasmas? Não sei.
Carlos: não percebo uma coisa – essa frase obriga de algum modo os alemães a aceitarem transferir dinheiro para a Grécia, ainda por cima sabendo que, sem mudanças na Grécia que permitam diminuir despesas e alterar a economia de forma a não estar tão dependente do consumo interno, o terão de fazer eternamente? Se calhar obrigava-os mais depressa a aceitarem enviá-lo para, sei lá, a Somália.
jaa, o meu ponto é outro. Deixando de lado questões morais, ninguém me obriga a dar uma esmola a um mendigo, mas não é por isso que tenho o direito de lhe cuspir na cara.
Um referendo teria sido uma boa ideia especialmente na altura em que o Governo Grego decidiu endividar-se mais que 60% do PIB.