Não gosto de preconceitos.
O preconceito é uma das mais letais armadilhas da inteligência.
Dirão que é uma tarefa difícil essa de reflectir, alimentar convicções e não cair no logro da opinião apriorística, conseguindo manter a equidistância dos puros e a frescura do primeiro olhar. E no entanto é esse o verdadeiro desafio da mente: conhecer-se tão bem a si própria que não se deixe perturbar no exercício pleno que se segue, o de pensar. Pensar os outros, pensar a vida. O que é dizer, as ideias dos outros e a vida dos outros. A isto se resume tudo.
Não gosto de preconceitos.
E é por isso que não me agradam pedestais e altares em vida. Além disso, deve ser tremendo ser santo ou herói, mesmo para quem mereça a libertação da lei da morte de que falava Camões.
O que eu gosto, sim, é de justiça, aquela que se faz do reconhecimento entre iguais. E da vénia que devemos aos outros (e a nós próprios) quando apontamos o dedo a um exemplo vivo de dons de humanidade.
Maria Adelaide de Bragança é uma mulher extraordinária. É o triunfo do espírito. É a racionalidade que vence o azar de nascer numa família ostracizada e marcada pelo estigma, às mãos de um Portugal inculto, provinciano e tacanho. É a racionalidade tão sábia que procura o anonimato. É a racionalidade que faz do dever muito mais do que um destino ditado pela educação, que sempre lhe estaria reservado mas, porém, não necessariamente assim.
«Resistiu ao nazismo, que a condenou à morte por haver acolhido em sua casa muitas pessoas perseguidas pela Gestapo. Dedicou décadas à promoção da ciência e da investigação médica, antes de se consagrar, até ao limite da entrega, aos excluídos. Foi uma mãe para milhares de crianças: recolheu-as das ruas, vestiu-as, alimentou-as, educou-as; em suma, foi assistente social, foi enfermeira, foi cozinheira, foi lavadeira…»
Nunca esquecerei quando contou que não punha cortinas nas janelas: –Para quê? Só acumulam pó e eu não tenho tempo para as limpar.
A sua condecoração vai passar-nos ao lado e não vai encher os salões nem as igrejas.
– Mas qual é o espanto? Caricatos e arrogantes somos nós. E afinal não é estranho que nos seja indiferente o caso de alguém que demonstrou um sentido extremo do dever, neste país afogado na cultura obsessiva dos direitos.


Tens toda a razão. Vivemos afogados na cultura obsessiva dos direitos e não vemos a infracultura em que nos atolhamos, esta subcultura que nos esgana todos os dias.
Nada tenho contra os direitos… note-se. Falo é nesta disfunção que consiste em ter cada vez menos a noção de que todo o direito tem uma contrapartida. Há deveres, ah pois é… Mas quê? Quase os ridicularizamos. Qualquer dia… qualquer dia não temos ‘história pessoal’ (aquela que legitimou os direitos).
A cultura só existe quando insere conhecimento. E esta douta e bondosa senhora é o que é porque conhece bem o país real. Honrou a Monarquia, honrou o nome da sua respeitável família e e honrou os portugueses que ainda gostam de dar uma esmola desde que ninguém veja…
Muito bem, João.
Tenho imensa admiração por ela. Uma grande Bragança que, ainda por cima (e como todos eles) comeu o pão que o diabo amassou.
O triunfo, Laura, da humanidade. Ou mesmo da Humanidade.
É isso, Fernando: a humanidade, a humildade, a inteligência, a abertura, a grande visão. Cosmopolitismo é isto. E para mim é o triunfo do ‘espírito’ porque é justamente essa junção de tudo o que nos move.
Uma condecoração do regime socialista que em 30 anos levou o país duas vezes à bancarrota deve-nos passar ao lado. Não vale nada.
“Para quê? Só acumulam pó e eu não tenho tempo para as limpar.”
Ora aí está uma mulher como deve ser.
Está a falar dos SS? Soares e Sócrates?
Claro que a condecoração não vale nada. E vale tudo, se valer o afecto.
A das cortinas? Nunca mais esqueci! Porque tenho cortinas nas janelas, percebe ? ;))
Sim o PS o maior culpado, mas todos os outros ajudaram no acelerador em direcção à bancarrota.
O afecto do regime? Não, estas coisas só existem para o regime se legitimar.
Percebo que não percebo porque é que as mulheres querem cortinas quando já se tem estores 🙂
Não falo do afecto do regime (mas isso lá existe?…).
Falo do afecto das pessoas como nós, que simplesmente a relembram ou ficam a saber que ela existe.
Estores? 🙂 Li essa entrevista há muitos anos, acho que ainda não estavam na berra. Mas até esses precisam de limpeza….
Extraordinária esta Senhora! Nunca tinha ouvido falar dela. É em gente como ela que devemos ter orgulho.
Vou surripiar para o FB
Investigue, Maria. vale a pena, asseguro-lhe.
A tua última frase diz tudo. Ou quase tudo, porque também vivemos afogados na obsessão do “politicamente correcto”. E, neste momento, o reconhecimento público de alguém com este perfil é “politicamente incorrecto”. É por isso que esta condecoração vai passar ao lado. Mas aposto que ela não se rala nada com isso, o que não deixa de ter a sua graça. É a suprema liberdade de quem nunca viveu para o reconhecimento público.
Nas vésperas de fazer 100 anos e com a sua centelha… tens toda a razão, Ana: não vai ligar a mínima. Ou talvez sorria por dentro, incrédula, porque o país que lhe meteram na alma e lhe disseram sempre que servisse, por fim, reparou nela 🙂
Talvez. Mas nestas coisas lembro-me sempre da Madre Teresa de Calcutá, que dizia “Não posso dar-me ao luxo da política. Numa ocasião, fiquei cinco minutos a escutar um político e morreu-me um velhinho em Calcutá.” Palpita-me que a Infanta é feita desta mesma cepa.
Essa frase é o máximo 🙂 Acho que a Infanta será feita de massa parecida, sim. Mas nada tem a ver com política (em sentido comum) o facto de estas pessoas serem moldadas desde o berço para o serviço ao país. Não queremos saber disso, mas assim é e será. Embora se continue a preferir reduzir esse ‘património nacional’ à caricata substância dos “gajos da Hola”, como dizia o corrosivo Daniel Oliveira com infinita graça, reconheça-se…
Com graça e alguma razão, convenhamos. A maioria dessa fauna que aparece na Hola não contribui muito para a boa reputação da classe…
Ia escrever isso mesmo, Ana, tem quase 100 anos a senhora infanta.
Gostei muito deste post, Laura.
Invejáveis 100 anos *, Ivone…com tanta obra feita. Imaginei que irias concordar com o post 🙂
* e não tem alzheimer…
Excelente texto, Laura. Num país onde as condecorações são entregues ao desbarato, é quase escandaloso só agora alguém se ter lembrado de condecorar a centenária infanta, tia de D. Duarte Pio e única neta viva do Rei D. Miguel.
Tocas no que eu quis sugerir, Pedro… e tu que não percebesses 🙂 A chave da ‘coisa’ só tem um nome: preconceitos.
Tudo começou aqui :
http://www.facebook.com/groups/donaadela ide/
Há 3 anos. E acabou sendo feita justiça a uma GRANDE SENHORA.
Não sabia, mas ainda bem que a participação pública surtiu efeito, num país pouco habituado a contrariar a inércia. Só posso aplaudir a inciativa que levou à distinção desta (sim), grande, grande Senhora.