Nem sempre são inspiradas ou geniais – nem sempre se sabe que serão as últimas, e as circunstâncias também não ajudam – mas têm o peso de uma vida na memória dos que ficam. Aqui vos deixo, à laia de epitáfio, as de vinte e cinco escritores famosos.
O meu preferido é Voltaire, pelo humor requintado e lúcido no momento decisivo, de que teve plena consciência. Quando o padre, na extrema unção, lhe perguntou se renunciava a Satanás, teve esta resposta extraordinária:


http://www.biellaclub.it/_cultura/person aggi/CarloFeciaDiCossato/lettera.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Carlo_Fecia _di_Cossato
Desculpe, Lucklucky, não percebi a relação. Pode explicar?
É mais um caso de ultimas palavras. Embora não dê par sorrir antes pelo contrário.
Caramba, os gajos conseguiram esquecer as duas (apócrifas, certamente) do Oscar Wilde:
1. “Ou essas cortinas saem daqui, ou saio eu”.
2. (enquanto entornava um copo de champagne): “Oh, estou a morrer acima dos meus meios”.
Só conhecia a última, que lhe faz plena justiça. mas é bem possível que seja apócrifa, claro.
E depois há o excelente tema das lápides espirituosas. Parece que a do Groucho Marx diz qualquer coisa como: “Perdoem, minhas senhoras, por não me levantar”.
Essa é excelente!
Já Bernard Shaw parece não estar à altura dos seus pergaminhos.
Porquê, Zé? Eu acho a frase dele muito boa.
Espanto-me com o facto de todos eles, à hora da morte («nas vascas da agonia», como se dizia antigamente, uma expressão que sempre me fez rir), dominarem tão bem o idioma inglês, despedindo-se da vida na língua da pérfida Albion. Voltaire, Tchekov, Ibsen, Andersen, Cocteau, Tolstoi, Jarry…
LOL. Tens razão, é um mistério…
A do Goethe, na versão original, tem uma força simbólica espantosa: «Mehr licht!»
A do Wilde, que o Luís bem lembrou, é uma das ausências mais gritantes nesta lista. Embora seja apócrifa, como aliás sucede às últimas grandes frases.
Apócrifa não é a última frase do Fernando Pessoa: «I know not what tomorrow will bring» (cito de cor). Extraordinária, esta frase que deixou escrita na cama do hospital. E – essa sim – em inglês.
Errata, no Wilde: embora deva ser apócrifa, em vez de embora seja.
(nestas coisas nunca se tem a certeza)
O que nos safa são provavelmente as apócrifas. Se tivéssemos acesso às reais seriam qualquer coisa como “Maria, traz-me aí…” ou então “blurg…blurg”.
Já me fizeste rir com essa do “blurg… blurg.”
Eheheh. Tens razão, Luís. A maioria deve dizer coisas muito pouco edificantes.
A última frase do Alves Redol é extraordinária: «Escuridão».
Estaria a pensar em Goethe?
Foi escrita, tal como aconteceu com o Pessoa. E também numa cama de hospital (Santa Maria, no caso).
Uma das melhores últimas frases de sempre foi do Douglas Fairbanks, em 1939. «Nunca me senti tão bem.»
Extraordinária.
É curioso que tenhas trazido aqui estas “últimas palavras” de escritores célebres pois há muito ando com a ideia de lançar aqui uma série intitulada “Famous last words” (soa melhor em inglês) dedicada precisamente às frases derradeiras e definitivas pronunciadas ou escritas por gente célebre. Para esse efeito, tenho vindo a coleccionar muitas. Várias delas apócrifas, naturalmente.
É uma tarefa que pareceria macabra mas acaba afinal por tornar-se divertida.
E a propósito de frases apócrifas: há uma história espantosa sobre a última declaração atribuída ao presidente-rei Sidónio Pais momentos antes de expirar, vítima de uma bala assassina, na estação ferroviária do Rossio, perto da meia-noite de 14 de Dezembro de 1918: “Sei que morro! Salvem a pátria…”
Esta frase resultou da pura invenção de um jornalista: o célebre Repórter X, que nessa noite chegou atrasado à estação do Rossio e procurou compensar o atraso empolgando a história dando-lhe contornos ainda mais dramáticos. O certo é que a lenda se tornou verdade. Como no filme do John Ford: “When lhe legend becomes fact, print the legend.”
Ora, se eu soubesse tinha-te dado estas para a tua série. Como sou mais preguiçosa, encontrei este pronto-a-servir e postei-o. Mas há muitíssimos nomes que faltam aqui (o de Pessoa, que referiste, é um deles) e só para falar de escritores. Muitas destas frases serão apócrifas, empoladas por familiares e amigos para enfeitar a história dos seus heróis. Mas valem, mesmo assim.
Uma das mais célebres frases apócrifas de todos os tempos é a do general Custer, em Little Big Horn: «Rapazes, vamos dar cabo daqueles índios!»
Acontece também por vezes na política: os “índios” afinal são bastante mais do que parecem. Enfrentá-los em batalha aberta é puro suicídio.
Aprende-se sempre alguma coisa nestas pesquisas, onde a história se entrelaça com a ficção.
Ora bem. Onde há setas, há índios.
E onde há estrela, há xerife.
“I shall say this only once” parece-me uma maneira muito apropriada para terminar…
Ou “I’ll never say it again”…
“rosebud”, disse ele.
mas não cabe aqui: “charles foster kane” não era escritor e, ao morrer, disse uma única palavra.
E o que isso deu de mistério! Lembra bem, Carlos.
A última frase do Bogart também é genial: «I should never have switched from scotch to martinis.»
Do Bogart mesmo ou de uma personagem dele?
Do Bogart heterónimo. E nada apócrifa, ao que consta. Genuína mesmo. Foi Bogart até ao fim.
😛