A forma à frente do fundo


Pedro Correia,

 

Alguns políticos mostram-se mais fiéis à forma do que ao fundo, mais preocupados com o nome da coisa do que com a coisa em si. Um desses políticos, ainda há poucos anos levado em ombros por uma certa opinião bem pensante portuguesa, sempre deslumbrada com o que descobre além-fronteiras, era José Luis Rodríguez Zapatero. O chefe do Governo espanhol que se ufanava de ultrapassar todos os antecessores em credenciais de esquerda, era o campeão do progresso. Nas palavras.

“Não existem desempregados, existem pessoas que estão no desemprego”, afirmou Zapatero em Fevereiro de 2008. Valeu-lhe de pouco a aula de correcção política que ministrou aos compatriotas. Ao abandonar o poder, há poucos dias, deixou ao sucessor — o conservador Mariano Rajoy, vencedor incontestado das legislativas de 20 de Novembro — um legado nada invejável: cinco milhões de desempregados (perdão, de pessoas sem emprego), o que corresponde a 21,5% da população activa e é a maior cifra do género desde que há registos oficiais em Espanha. Há hoje cerca de milhão e meio de lares espanhóis em que marido e mulher estão simultaneamente desempregados. E 48% dos menores de 30 anos não consegue encontrar trabalho por lá nos dias que vão correndo.

Para o socialista que durante sete anos e meio ocupou o Palácio da Moncloa, entre Março de 2004 e Dezembro de 2011, o optimismo antropológico era quase uma raison d’ État. Ele mesmo proclamara, noutra tirada cheia de floreado “progressista”, em Julho de 2008: “Ser optimista é mais do que um acto de racionalidade — é uma exigência moral, um rasgo de decência e até de elegância.” Esta obrigação de se intitular optimista, para continuar a garantir os aplausos da corte do progresso, levou-o a jurar em Fevereiro de 2010: “Comigo como presidente [do Governo espanhol] jamais haverá cortes sociais neste país.”

O “jamais” de Zapatero era um vocábulo de geometria variável: três meses depois desta última proclamação, anunciou a primeira redução salarial dos funcionários públicos e o primeiro congelamento de pensões alguma vez registado em Espanha.

A forma à frente do fundo.

21 comentários em “A forma à frente do fundo”

          1. Outra do mesmo artista: «No hay atisbo de recesión económica. La economia española tiene muy buenos fundamentos.» (Outubro de 2007)

  1. Pérez-Reverte teve a definição final :” …un canalla y un imbécil “.
    Bem acolitado por Pajins, Aídos, Trinis, Chávez, etc.

  2. Não acompanho muito a política espanhola, mas vale a pena dar uma espreitadela ao que aconteceu ao emprego em Espanha.

    Em Abril de 2004, o desemprego em Espanha estava na casa dos 11% (Aznar, para seu crédito, fez o valor descer de cerca de 22% para esse valor). Em 2006 o desemprego estava nos 8% e aí se manteve durante quase dois anos. No final de 2007, se não me engano, a Espanha teve excedente orçamental, o qual foi utilizado para dar dinheiro de volta na forma de impostos.

    Em 2008, quando a crise do subprime explodiu, a Espanha, que estava altamente dependente do sector imobiliário (mais que qualquer outro país europeu, salvo erro), afundou-se fortemente na crise. Em 2 anos o desemprego explodiu para os 20%. Ainda assim, a Espanha foi conseguindo manter-se com a cabeça à tona da água e apesar de os juros para títulos do tesouro terem aumentado em 2010 de menos de 4% para os cerca de 5% (durante 2008, espantosamente, mantiveram-se estáveis…!!!), 5% esses que se têm mantido relativamente estáveis no último ano.

    Aznar teve os títulos do tesouro a quase 6% em 2000. Quando se foi embora estavam acima dos 4%. Disso não se fala?

    O que há em relação a Zapatero, é uma azia enorme e uma vontade enorme de manipular os dados para o fazer parecer o pior primeiro-ministro espanhol de sempre. Fez um bom trabalho (mesmo que não excepcional) e foi derrotado por uma crise mundial e europeia à qual estava mais exposto que os outros países muito à custa de políticas anteriores (e que ele não mudou muito). Isto não me parece o suficiente para esta espécie de ódio que o Pedro Correia lhe vai dedicando. É por ser amigo do Sócrates?

    1. João André: se o que eu escrevo sobre Zapatero deriva de “uma espécie de ódio”, o que dirá você das linhas demolidoras que o escritor Pérez-Reverte dedicou ao ainda líder socialista espanhol?
      Os dados que aqui trago não são “manipulados”: são dados oficiais. Alguns poderão pecar por defeito, não por excesso, em relação à realidade concreta de Espanha.
      O balanço dos quase oito anos de mandato de Zapatero foi feito a 20 de Novembro de 2011, nas legislativas, por quem é soberano em democracia: os eleitores. Resultado: o pior resultado eleitoral de sempre do PSOE. Seis meses antes, a 22 de Maio, já os socialistas tinham sido praticamente riscados do mapa autonómico e autárquico.
      “Derrotado por uma crise mundial e europeia” é linguagem de ‘spin’, destinada a branquear o fracasso público e notório da governação socialista em Espanha. Há anos que sigo com interesse o raciocínio bem sustentado que tem deixado nas nossas caixas de comentários, contribuindo desta maneira para valorizar este blogue. Com toda a franqueza, esperava, até por isso, argumentos de outro nível da sua parte.
      Talvez isso se deva ao facto de, como refere logo de início, não acompanhar muito a política espanhola…

      1. Pedro, desilusão por desilusão, também os seus constantes posts sobre Zapatero me têm desiludido. Nada contra preferências, mas ignorar constantemente os dados que dei acima é coisa que esperaria de outros comentadores.

        Em relação a argumentos, dei-os acima. Não me lembro (pode ser problema meu) de o ver escrever uma linha sobre o excedente orçamental que a Espanha teve por altura da reeleição de Zapatero. Se é verdade que o PSOE perdeu por muito nesta última eleição, também é verdade que venceu a anterior.

        “Derrotado por uma crise mundial” não é linguagem de spin. É uma realidade. Talvez Zapatero pudesse ter-se colocado mais a salvo dessa crise e talvez pudesse ter feito melhor trabalho uma vez na crise, mas a verdade é que não é só dele. É de duas décadas de políticas governativas a promover um sector da economia que foi o mais afectado pela crise. Isto é um facto absoluto. Não há cambalhota argumentativa que mude este aspecto, ou há?

        Verdade, as eleições decidem muita coisa. Até decidem que um partido que tem dos seus piores resultados eleitorais de sempre em eleições consecutivas, de repente chega ao limiar da maioria absoluta sem qualquer mérito, apenas desmérito do que estava no governo. Por essa lógica poderíamos descredibilizar todo e qualquer partido que tivesse perdido eleições em algum momento da sua história.

        1. Continuo a espantar-me com o seu reiterado espanto, João André. Se o Zapatero foi primeiro-ministro de Espanha desde Março de 2004 até há cerca de um mês e este blogue existe desde 5 de Janeiro de 2009 você esperava que eu responsabilizasse quem pelo estado calamitoso a que chegou o país vizinho? A oposição, de esquerda ou de direita? O Adolfo Suárez? O Felipe González? O Aznar? Diz você que está “desiludido” por eu ter criticado com frequência o primeiro-ministro cessante de Espanha. Lamento tê-lo desiludido. Infelizmente, os acontecimentos acabaram por dar-me razão. Quem se der ao trabalho de ler o que aqui escrevi sobre Z nos últimos três anos não pode concluir outra coisa.

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