Retomar a medida


lauraramos,

Este Natal, por entre o coro dos decretos de contenção que nos rodeou, dei por mim muitas vezes a pensar que há efeitos benéficos na crise.
Senti a sério, pela primeira vez, que quando os recursos faltam e deixamos de poder correr a maratona das aquisições, na busca das coisas com que mobilamos os dias, ficamos com mais tempo para ser inteiros, realmente devolvidos à nossa condição de seres humanos e pensantes.
E não importa se já antes cuidávamos de sentir o Natal dos outros que tinham menos. Nada é igual, agora, quando a atenção ao próximo já não é um exercício abstracto, porque a desolação nos interpela por todo o lado. Que peso tem a minha privação ao pé da tua? Como posso eu chorar-me por ganhar menos e trabalhar cada vez mais, se a cada dia que passa há quem perca o seu modo de vida?
Subitamente, o tempo chegou para tudo.
Voltei a poder escrever dedicatórias. Pude gozar o luxo de um café pausado em plena tarde, ao pé dos meus. Ninguém chegou atrasado à consoada. Não arrepelei os cabelos contra o meu eterno destino de embrulhadora-mor (vá, faz-me lá estes laços, muda-me este papel tão feio, põe-me as etiquetas, esqueci-me de comprar…). Conseguimos, sem dramas, encobrir as prendas do olhar das crianças porque pela primeira vez, há muitos Natais, couberam todas no esconderijo dos meus anos de infância. O Menino Jesus chegou sem tropelias, despachando a sua missão secreta em três tempos. As sinetas tocaram antes do choro das reclamações e do sono. Ninguém perdeu presentes, como antigamente, no meio de festival de sacos e papéis. Todos apreciámos, pausadamente, as ofertas de cada um e de todos. Conseguimos pôr música. E os miúdos estavam estranhamente tão calmos, a contas com um património de novidades gerível e assimilável…
Há muito tempo que não tinha um Natal tão agradável. Olá crise, olá tempo reencontrado, olá família, olá poesia.

18 comentários em “Retomar a medida”

  1. Laura, bom um resto de bom Natal, ainda bem que correu assim como o descreves, dá vontade de ter partilhado convosco o momento. O nosso, com a mesma medida de crise, foi um pouco mais atribulado, mas o meu avô anunciou, do alto dos seus 88 anos, que vai fazer dez viagens para o ano: com crise ou sem crise. E depois deu uma gargalhada. E foi um grande momento:) beijos P

    1. Para ti também, Patrícia 🙂 Adorava conhecer o teu Avô! Tem poucos mais anos do que a minha… mãe, eheh 😉 Só que esta tenta esgueirar-se pelo meio das recordações dolorosas (raio de quadra) e os projectos que faz são todos… retroactivos. O futuro? Vai ser um caos e os seus meninos todos a ser engolidos na voragem… 😉 Feliz Natal.

  2. Estive hoje de serviço entre as sete e as quinze,que as avionetas não param…e volto a entrar daqui a pouco,às 24h. E não foi lá aquele Natal, não senhor…ontem a minha mulher e a minha filha mais nova embarcaram para Londres(as tarifas mais baixas são de aproveitar…),a miúda a preparar o seu Erasmus no King’s College e a minha mulher a ajudar na logística da instalação, que será em apartamento de família,(uma super querida Tia-avó,já algo idosa…). E cá fiquei e cara alegre…e um pouco de poesia:

    “…El lobo blanco del invierno,
    el lobo blanco viene,
    con los feroces ojos inyectados
    en sangre helada, fijos y crueles.
    ¡Maldito lobo invierno, que te llevas
    los viejos y los débiles!

    ¡Reunámonos, que todos
    tengan una familia,
    un libro y fuego alegre!

    Y mientras, fuera, el hacha
    el tronco seco hiende,
    que será rojo en el hogar, cerremos
    la puerta y el balcón… ¡Dios no nos quiere!

    ¡Tregua! Seamos amigos…
    La tibia paz entre nosotros reine
    en torno de la lámpara, que esparce
    la tranquila poesía del presente. …”

    1. Eu já sabia que a minha última frase do post não ia ficar sem resposta sua, Fernando 🙂 Natal em Londres? Que bom número, mesmo que a preparar o Erasmus. Já viu a sorte desta geração? Se há coisa para que valeu a entrada na UE foi essa. E funciona mesmo, sem falhas.

  3. Digo o mesmo, Laura. Finalmente um Natal em paz, sem correrias e sem o caos do costume. Na minha família só as crianças tiveram direito a presentes, foi assim o combinado. Em contrapartida, todos tivemos mais tempo uns para os outros.
    É claro que não podemos apregoar a felicidade da medida recuperada a quem nada tem, nem esta nem sequer uma medida ínfima e minimamente digna. Mas para nós, que temos pelo menos o essencial, foi um exame de consciência e a descoberta (ou a confirmação) de que nada muda por haver menos pacotes embrulhados.

    1. É que não é um exercício estóico de optimismo, Pedro. É mesmo verdade. Há coisas deliciosas que queríamos gozar plenamente e não tínhamos como, por excesso de agenda.

  4. Também percebo este ponto de vista, Laura. Mas a verdade é que ao ler este texto não pude deixar de pensar em todos os que já tinham um Natal assim, mais calmo, com menos atropelos; e que este ano começaram talvez a sofrer por não poder corresponder aos anseios dos filhos. Já para não falar nos que estavam nesta situação em anteriores natais e que não encontram efeitos benéficos na crise. É que para estes não se trata de retomar a medida, mas de utilizar outras medidas com menos capacidade.

    1. Ana, mas então não leste bem, porque claro que tudo isso que dizes está subentendido. E eu não penso nesses casos só agora, porque fui habituada desde que me lembro a pensar neles. E a fazer alguma coisa contra isso, com actos. Mas esta á a minha crónica natalícia, não posso fazer de conta que sou outra pessoa.

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