Guerrilha


Teresa Ribeiro,

 

 

Pelo som que lhe chegou aos ouvidos ainda entorpecidos pelo sono, percebeu que o gato estava mais uma vez no cimo do móvel, a ameaçar as suas estatuetas da Indonésia. Estupor! – chispa ao levantar-se do sofá direita a ele. O bicho baixa o dorso em atitude defensiva e imobiliza-se fitando-a fixamente. Sai daí! – grita-lhe. Ele não se mexe. Tentar agarrá-lo não é opção, pois na precipitação da fuga poderia derrubar uma das peças. Enquanto medita nisto mantém os olhos fixos nos dele em expressão de ameaça. O bichano sustenta-lhe o olhar. Sai daí! – berra-lhe com rancor. As íris verdes assistem, impávidas, ao espectáculo. Sai, filho da mãe! Só as orelhas se movem, rodando na base, como um radar.

Irada, dá mais um passo na direcção do móvel e o gato, ao sentir ameaçada a distância confortável que os separa, põe-se em guarda, recuando ligeiramente as patas traseiras. Uma das peças quase cai. Ela sua. O ódio transporta-a para cenários de suplício: gato a explodir, gato picado, gato esfolado. Mas a razão aconselha-a a mudar de estratégia. Faz-se desinteressada, senta-se em frente à televisão e espera. Daí a poucos minutos sente-o saltar para o chão. Aproxima-se, cheira-a e depois afasta-se indolentemente deixando-a, ainda crispada, a vê-lo desaparecer de rabo alçado na direcção da cozinha.

15 comentários em “Guerrilha”

  1. Adoro gatos e já cheguei a ter mais de meia dúzia deles em casa. Bem, em casa, sim, mas não “dentro” da minha casa. Apesar de não ter ‘estatuetas da Indonésia’, tenho as minhas pequenas coisas que não gosto de partilhar com eles. Além disso, há por aqui gente alérgica ao seu pelo, o que justifica que não os tenha a andar por cima dos móveis, nem a dormir nos sofás.
    Tenho a sorte de ter um pequeno jardim onde os meus bichanos se passeiam à vontade, roçam-se nas minhas pernas a ronronar aguardando as festas de sempre, correm, esgadanham e trepam às árvores. Quando se lhes aviva mais o instinto felino e a ocasião o proporciona, lá caçam um ratinho ou passarito novo que se aventurou e caiu como Ícaro, mas em terra firme. Mas o jardim apenas não lhes chega e todos os dias dou com eles ‘fora de portas’. Não há cerca ou muro que os detenha, como se sabe.
    A vizinhança toda já os conhece e tem por eles uma ternura parecida com a minha. Chamam-lhes carinhosamente os “nossos gatos” e na verdade são-no. Os gatos não têm dono, têm ‘staff’.

      1. Obrigado, Teresa, mas devo confessar que a ideia não foi totalmente minha.
        Há dias, tomava café num espaço comercial e sentaram-se numa mesa próxima duas senhoras vestidas de preto dos pés à cabeça. Nada tendo a dizer em relação à cor da indumentária, causou-me porém alguns arrepios o estilo estival da mesma que era composta por sapatos leves, calças e ‘T- shirt’, tudo muito justo. Era à noite, fazia frio e, mesmo no interior aquecido, aquela não era decerto a toilette mais aconselhável para alguém levar a um centro comercial por esta altura. Reparando melhor, vi entretanto que nas mangas curtíssimas das T-shirts estava escrito em letras brancas “dogs have owners”. De imediato, pensei tratar-se de pessoas ligadas à protecção dos animais domésticos. Só quando se levantaram, pude então perceber os três enigmas que até ali não resovera ainda. Nas costas, em letras brancas bem grandes, podia ler-se “Cats have staff”. Estava, agora, tudo explicado:
        1) As senhoras não eram visitantes do centro, mas sim funcionárias de uma loja;
        2) a indumentária leve, era de facto a adequada para as suas funções;
        3) as inscrições nas camisolas faziam agora todo o sentido.
        Concluí então que seriam de uma cadeia de lojas que tem um gato no nome e a mesma cor das T-shirts. Puxem lá então pelas vossas cabecinhas que ninguém me pagou nada para fazer publicidade ao que quer que seja… eheheh ;-))

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