Na manhã do dia 13 de Junho de 1811, o Sabrina fundeou em frente a Ponta Delgada e o seu comandante não perdeu tempo a dirigir-se a terra e a visitar o cônsul inglês residente em São Miguel, William Harding Read, ficando a saber por este dos diversos sismos há tempos sentidos na ilha e que andavam a espalhar o pânico na população e a suscitar rezas e promessas. À noite, a bordo, a imagem que retinha da erupção não o ajudou a conciliar o sono.
A 14, sem vento que lhe permitisse navegar à vela para a zona do novo ilhéu, James Tillard decidiu aproveitar o tempo disponível: voltou a terra, arranjou cavalos e partiu para os Ginetes, onde pôde observar que o fenómeno ainda se desenvolvia com violência.
No dia 15, a tripulação de Tillard conseguiu levar o barco até perto do vulcão, que continuava a aumentar, mantendo-se com vento fraco a uma distância respeitosa. O caso não era para menos e ninguém ousaria correr riscos desnecessários.
Só a 18 é que lograram chegar mais perto da ilha em formação, a cerca de cinco quilómetros, conseguindo ver o topo da cratera e os blocos, as cinzas e o vapor que eram cuspidos. Tillard entendeu então baptizar a ilha, dando-lhe o nome do navio: Sabrina.

A Sabrina foi desenhada para efeitos de registo no dia seguinte, 19 de Junho, pelo tenente John William Miles, da guarnição do barco. (Esse testemunho está disponível no National Maritime Museum, em Greenwich; o fenómeno interessou estudiosos à época e Charles Darwin também escreveu sobre o assunto.)
Depressa a ilha se elevou de dez metros para vinte metros acima do nível do mar e aparentava ter já um quilómetro de diâmetro. Perante a continuação do tempo desfavorável, o barco regressou a Ponta Delgada. Provavelmente, o capitão Tillard e o cônsul Read aproveitaram dessa vez os dias para planear um desembarque furtivo na ilha que permitisse reclamar a soberania inglesa sobre ela.
Por fim, a actividade do vulcão parou inesperadamente a 4 de Julho. Para as bandas dos Ginetes, a terra deixou de tremer, o que já não acontecia há quase um mês. Com o tempo a favor, Tillard e Read apressaram-se a navegar até à ilha, desembarcaram os dois, hastearam a bandeira inglesa e tomaram formalmente posse dela em nome de Sua Majestade britânica.

A ilha tinha atingido numas semanas perto de cem metros de altura e, como era de esperar, depressa se desencadeou um conflito diplomático entre Portugal e Inglaterra sobre a sua posse. Porém, com a Casa Real portuguesa estabelecida no refúgio do Rio de Janeiro e os ingleses a proteger o país com vários excessos de poder e regalias abusivas à mistura, os portugueses não estavam nas melhores condições para protestar em posição de força.
Só que a nova ilha açoriana, formada por basaltos ainda por compactar e consolidar, não aguentou a erosão do mar: em Outubro de 1811, a Sabrina mergulhava de regresso às profundezas do oceano, com o peso da bandeira inglesa espetada no corpo, para nunca mais ser vista. Sem terra para reclamar, a diplomacia esqueceu o caso e os Açores continuaram com nove ilhas. Do susto só ficou a memória vaga, porque destes sustos se faz o arquipélago…
Ilustrações
• O HMS Sabrina, a ilha em formação e a erupção com tromba-de-água
(desenho feito no local pelo tenente John W. Miles a 19 de Junho de 1811)
• Aguarela da erupção, com o perfil e a planta da ilha Sabrina por baixo

Excelente o texto e a ilustrações.
E a História, tão pouco conhecida.
Que fenómeno espectacular deve ter sido!
Gostei.
É um episódio histórico muito curioso, sem dúvida.
Por circunstâncias inopinadas, já era do meu conhecimento, mas achei extraordinário trazerem o tema, quase lendário, por desconhecido…para discussão. Deu para constatar o modus operandi da potência, que à altura dos factos, até nos tinha(Portugal) em situação de Protectorado…não estivéssemos em pleno período das Invasões Francesas e o nosso D.João VI a banhos, quiçá na praia de Copacabana…adorei a ‘estória’ que o não é…
gostaria de escrever sobre coisas que eu sei….gostaria de ter um blogg…enfim, gostaria de entrar neste mundo da net…porque só a semana passada aderi…