Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Muito boa escolha.
Pátria
Soube a definição na minha infãncia.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.
Hoje sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.
Também gosto desta, de Torga. Coisas…
Bela, essa definição do Torga.
A Sophia é sempre uma boa escolha, João.
Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
… por mais bela que seja…
A mestria poética que é precisa para acrescentar essa conclusão esmagadora a um poeminha quase infantil! Os brancos pavores ficam claramente explicados, assim como o transformismo de flores e animais. Sophia é genial.
Um poema muito bonito, neste dia que já muitos ignoram o que celebramos.
O último comemorado em dia próprio…
O último, Alexandra, é verdade. Mas mantém-se o significado deste dia tão importante, com ou sem feriado.
Belíssimo poema da Sophia, muito apropriado à data.
E tão actual, já viste? A tua escolha também me encantou, como me encanta sempre a doçura do poetinha.
Na foto a Nau dos Corvos, rochedo adjacente ao Cabo Carvoeiro (Peniche). No horizonte a ilha da Berlenga, quase imperceptível devido à neblina.
(perdoe-me a intromissão mas é a minha terra…)
Justíssima referência, JP. O Baleal, mesmo ao lado, foi também a “minha terra” de adopção no Verão durante muitos anos. E toda essa zona se transformou numa paixão eterna para mim.
Não foi por acaso que escolhi esta imagem: na Nau dos Corvos, é Portugal inteiro que se faz ao mar.
Obrigada pela achega.
Sophia é assim mesmo, perspicaz e patriota.
Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Com onze palavras Sophia definiu um povo com oitocentos anos de história.