O homem e a sua (no caso, a minha) circunstância


Rui Rocha,

 

Ultrapassei os 40 anos de idade sem grandes danos visíveis. Um poucochinho menos de olhos. Um nadinha mais de barriga. As orelhas são o que sempre foram. O nariz tem a amolgadela que ficou daquela épica final do basquete escolar em que fiz 3 pontos com o septo nasal. A somar a isso, uma cicatriz muito disfarçada (embora o ortopedista sul-americano que fez a sutura tenha realizado um esforço sério no sentido de deixar  uma marca para toda a vida) e que foi provocada pelo embate de uma tábua na cabeça, em pleno AKI, num raríssimo episódio em que me preparava para cometer bricolage. É certo que análises realizadas após 15 anos de irresponsabilidade indicam um problemazinho nos triglicerídeos. Mas, não é um desvio colossal! Os sacanas ainda não foram promovidos a tetraglicerídeos ou reclassificados em colesterol. No ácido úrico é que já não há folga nem almofada. Não posso continuar a acumular picanha, mexilhões, alheira de caça (não, Armando, ninguém te chamou) e espinafres. Nesse caso, tanto pior para a sopa de espinafres. É uma decisão dura, mas não há alternativa. Daqui a 15 anos, quando fizer análises outra vez, os benefícios desta medida brutal serão evidentes. Assim sendo, com o cabelo rigorosamente da cor que o ADN lhe deu, e embora a estatística não apoiasse essa tese, nada impedia que este cidadão continuasse a aspirar à imortalidade. Desde que, naturalmente, fosse possível resistir à tentação da bricolage. E à sopa de espinafres. Dah, imortalidade…, atira-me o leitor. Pois digo-lhe que já me aconteceram coisas que, vistas daqui, parecem bem mais improváveis. Ou existirão muitos que, na mesma vida, tenham levado com uma tábua na cabeça em pleno AKI e marcado 3 pontos com o septo nasal? Ah pois é! Subitamente, todavia, a harmonia foi definitivamente abalada quando, numa operação rotineira de lavagem de mãos, encarei o espelho e, oh tragédia!, oh desgraça!, oh memorando da troika na parte que diz respeito à Banca!, o vi ali, mesmo por cima da orelha esquerda. O primeiro cabelo branco! O impulso foi, naturalmente, para o arrancar sem piedade. Mas, já na iminência do gesto irreflectido, a vastíssima experiência de vida  aconselhou um período de reflexão: “calma, não viste já tantos ministros da economia declararem, num momento de vertigem, o fim da crise, comprometendo assim toda a escassíssima credibilidade que lhes restava? Sim! E não ouviste já dizer, num cabeleireiro, que quando se arranca um cabelo branco nascem logo milhares? Pois ouvi”. Foi deste diálogo interior que nasceu o pensamento estratégico e o plano de acção com base científica. Se Portugal ganhar à Bósnia, arranco o sacana. Caso contrário, ele fica. É bem sabido que um mal nunca vem só e não posso correr o risco de acordar amanhã com a selecção fora do Euro de dois mil e coiso e com a cabeça tão branca como a do Avô Cantigas. É certo que, se a coisa correr mal, será necessário tomar medidas adicionais. Sobre este ponto, mantenho uma certa reserva. Levantarei apenas a ponta do véu (sim, entretanto comprei um véu, não vá o diabo tecê-las) para dizer que ali o Hulk foi a fonte de inspiração da solução que congeminei e que espero, a bem do futebol nacional, não ter de pôr em prática. E é assim que me encontra, leitor. Angustiado, é certo, mas também muito determinado. Entretanto, não há texto profundo, como é o caso deste, que não deva concluir-se com uma citação de Ortega Y Cassette. Pois aqui estou, homem, com a minha circunstância. No caso concreto, esta tem todo o insustentável peso de um cabelo branco.

29 comentários em “O homem e a sua (no caso, a minha) circunstância”

  1. Tem de falar com o Vítor Constâncio, para saber qual é o segredo para uma cabeleira «imaculadamente preta» aos sessenta e muitos…

    1. Desta vez, não vou aceitar a sua sugestão, Luís. Um tipo que não vê certos problemas macro-ciclópicos a dois metros do nariz não vai conseguir ajudar-me perante tão grave problema.

    2. Bem observado!
      Parece uma “mexicana engraxada”, no caso mexicano. Deve ter sido essa graxa que lhe garantiu um passaporte que o levou ao “eldorado”.

  2. Rui,

    Já que partilhamos intimidades, uma confissão. Senti-me velho quando, aos 30 e muitos foi olhado no elevador, com ar guloso, por uma senhora de 50 e tal. Se não lhe aconteceu, ainda não envelheceu verdadeiramente, independentemente dos cabelos brancos.

      1. Fui e não foi, obviamente. Quem nos tenta seduzir é um bom indicador do nosso índice de “velhice”. Ou como dizia o outro “Quanto mais velho menos desejável e mais exigente.” Paradoxos!

  3. Hulk contrariou todos os ditames científicos: o cabelo dele reverteu à tonalidade original. O mesmo já não pode dizer-se do Abel Xavier (por onde é que este anda?) nem, naturalmente, do Jorge Jasus.
    (prepara-te para arrancar o cabelo, Rui)

  4. Uma alma benfazeja já resolveu aí acima o problema das brancas, com a solução Constâncio. E é perfeitamente seguro, a tintura Constâncio melhora o cabelo sem danificar o cérebro, a despeito das aparências.
    Agora para o ácido úrico ninguém lhe disse nada, cambada de ignorantes. Mas, sorte sua, ando por aqui: o Amigo não toque em salada de alface, evite o verde (em particular o tinto). E não precisará de Zyloric.

    1. Bem, os meus amigos insistem na solução Constâncio e eu replico que farão o favor de a experimentar no vosso próprio escalpe que eu, por mim, não vou nisso. Pois se a tal tintura tudo o que fez foi deixar peladas na supervisão… Quanto ao verde, agradeço e penso que por aí não virá problema. Vejo agora o Sporting muito mais maduro.

    1. Este já não me incomoda mais, Laura. Com a ponderação que me caracteriza, arranquei-o, pisei-o até ter a certeza de que dali não vinha resistência, amortalhei-o convenientemente em papel de secar as mãos e sepultei-o no caixote do lixo.

  5. Por muito estranho que te (e me) pareça o que vou dizer, somos quase gémeos nessa coisa da… circunstância. Ou das várias circunstâncias. Não acreditas? Eu explico, olha aqui:
    1. Levei literalmente com uma tábua na cabeça (pior, no ouvido) num maldito corso de carnaval em Alhandra que tive de atravessar um dia. O meu ódio a carnavais de rua, já então bem instalado, cresceu de tal maneira que virou uma espécie de fúria assassina contra folgazões idiotas que se divertem a enfarinhar, empurrar e quase matar os incautos transeuntes que não têm nada que ver com aquela anormalidade infantilóide.
    2. O único osso que parti em toda a minha vida foi o do nariz, numa queda estúpida à porta de casa num dia de chuva. Cheia de sacos e outras tralhas nas mãos, fui de nariz ao chão sem apelo nem agravo. Ou melhor, com o agravo de ter acabado nas urgências da Cuf à hora de jantar, onde tive de responder estoicamente – e sem me rir muito – a meia dúzia de perguntas camufladas sobre violência doméstica. O meu septo nasal já era meio torto, ficou pior.
    3. Tenho poucos cabelos brancos, graças a um bom ADN materno. Mas tive o mesmíssimo choque que descreves quando descobri o primeiro, ao espelho, (agora já me passaram os chiliques, felizmente).

    Como vês, não te menti. Distingue-nos a questão da insustentabilidade: quem me dera que as minhas angústias estivessem no peso do cabelo…

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