O meu voto.


vidabreve,

Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.

 

Como o meu campo ideológico natural corresponde à direita do PS, e como esse campo foi sequestrado pelo primeiro-ministro — um primeiro-ministro que traiu quase tudo em que acredito — restar-me-ia, em condições normais, votar no Bloco de Esquerda ou no PSD. Não vai acontecer.

 

Não votarei no Bloco, porque foi um aliado objectivo dos socialistas. Em momento algum o partido de Louçã denunciou o endividamento galopante ou o delírio das obras do regime — pelo contrário, apoiou-o muito para além do bom senso. Ainda hoje, em campanha, o BE dirige tantos ataques à direita como ao partido que durante seis anos nos conduziu à miséria. Eis uma estranha forma de responsabilização.

 

Não votarei no PSD porque há um excesso de alegria entre os social-democratas. A alegria de quem vendeu a alma por uns patacos e agora rejubila perante a perspectiva, auspiciosa, de criar dois ou três milhões de pobres. Este PSD despreza os mais fracos, os mais velhos e os que não se safaram. Um partido assim não merece o meu voto.

 

De resto: preferiria vestir calças vermelhas e calçar sapatos com berloques a eleger Paulo Portas. A demagogia deve ser limitada pelo pudor, o pudor deve subordinar-se a princípios e os princípios não são uma merda que um tipo enrole ao pescoço para exibir com aisance entre retratos de peixeiras e coquetéis no Estoril. A direita que tenha juízo.

 

Sobra o PCP? Não, não sobra. Mas respeito a devoção autêntica dos comunistas à gente humilde, e terão o meu apoio nas autarquias.

 

Em 2011, o ano em que eu mais queria que o meu voto contasse, vou votar em branco. É assim desde 2005, e já estou muito, muito farto.

18 comentários em “O meu voto.”

  1. Como o compreendo, caro Luis M. Jorge.
    Votei brancos anos a fio ( para aí desde 1980 a 1990 )…depois passou-me.
    Nas últimas presidenciais anulei mas nestas voto e já sab em quem 🙂
    Cumprimentos

  2. Caro amigo, como eu o compreendo!
    Compreendo-o nas motivações, mas não na conclusão a que chegou.
    Com certeza não lhe vou dizer nada de novo, mas faço-o na mesma. Faço-o pq sou ingénuo ao ponto de acreditar que é possível que não saiba o que lhe quero dizer. Mas faço-o tb para alertar todos os que leiam as suas palavras, se identifiquem com as motivações e sejam induzidos em erro sobre a bondade da conclusão.

    No nosso sistema político, votar em branco vale o mesmo que não votar, uma vez que as percentagens dos partidos são (infelizmente) calculadas exclusivamente com base nos votos expressos, isto é, nos votos não brancos nem nulos (portanto, expressos validamente em qualquer partido).

    Exemplificando: universo de 100 eleitores, votam 20, sendo 8 brancos, 2 nulos, 3 no partido A, 5 no partido B e 2 no partido C.
    Os votos expressos seriam 10 (3 + 5 + 2), de modo que aqueles partidos obteriam o seguinte resultado eleitoral: partido A – 30%; partido B – 50%; partido C – 20%.

    Como é bom de ver, votar nulo, votar em branco ou ficar em casa tem exactamente o mesmo valor eleitoral, isto é, nenhum.
    Ficar em casa é mais económico e menos cansativo, sendo igualmente ineficaz. Ainda por cima, qd contabilizam a abstenção (os não votantes) às vezes esquecem-se de incluir os votos em branco (que são os verdadeiros abstencionistas em sentido próprio, uma vez que os não votantes podem ter tido outra motivação para não votar).
    Os votos nulos são equívocos, pois tanto podem constituir um voto de protesto como resultar da inépcia ou da imperícia do eleitor (há pessoas cujas dificuldades motoras, visuais ou outras as impedem de expressar validamente o seu voto).

    CONCLUSÃO: Nem à indignação nos dão direito, uma vez que os votos em branco não têm qualquer relevo eleitoral. Diferentemente seria se fossem contabilizados como os expressos, deixando vazias as cadeiras dos candidatos elegíveis…

    Resulta do exposto que apenas é economicamente mais acertado não ir votar no caso de total desinteresse do destino do país (o que é, aliás, anti patriótico!).
    A atitude mais responsável é votar expresso num partido, nem que seja para fazer diminuir a percentagem do partido ou partidos relativamente aos quais tenhamos uma posição definida pela negativa. Isto pq qts mais votos tiverem os restantes partidos, menor percentagem terá o partido que pretendemos ver penalizado.

    Voltando ao exemplo acima referido.
    Supondo que 10 dos 90 eleitores que não votaram em nenhum dos 3 partidos tinham uma preferência pela negativa relativamente ao partido que não queriam que ganhasse, podiam ter influenciado decisivamente a votação.
    Supondo que desses 10, p. ex., 4 não queriam que ganhasse o partido A e 6 não queriam que ganhasse o partido B e, portanto, esses 10 votavam no partido C.
    Nesse caso, os resultados eleitorais seriam totalmente diversos: universo de 100 eleitores; 3 votos no partido A, 5 no partido B e 12 no partido C (2 por convicção e 10 por descontentamento em relação aos outros partidos). Resultado eleitoral: partido A – 15%; partido B – 25%; partido C – 60%.
    Este exemplo é propositadamente exagerado, para demonstrar os efeitos que poderiam ter os votos dos descontentes que, em vez de inutilmente se absterem, resolvessem votar contra o partido que não querem. Sendo especialmente de salientar que os partidos preteridos mantiveram o número de votantes e, apesar disso, diminuíram a sua percentagem (neste caso para metade, por ter havido o dobro dos votos expressos).
    Nesta medida, não só se demonstra que um voto em branco (ou nulo, ou não votar) não tem qualquer utilidade, como tb se demonstra que se esse eleitor tivesse votado expresso teria por efeito fazer diminuir a percentagem dos partidos nos quais não votasse. O que demonstra a utilidade do voto, ainda que não se tratasse de um voto por convicção no partido escolhido.

    É por estas razões que, apesar de comungar das motivações do autor do texto, decidi proceder exactamente ao contrário: ir votar expresso num partido.
    Ainda não sei qual é o partido que irá beneficiar do meu voto, mas já sei quais são os partidos que serão prejudicados.
    Provavelmente, o autor do texto encontrará vantagem em votar num dos partidos que elencou. E, se não encontrar nesses, encontrará noutro qualquer que não mencionou.

      1. Apesar de tb compreender tal, reforço o meu argumento com a seguinte citação:

        “Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.”

        Essa certeza impõe o voto, expresso e “contra”. Senão, seremos cúmplices daquela doença.
        Pense na doença e no remédio para a curar: custa a tomar mas é um “mal” necessário. Troque o mal que sabe pelo bem que faz. Apenas isso.

        1. Excelente remate, Alberto. Um KO ao Luís, e com os seus próprios argumentos! 🙂

          Eu digo isto mas também ainda não sei quem levará o meu voto. Estou à espera de uma inspiração de momento ou de uma iluminação divina, no momento de pegar na caneta e olhar para o papel. Talvez acrescente um quadradinho e escreva lá dentro LOL.

  3. Luis, não o entendi.

    Se se ler com calma, vai perceber que o que diz não faz qq sentido.

    Até a minha avó dizia que “o óptimo é inimigo do bom”.

    Votar no umbigo é mesmo a única coisa que não devemos fazer.

    Para votar basta haver 2 candidatos, mais do que isso é um luxo e nem assim vc se orienta? Espiga!!

  4. Vote num dos pequenos partidos. Assim, sempre lhe sobraria a esperança de eleger um deputado. O seu voto poderia não contar para nada, mas até à noite você teria a esperança de que contasse.

    1. Como resulta do meu comentário supra, o voto expresso num qualquer partido conta sempre, mesmo que não sirva para eleger qualquer candidato. Aliás, um voto nunca serve para eleger um candidato.
      Com efeito, ainda que um voto não influencie os candidatos eleitos, influencia sempre a percentagem
      eleitoral dos partidos. Ora, não é igual que um partido eleja x candidatos com y% ou com z%. Pelo menos do ponto de vista da legitimidade democrática.

      Um bom exemplo do que acabo de dizer aconteceu nas últimas eleições legislativas, relativamente às percentagens eleitorais e aos candidatos do CDS e do BE:
      CDS: 10,43% – 21 deputados;
      BE: 9,81% – 16 deputados.
      Ou seja, apesar de terem tido uma votação percentual muito semelhante (com uma diferença de apenas 0,62%), obtiveram uma representação parlamentar com uma diferença de 2,18%.
      Dizendo de outro modo. Se o CDS conseguiu 21 deputados com 10,43% dos votos, significa que apenas precisou de pouco menos de 0,5% para eleger cada um dos seus deputados. O que significa que apenas precisou de cerca de 8% para eleger os 16 deputados que o BE elegeu (apesar de ter tido 9,81%).
      Se o BE tivesse a mesma ratio de eficácia %/deputados, bastar-lhe-ia 8% para eleger os 16 deputados que elegeu. No entanto, tendo de se conformar com os 16 deputados que elegeu, suponho que o BE prefere ter tido 9,81% do que ter apenas 8%, mesmo que fosse suficiente para eleger a quantidade de deputados que conseguiu eleger.

      Por isso, qualquer voto é útil, desde que seja expresso num partido, seja ele qual for.
      Sendo certo que esse voto sempre fará diminuir as percentagens dos restantes partidos.

  5. “Mas respeito a devoção autêntica dos comunistas à gente humilde…”
    Sim tanta devoção que a sua prática é criar cada vez mais.
    Fica também por explicar onde é que o PCP – e desde o 25 de Abril – não foi aliado do PS no aumento do endividamento…tal como o Bloco.

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