DEBATE PEDRO PASSOS COELHO-FRANCISCO LOUÇÃ
Foi um bom debate: Francisco Louçã e Pedro Passos Coelho olharam-se de frente, ouviram com atenção o que o outro dizia sem atropelarem discursos, evitaram o recurso a frases feitas. Respeitaram-se mutuamente, o que tem muito a ver com as expectativas geradas pelas últimas sondagens aos partidos que ambos lideram. A Passos Coelho interessava dar algum palco a Louçã, que segundo os mais recentes estudos de opinião tem visto fugir votos para o PS. O coordenador do BE tinha uma preocupação simétrica: interessa-lhe progredir eleitoralmente à custa dos socialistas, o que o inibe de transformar o PSD em adversário principal.
Neste aspecto, a estratégia de ambos foi bem sucedida. Louçã evitou acantonar-se na esquerda mais radical: um socialista da ala esquerda poderia subscrever sem reserva tudo quanto disse neste debate travado na TVI, sob moderação de Judite Sousa. Por seu turno, o presidente do PSD – apostado em pescar votos à sua esquerda – mostrou-se, algo surpreendentemente, de acordo com os bloquistas em pelo menos cinco matérias: na possibilidade de renegociação da taxa de juro do empréstimo da Comissão Europeia a Portugal, na necessidade de evitar que os reformados sejam penalizados por este acordo, nas críticas à banca por ter concedido demasiado crédito à habitação na última década, nas vantagens de haver um orçamento de Estado de base zero e na urgência de pôr o País a crescer.
Louçã esteve, no entanto, mais acutilante e objectivo do que o seu interlocutor. Passos Coelho continua a revelar alguns defeitos centrais nestes debates: gasta demasiadas palavras para dizer coisas que deviam ser ditas de forma mais simples (hoje lá voltou ao jargão tecnocrático, falando em spread e benchmark) e falta conteúdo social ao seu discurso. Diminuir a dívida do Estado é um objectivo fundamental, mas o voto dos eleitores joga-se em questões relacionadas com o quotidiano directo e concreto. Num país com 700 mil desempregados, a omissão deste tema no discurso do líder do principal partido da oposição é quase inexplicável. Tal como é o combate que hoje decidiu fazer ao programa Novas Oportunidades: ao abrir tantas frentes de ataque, acaba por não se concentrar no essencial.
O coordenador do Bloco de Esquerda marcou pontos ao confrontar Passos com o caso da Madeira, onde o PSD governa desde sempre com maioria absoluta: o Jornal da Madeira, “uma folha de propaganda do Governo” de Alberto João Jardim, “tem um défice acumulado de 50 milhões de euros”. Por outro lado, acentuou, o Governo Regional “atribuiu a uma empresa do secretário-geral do PSD Madeira o aterro da baía do Funchal, obra de 40 milhões de euros” . As questões da Madeira perturbam sempre os líderes nacionais do partido laranja. Passos virou a agulha de imediato: “José Sócrates, em seis anos, duplicou o passivo das despesas públicas, que representa praticamente dois terços do dinheiro que pedimos emprestado ao exterior.”
Louçã também marcou pontos ao invocar, em socorro do combate ao memorando assinado com a Comissão Europeia e o FMI, a opinião de Bagão Félix, um homem situado num quadrante político muito diferente do Bloco. O seu ponto fraco, tal como ocorreu em anteriores debates, relaciona-se com a dificuldade em explicar com precisão como renegociaria a dívida pública portuguesa.
Do lado de Passos, os melhores momentos ocorreram na primeira metade deste frente-a-frente, quando utilizou palavras duras para caracterizar o desempenho do Executivo socialista: “O Governo conduziu o País a uma penúria absoluta.” Palavras que muitos portugueses certamente subscrevem. Resta-lhe recorrer com mais frequência a esta linguagem sem rodeios para concretizar o objectivo que enunciou: “O PSD tem a obrigação de ganhar estas eleições.”
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FRASES
Passos – «O País precisa de se livrar de um governo que foi incompetente e irresponsável.»
Louçã – «Este ano e no próximo ano Portugal será o único país do mundo a empobrecer.»
Passos – «Precisamos de pôr a economia a crescer.»
Louçã – «O PSD é o campeão das despesas do Estado gordo.»
Passos – «[Louçã] dá a sensação que gostaria de mudar de sociedade. Eu esforço-me por mudar a sociedade.»
Louçã – «Nas questões que afectam a vida das pessoas, não podemos viver no toca-e-foge.»
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ADENDA
Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Manuela Ferreira Leite-Francisco Louçã da campanha legislativa de 2009.



Uma boa análise, mas bastante condescendente com PP Coelho.
Confesso que hoje tive pena de Passos Coelho, um deserto, para além dos ataques banais ali não germinou nada.
Foi mais uma amena cavaqueira para discutir pintelhos, com patrocínio da Judite.
Mas apesar de todas os jeitinhos da entrevistadora, os conselheiros do PPC continuam sem conseguir pôr o candidato mais africano … a passar uma mensagem que faça a diferença.
Caro Pedro,
Faço link.
Obrigado.
Abraço.
Obrigado eu, Ana Paula.
Passos Coelho: comece o debate ao ataque: quem levou o pais à bancarrota, quem prometendo 150000 empregos, gerou mais 300000 ou 400000 desempregados, quem ofereceu novas oportunidades, lançou esperanças a 500000 desesperados com a incompetência que reconhecem quando, por excepção, se empregam, quem nunca pediu contas dos milhões gastos em cursos de formação, quem permitiu os milhares de empregos concedidos recentemente a “boys ” sem concurso. E já agora: porque não anunciar que, se for governo, todos os que entraram nas empresas públicas sem concurso, nos ultimos dez anos, terão de se submeter a concurso. Por decreto aprovado na Ass.da Rep . ? Alberto Quadros http://www.sonhoscomsorte.blogstop.com )