Entre o ser e o não ser
Afinal, tudo o que acontece é História.
E vivo a História, esse livro em branco que trago sempre comigo, debaixo do braço ou dos olhos, um livro em aberto, cheio de páginas sem nada, à espera de serem escritas, e tantas vezes reescritas, e eu que vou escrevendo, à medida que me vou lembrando de tudo aquilo de que me vou esquecendo.
E vivo a História, a minha e a dos outros, a História de onde vim e a outra, a que só a sonhar penso poder ser a que todos os dias vou vivendo, até um dia.
Tudo pode mudar dentro de mim, e à medida que leio “eu já me leio”, e me interpreto, me inter-relaciono e me vou sendo. É em cada um desses momentos da História que escrevo e vivo, ao sentir-me um rio a passar pelo tempo, e que é sempre diferente, como aquele outro rio de que já falava Heráclito.
É quando me lembro de Shakespeare quando exclama “oh! quem me dera ser do tamanho do universo e caber dentro de uma casca de noz”. Será que descobriu o infinitamente grande e o infinitamente pequeno? pois não sei, porque só sei que quando me penso me sinto grande e pequeno. Me sinto. E é tudo!

E continuando a fazer História dei comigo a pensar Lisboa, nos seus recantos, becos, labirintos, escadas por onde se sobe e se desce. Por onde só se sobe ou só se desce. E lembrei-me de que todos os altos e baixos que também trago dentro de mim, em Lisboa, terão sido feitos pela cauda daquela Rainha de Ofídeos, que por aqui tinha o seu reino, e que ao sentir que Ulisses a traía, lhe fugia, correu a arrastar-se, louca de amor, aflita, angustiada, sedenta de o abraçar, e a fazer com a imensa cauda as sete colinas de onde ia vendo Ulisses cada vez mais ao longe a sair barra fora, para os braços de outras serpentes que também lutaram para que ele não voltasse para os braços e para os beijos de Penélope.
E, como ela, também me sinto condenado a andar de um lado para o outro, sem rumo, sem destino, já sem crença nem esperança, numa procura de um Ulisses que trago dentro do peito, de mim, e me condenou a procurar eternamente já nem eu sei quem nem o quê. À procura, se calhar, simplesmente de mim, ao ser a própria procura sem precisar de mais nada, inquieto, curioso, ávido de saber, por fim, quem sou.
Depois dou comigo a sonhar, um sonho feito de pedras e carne, de movimentos e músculos, de tonalidades e nervos, e a olhar as pessoas que passam, diluídas nos seus pensamentos, nas suas buscas, até nas suas “paisagens passadas”, nos seus desencontrados encontros. Eu próprio não sei nada delas, porque não as encontro nem me deixo encontrar por elas. Sofro-as, nesta agonia que nos é comum, neste último combate entre a vida e a morte, entre Eros e Tanatos, entre o ser e o não ser, entre estar comigo e não estar. Entre. Sempre entre qualquer coisa ou alguém, a sentir a falta de uma ponte, para poder saltar de mim para mim e por fim te encontrar, mesmo que só no além.
Antes de fechar o livro do meu dia, volto a ler o “Testamento” de Jean-Paul Sartre e onde ele diz: “O essencial não é aquilo que se fez do Homem, mas aquilo que ele fez daquilo que fizeram dele.”
É História.


Obrigado por esta visita ao DELITO, José Manuel. Um abraço.
Gostei de ler-te- Como sempre, obrigas-me a olhar para dentro.