A Ensitel e a Maria João


Teresa Ribeiro,

Em tempos, alguém que trabalhou num departamento de apoio ao cliente de uma grande seguradora confidenciou-me que logo nos primeiros dias lhe fizeram chegar a advertência: “Este serviço serve para defender os interesses da empresa e não dos seus clientes.” Mais: “Qualquer excesso de zelo relativo ao acompanhamento de um cliente será devidamente punido.” Recordei-me deste episódio quando tomei conhecimento, através do post que Paulo Gorjão aqui deixou, da autêntica telenovela que se desenrola desde o início de 2009 entre a Ensitel e a nossa Maria João Nogueira, do Sapo. Lamento o que ela está a passar, mas se o seu caso tem algum mérito é o de constituir um exemplo para todos nós, incautos consumidores, pelos melhores e pelos piores motivos, por isso merece ser amplamente divulgado.

Vale a pena consultar todos os links que MJN alinhou para percebermos como é que uma simples reclamação pode evoluir para um processo em tribunal. Se tal aconteceu foi apenas porque  MJN decidiu não abdicar dos seus direitos  e ser mais forte que todo o sistema, que devido à nossa irrelevante cultura cívica, ainda se consubstancia em torno dos interesses das organizações e não dos seus utentes ou clientes. Como a cultura é esta, a expectativa é a de que os queixosos desistam. Desistir é tão normal que se alguém se recusa a fazê-lo provoca estranheza junto de quem lhe é próximo. No caso da empresa visada, hostilidade.

O tempo em que o cliente tinha sempre razão, já era. Agora, perguntam-nos, untuosos, em que nos podem ser úteis, ao mesmo tempo que tecem as linhas com que nos hão-de neutralizar, entre sorrisos. Mas mudar este modelo não é complicado. Basta fazer bem o nosso papel, que é o de não ceder à primeira dificuldade. A perseverança da Maria João é, neste contexto, um acto de cidadania. Houvesse ao balcão destas empresas pepsodent meia dúzia de melgas como ela por dia e a situação tornar-se-ia insustentável. A arrogância e a falta de transparência passariam a ser inviáveis do ponto de vista comercial e os consumidores teriam uma vida muito mais tranquila.

Parabéns, Maria João, e boa sorte.

16 comentários em “A Ensitel e a Maria João”

  1. Tens razão em tudo, especialmente na ampla divulgação que o caso deve ter. Divulgação para que, como dizes, contribuiu o post do Paulo Gorjão. E o post anterior da Ana Margarida Craveiro.

  2. A forma como este assunto de difundiu pelas redes sociais e blogosfera demonstra que algo está a mudar da parte dos cidadão na defesa dos seus direitos, até porque d Justiça duvido que venha a defender os mais fracos neste tipo de situações.

    1. Estou convencido do contrário, Carlos. Acho até que a Justiça não tem quaisquer dúvidas em decidir casos destes a favor de quem viu os seus direitos atropelados e espero sinceramente ter razão.

      O único problema reside na demora que estes casos possam sofrer, o que implica a injustiça de não ser feita justiça em tempo útil.

        1. Não me referi à Justiça no seu todo, Carlos, porque é impossível ignorar uma série de evidências.

          No caso vertente, estou a referir-me à justiça dos tribunais (a justiça decisória) face a direitos básicos dos cidadãos.

  3. A Maria João é uma heroína. Todo o meu apoio para uma portuguesa que não torce perante os aprendizes de feitiçaria.

    Teresa: um ano novo cheio de coisas boas. Bj

  4. Eu já tinha tomado conhecimento deste escândalo pelo post da Ana Margarida. Como deixei escrito na caixa de comentários da Jonas, é hora de retribuirmos o destaque que ela tantas vezes dá aos nossos posts. Por isso acho muito bem que o Paulo, e agora tu, voltem ao assunto. A actuação pidesca da Ensitel é inaeitável, e só espero que nenhum tribunal lhe dê razão.

    1. Pois, o que eles merecem é que se faça deste caso uma caixa de ressonância. Para a próxima pensam duas vezes antes de tratar desta forma arrogante e – disseste bem – pidesca um cliente.

  5. Muito bem, Teresa. Tocas no ponto certo, ao destacar a atitude da Maria João pelo lado que me parece mais relevante: ela “decidiu não abdicar dos seus direitos e ser mais forte que todo o sistema, que devido à nossa irrelevante cultura cívica ainda se consubstancia em torno dos interesses das organizações e não dos seus utentes ou clientes.”
    Para ela, o meu aplauso. E a minha solidariedade. Fico muito satisfeito ao perceber que a dinâmica dos blogues, neste assunto como em tantos outros, contagiou os meios de comunicação clássicos, que já não vivem sem uma consulta permanente à blogosfera e às redes sociais.

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