Primeiro, foi Cavaco Silva a afirmar que a pobreza em Portugal é uma vergonha. Depois, foi um debate entre candidatos presidenciais em que assistimos a um estranho campeonato entre a Liga Sagres da pobreza (os pobres de Lopes) e o Campeonato do Mundo da pobreza (os pobres de Nobre). Agora, é Sócrates que acusa os que utilizam a pobreza de forma descarada.
No caso de Cavaco, o que choca é a invocação da pobreza vinda do político profissional no activo com mais anos acumulados de exercício do poder. A vergonha, a ser de alguém, é também dele. No caso de Lopes e Nobre é a completa falta de respeito que a competição em que se envolveram revela pelo objecto (reafirmo: objecto). ‘Eu também vi pobres’ contra ‘Os meus eram mais e mais pobres’. É evidente que se trata de um campeonato com perdedores anunciados: os pobres de um e de outro. No caso de Sócrates, é ainda a utilização dos pobres como arma de arremesso: ‘tu falas de pobres mas, eu que sou moralmente superior, não os invoco, embora os utilize para afirmar a minha superioridade moral’. Isto vindo de quem, nos últimos anos, pela sua incompetência e irrealismo tem vindo a condenar franjas significativas da população à pobreza e à desprotecção social.
Conclui-se que os pobres estão na moda. Pelas piores razões. Os políticos abriram a época de caça ao pobre. Querem ostentá-los nas suas campanhas e nas suas intervenções. São um estandarte. A cabeça de um pobre é um troféu. Se em vez de uma, forem várias, tanto melhor. E, em certas circunstâncias, os políticos querem mesmo parecer pobres. Passos Coelho não vai dar prendas de Natal às filhas mais velhas… É uma pobreza de ocasião. Sim, que em matéria de pobreza vale muito mais parecer do que ser.
Nada disto é um exemplo. Mas, é um sintoma. A proximidade aos pobres interessa porque eles já são muitos. E cada vez serão mais. É claro que a pobreza é uma vergonha. Mas, utilizá-la sem vergonha é uma pobreza. De espírito e de ideias. A nenhum destes arremessadores de pobres se ouviu um único projecto que permita combater a pobreza. Quando muito, assistimos à afirmação de projectos pessoais de utilização da pobreza.
Como dizia Guerra Junqueiro, pobres de pobres são pobrezinhos. E os nossos estão cada vez mais sozinhos no meio de uma multidão. De oportunistas.

Nesse concurso de arremessadores de pobres, convenhamos, o primeiro prémio cabe a quem tem a pouca vergonha de acusar os outros de não terem vergonha.
Isto é, o mais desavergonhado e incompetente primeiro-ministro que o País teve (e continua a ter) desde o reinado da D. Maria.
Nem os 400 primeiros-ministros (fora os ameaços…) da I República lhe levam a palma, digo eu.
Será sempre um ranking da vergonha, Alberto.
Tenho muita pena das filhas do Passos Coelho, tadinhas. Alguém já se lembrou de fazer uma recolha de presentes para as pobrezinhas?
Sócrates, por exemplo, é homem para isso, Leonor.
Rico texto, caro Rui Rocha.
Infelizmente, que pobreza de política (e de políticos)…
Cumprimentos.
Bem precisávamos de um bocadinho melhor, Adão.
roubei para a pastelaria.
Sirva-se à vontade, Ana Cristina
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