Antecipando as conclusões, a tese que aqui defendo é a de que, independentemente dos conteúdos já divulgados e a dos que o vierem a ser, o caso wikileaks representa, sobretudo, uma mudança de paradigmas. Assange é um jornalista? Qual o grau de segredo que deve ser preservado? Quais os limites à liberdade de expressão? A realidade não é o que parece, quer no que diz às intenções de Assange, quer no que diz respeito ao(s) crime(s) pelos quais foi detido? Está certo. São tudo questões muito estimulantes. O que me parece é que, numa perspectiva de entendimento do futuro, é tão útil discuti-las como debater o movimento de rotação da Terra. O leitor gostaria que o dia tivesse mais quatro ou cinco horas? Também eu. A má notícia é que o movimento da Terra em redor do seu eixo demora 23h e 56 minutos. Vamos então discutir o quê? Apesar de tudo, sobre este ponto, há algo que não quero deixar de sublinhar: não consigo acompanhar a lógica de quem considerou útil o wikileaks enquanto este se limitou a revelar assuntos ligados a Timor-Leste e quejandos e agora, que os assuntos passaram a ser outros, altera a posição.
Dito isto, tentarei sintetizar alguns paradigmas que o caso wikileaks, no contexto de outras alterações profundas, veio questionar:
a) o papel da inteligência e dos serviços secretos: por efeito da guerra-fria, os estados organizaram serviços de informações altamente especializados, activos e extremamente importantes na tomada de decisão política. Pois bem, com o fim da guerra-fria, esses serviços acomodaram-se. O trabalho de terreno foi substituído pela leitura da imprensa diária. O agente secreto típico ficou um bom bocado mais anafado e substituiu os binóculos por óculos bi-focais que lhe permitem ler ao perto. Confirma-se entretanto que as embaixadas mais que representarem interesses diplomáticos, são centros de inteligência e informação. Desta informação anafada e previsível. Por isso é que não ficamos muito surpreendidos com a maioria das revelações: Berlusconi é um gigolô, Sócrates é teimoso, Alegre é jurássico. Bem, confesso que não precisei de me sentar… Os serviços de inteligência vão voltar ao terreno. A batalha será travada no campo das bases de dados e de informação.
b) o papel do jornalismo: na sequência do ponto anterior, poder-se-ia pensar que o jornalismo teria adquirido uma preponderância decisiva, como canal de alimentação privilegiado dos sistemas de inteligência, reforçando-se enquanto poder. Sinceramente, não me parece. O próprio jornalismo também se acomodou. Confundiu-se com o poder político. Os jornalistas almoçam com o Chefe de Gabinete do Ministro A e tomam uma bebida com o adido da Embaixada do país B num bar de hotel ao fim-da-tarde. A informação não é investigada. Flui em circuito fechado, sem novidade, nos corredores de bares e restaurantes. Também isso justifica que ainda não tenhamos sido propriamente surpreendidos pelas informações do wikileaks. É certo que determinados jornais de referência foram escolhidos para divulgar a informação wikileaks. Penso que a palavra “escolhidos” diz tudo sobre a situação. Os jornais, os de referência, gozam ainda de uma certa credibilidade junto dos cidadãos. Essa relação de confiança interessava a Assange: a credibilidade do mensageiro estende-se à mensagem. Todavia, por quanto tempo será possível manter essa aura sem alterações radicais na forma de entender o jornalismo? Estou convencido que o jornalismo só terá futuro se regressar ao passado. À investigação, aos conteúdos, aos correspondentes e aos enviados especiais como ainda ontem defendeu no púlpito do El País Thimothy Garton Ash. O lugar dos jornalistas é nas ruas, nos locais onde as coisas acontecem. Manterem-se nas redacções a consultar os serviços das agências noticiosas ou em almoçaradas e beberetes com todas as faces do poder vai matá-los de doenças coronárias obstrutivas.
c) só o poder controla os cidadãos: à ameaça de um poder controlador exercido sobre os cidadãos, contrapõe-se agora o exercício de um certo controlo dos cidadãos sobre o poder. Aquilo a que poderíamos chamar um Small Brother. Quem tem medo do irmão mais novo? Os governos, as multinacionais, os bancos? Uma coisa é certa: só a rede tem o poder de confrontar os poderes instituídos e de forçar uma maior transparência. Num certo sentido, o clima de inconformismo e desobediência civil parece encontrar na rede um habitat natural. O clima é agora de maior desassossego e assiste-se a um certo reequilíbrio entre os poderes instituídos e o poder da cidadania. Testemunharemos exageros? Certamente. Mas, a balança andava muito descalibrada.
d) o poder é sagrado: o poder tal como o temos conhecido baseia-se na ideia de segredo, de domínio de uma informação que não está acessível a um grupo alargado. A difusão do segredo, da informação, vai fazer evoluir o plano político em um de dois sentidos: no do reforço das barreiras ao acesso à informação (internet para todos?) ou numa alteração da relação com o mundo orientada para uma maior transparência, para a obrigação de fundamentar as decisões no bem comum, para mais ideias e para discursos mais motivadores. Esperemos que a evolução se faça pela segunda via.
e) o tabuleiro do jogo: o modo como consumimos e trocamos informação está a mudar radicalmente. Queira-se ou não, a internet alargou o espaço público de intervenção. O leitor, se calhar, já ouviu falar em blogs. A informação mais actualizada e credível sobre a operação das forças brasileiras no Complexo do Alemão circulou através de tweets emitidos por jornalistas estagiários. Enquanto os da velha guarda bebiam um chope num botequim, à espera que um qualquer brigadeiro lhes desse alguma informação quando fosse matar a sede. A revolta em Teerão foi filmada em telemóveis particulares e difundida para todo mundo pelo youtube. Mas, a questão não se coloca só ao nível da plataforma. Está também no modo de intermediação. Os jornais vão deixar de circular em papel para serem consultados na Web? Não é só isso.
O que as pessoas vão querer é a opinião de alguém em quem confiam, um ângulo que lhes agrade. A visão de um amigo, de um especialista, de um humorista. Vão procurá-la no Facebook ou num blog alojado no Facebook. Ou num sucedâneo. A notícia, a informação, são o pretexto. O objectivo é a construção de conhecimento, de sensações, de solidariedades. E, já agora, para quê travar guerras sangrentas e preparar atentados se for possível atingir o coração de uma civilização ou de um país atacando a sua informação vital. Assange está preso? A batalha continua a travar-se cá fora entre a PayPal e os Hackers. Este contexto é seguramente mais exigente e coloca muito mais pressão sobre o poder. Qualquer que ele seja.
Estou convencido que estas são algumas das principais linhas de evolução ou ruptura protagonizadas pelo wikileaks e por todo um contexto de abundância de informação (750.000 documentos, senhores!). São irreversíveis? Não. É sempre possível cortar o acesso à rede. Aí temos a China a comprová-lo. Da mesma maneira que é possível decretar que o dia tem 16 horas. Contra todas as evidências. Ah, e mais duas coisas:
a) este novo poder será, ainda.. um poder. Nas mãos de quem souber difundir informação e construir conhecimento. Bom ou mau? Dependerá sempre da preparação e do grau de exigência dos cidadãos.
b) a comparação entre o caso wikileaks e o watergate parece-me de uma riqueza de análise extraordinária. Aqui fica a provocação ao Pedro Correia.


Caro Rui,
A wikileaks permite algo que até agora era impensável: analisar a informação por si, sem qualquer intermediário, sem qualquer mediação. A título de exemplo: mais do que as “notícias” portuguesas requentadas sobre Carlos Santos Ferreira, importante é o telegrama publicado pelo El Pais (sem qualquer opinião, texto ou foto.
discordo, portanto, quando diz que o que as pessoas vão querer é “alguém em quem confiam, um ângulo que lhes agrade. A visão de um amigo, de um especialista, de um humorista. Vão procurá-la no Facebook ou num blog alojado no Facebook”.
Voltarei a “delitar” consigo noutro post.
Até lá.
Cara AS,
percebo a sua objecção. O que pretendo dizer é que não há informação neutra. A wikileaks escolheu divulgar os documentos pela imprensa. Porque a imprensa ainda tem credibilidade. No dia em que os cidadãos tiverem mais confiança na wikileaks, não serão necessários outros meios de divulgação. Todavia, veremos os documentos que a wikileaks quiser publicar. O que deixa todos os outros de fora. Daí a necessidade de interpretação e de contextualização por outros intermediários. Aguardo o próximo delito.
Muito bem, Rui. Tenciono em breve também escrever sobre este tema, que interpela os cidadãos em geral e os jornalistas em particular.
Sublinho, concordando, as seguintes passagens do teu texto:
1. “Determinados jornais de referência foram escolhidos para divulgar a informação wikileaks. (…) Os jornais, os de referência, gozam ainda de uma certa credibilidade junto dos cidadãos. Essa relação de confiança interessava a Assange: a credibilidade do mensageiro estende-se à mensagem. Todavia, por quanto tempo será possível manter essa aura sem alterações radicais na forma de entender o jornalismo?”
2. “O jornalismo só terá futuro se regressar ao passado. À investigação, aos conteúdos, aos correspondentes e aos enviados especiais (…). O lugar dos jornalistas é nas ruas, nos locais onde as coisas acontecem.”
3. “O modo como consumimos e trocamos informação está a mudar radicalmente. Queira-se ou não, a internet alargou o espaço público de intervenção.”
4. “É sempre possível cortar o acesso à rede. Aí temos a China a comprová-lo. Da mesma maneira que é possível decretar que o dia tem 16 horas. Contra todas as evidências.”
Aceite, naturalmente, o saudável desafio final. Abraço.
23 horas e 56 minutos? Em que planeta?
Neste: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rota%C 3%A7%C3%A3o_da_Terra
Caro Rui,
Sobre o “poder é sagrado: o poder tal como o temos conhecido baseia-se na ideia de segredo, de domínio de uma informação que não está acessível a um grupo alargado. A difusão do segredo, da informação, vai fazer evoluir o plano político em um de dois sentidos: no do reforço das barreiras ao acesso à informação (internet para todos?) ou numa alteração da relação com o mundo orientada para uma maior transparência, para a obrigação de fundamentar as decisões no bem comum, para mais ideias e para discursos mais motivadores. Esperemos que a evolução se faça pela segunda via.”
O poder é sagrado porque deriva de uma relação de confiança. Essa relação de confiança assenta num mandato que é conferido pelo eleitor ao eleito, sendo que apenas faz sentido e é exequível conhecer as grandes linhas de força do programa dos candidatos, sejam ao poder legislativo seja à presidência da república ou aos órgãos do município.
O conceito de segredo, segredo de Estado, é um conceito relativo, ou seja, deve ser preservado dentro de certos limites temporais e em certas circunstâncias específicas e com a finalidade de salvaguardar valores superiores ao momentaneamente sacrificado.
Por outro lado, o carácter secreto de algum facto não significa necessariamente que tal facto seja ilícito. É bom não esquecer.
O segredo fará sempre parte do poder exercido. O Estado tem de assentar, necessariamente, em alguns segredos, sob pena de, em certos momentos, poder ficar em causa a própria subsistência do Estado.
Concordo com o seu apelo a uma maior fundamentação das decisões, a um maior grau de transparência na tomada de decisões, mas não nos iludamos: há segredos que só o Estado pode e deve guardar.
Dou-lhe um exemplo polémico: a morte de FSá Carneiro, de AAmaro da Costa e restantes. Não sei se foi crime ou acidente (e as autoridades judiciárias mais uma vez – meu Deus! – não foram capazes de afastar a “dúvida razoável”). O que considero é que, se foi crime, fez bem o Estado ao não divulgar, naquele momento concreto, os autores e as provas do crime. Claro que, volvidos 30 anos, encerrada a investigação legal e judiciária, volvidas OITO comissões parlamentares de inquérito, é tempo de sabermos a verdade do que aconteceu ao, então, Primeiro Ministro de Portugal.
O poder é sagrado como sagradas são as “artes” de todas as profissões, podendo haver e havendo fundamentos relevantes para o segredo. (Não é por sabermos que bisturi o cirurgião uitliza , ou qual a cor da bata que vestiu, que sabemos que a operação foi bem sucedida e nos salvou da morte).
Inteiramente de acordo quanto à origem do poder. A referência ao segredo diz respeito à forma como ele é exercido. Em apoio ao seu argumento de que um certo nível de segredo é necessário, cito de memória Vargas Llosa: um nível adequado de luz dá confiança ao cidadão; demasiada luz ofusca.
Discordo totalmente do pressuposto.
Acredito que é o conteúdo que nos está a fazer mudar de paradigma.
O que acontece é que a forma através da qual conhecermos o conteúdo (a internet) impele-nos a uma atitude (pro)activa.
Podemos procurar a informação e não esperar que ela nos chegue “mastigada” por qualquer jornalista, analista, político ou qualquer outro.
Respeito a sua opinião, mas mantenho a minha. Continuo que não há informação neutra. Quanto mais não seja, subsiste a decisão de publicar ou não. E isso condiciona à partida. Independentemente das opiniões que temos, deixo-lhe aqui um link que poderá ter interesse: http://www.elpais.com/articulo/internac ional/Wikileaks/bomba/cambia/todo/elpepu int/20101214elpepuint_27/Tes
Caro Rui,
Excelente artigo do El Pais.
Mas o que lá terá levado à enchente do auditório?
O tema (conteúdo) ou a forma?
Não há informação neutra, como a vida não é neutra. E, ao seu argumento de que publicar ou não publicar, já condiciona, digo-lhe, meu caro, que igualmente condiciona (ao próprio e ao próximo) nascer ou não nascer.
É a vida! Como dizia o Eng. Gueterres.
O que nos agarra e impulsiona a agir (ou a parar) é o conteúdo!
Respondi-lhe aqui: 71683.html
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/24