Singularidades de cá
Circunstâncias profissionais retiraram-me de terra continental e colocaram-me na ilha da Madeira, desde Agosto de 2009.
Não há como estar aqui, sem perceber o compasso da terra, entrecortado pela paisagem abrupta que nos entra pela visão a cada passo que se dá.
Tudo aqui é repentino. Desde o tempo (todos os dias existem as quatro estações na ilha) à rudeza da montanha. Precipícios, falésias, rocha, escarpa, mar de várias caras e cores.
À hora que vos escrevo, a costa sul da ilha está a ser varrida por vento muito forte, o mar está grosso e bate violento contra as rochas. Bate teimoso, obstinado, num desgaste paciente.
O alerta está vermelho. Vermelho é um laranja sem pigmento amarelo.
Cor. É isso… O quotidiano aqui não pode ser mais ordeiro. Existe um poder instalado, solidificado, com raiz funda que segura tudo e todos.
A animação que não é para turistas está pespegada nos dois jornais diários “de referência” da região. Humor, malabarismos e passes de mágica. Um circo por meio pataco.
Um diário que renega o poder, outro jornal que o propagandeia. Os dois encomendados a ódios e raivas entre o pessoal e o político. Aqui, todos os quintais são demasiado próximos uns dos outros. A privacidade depende da altura dos muros ou da largura das pontes.
Havendo uma região apenas, existem duas nas páginas dos jornais. Num diário: pobreza, poder autoritário, esmagador, corrupto e sobranceiro; noutro jornal: obras, glórias, progresso e uma terra no limiar da perfeição.
Num diário: um déspota, um tiranete, um mal educado; noutro jornal: um estadista, um homem de bem, um segundo “pai” para 270 mil almas…
Só custa estar aqui na medida em que tem de haver capacidade crítica para enxergar a verdadeira Madeira. A que vem nos folhetos do turismo, paradisíaca, verde, azul, de clima ameno e, por outro lado, perceber o recorte das encostas, ver as casas escondidas atrás das bananeiras, no serpenteio das levadas, nas frases da rua, nos desabafos dos pescadores, de alguns taxistas e na geral palpitação indígena.
Só assim, longe dos dois jornais, da omnipresença do poder, do desnorte da oposição que, não raras vezes, não existe nem se conhece a ela própria, se percebe e conhece a verdadeira Madeira.
A conclusão é dramaticamente óbvia: ou se adora ou então não!…
Foto do blogue Semeador de Ventos


Sou um habitué da Madeira há muito tempo. Gostei do seu retrato. Parabéns, António Luís.
Que excelente nascer de Sol, na verdade, deveria ter escrito ” Sem Palavras “.
PS. Vou espreitar este rapaz que semeia os ventos…
Ainda nem sequer li o texto, mas já me apetece dizer que a fotografia e o nome do blogue já me conquistaram! Bem-vindo, António Luís.
É um prazer vê-lo por cá, meu caro. E que saudades este seu texto, associado à foto, me deu dessa Madeira sempre tão deslumbrante…
Muito Obrigado a todos!
Um obrigado especial ao Pedro Correia pelo convite que me fez!
Foi uma assumida honra poder escrever no Delito de Opinião, um blog que leio diariamente e que é uma referência na blogosfera nacional!
António Luís