Convidado: ANTÓNIO LUÍS


Pedro Correia,

  

Singularidades de cá

 

Circunstâncias profissionais retiraram-me de terra continental e colocaram-me na ilha da Madeira, desde Agosto de 2009.

Não há como estar aqui, sem perceber o compasso da terra, entrecortado pela paisagem abrupta que nos entra pela visão a cada passo que se dá.

Tudo aqui é repentino. Desde o tempo (todos os dias existem as quatro estações na ilha) à rudeza da montanha. Precipícios, falésias, rocha, escarpa, mar de várias caras e cores.

À hora que vos escrevo, a costa sul da ilha está a ser varrida por vento muito forte, o mar está grosso e bate violento contra as rochas. Bate teimoso, obstinado, num desgaste paciente.

O alerta está vermelho. Vermelho é um laranja sem pigmento amarelo.

Cor. É isso… O quotidiano aqui não pode ser mais ordeiro. Existe um poder instalado, solidificado, com raiz funda que segura tudo e todos.

A animação que não é para turistas está pespegada nos dois jornais diários “de referência” da região. Humor, malabarismos e passes de mágica. Um circo por meio pataco.

Um diário que renega o poder, outro jornal que o propagandeia. Os dois encomendados a ódios e raivas entre o pessoal e o político. Aqui, todos os quintais são demasiado próximos uns dos outros. A privacidade depende da altura dos muros ou da largura das pontes.

Havendo uma região apenas, existem duas nas páginas dos jornais. Num diário: pobreza, poder autoritário, esmagador, corrupto e sobranceiro; noutro jornal: obras, glórias, progresso e uma terra no limiar da perfeição.

Num diário: um déspota, um tiranete, um mal educado; noutro jornal: um estadista, um homem de bem, um segundo “pai” para 270 mil almas…

Só custa estar aqui na medida em que tem de haver capacidade crítica para enxergar a verdadeira Madeira. A que vem nos folhetos do turismo, paradisíaca, verde, azul, de clima ameno e, por outro lado, perceber o recorte das encostas, ver as casas escondidas atrás das bananeiras, no serpenteio das levadas, nas frases da rua, nos desabafos dos pescadores, de alguns taxistas e na geral palpitação indígena.

Só assim, longe dos dois jornais, da omnipresença do poder, do desnorte da oposição que, não raras vezes, não existe nem se conhece a ela própria, se percebe e conhece a verdadeira Madeira.

A conclusão é dramaticamente óbvia: ou se adora ou então não!…

 

António Luís

 

Foto do blogue Semeador de Ventos

5 comentários em “Convidado: ANTÓNIO LUÍS”

  1. Que excelente nascer de Sol, na verdade, deveria ter escrito ” Sem Palavras “.

    PS. Vou espreitar este rapaz que semeia os ventos…

  2. Muito Obrigado a todos!
    Um obrigado especial ao Pedro Correia pelo convite que me fez!
    Foi uma assumida honra poder escrever no Delito de Opinião, um blog que leio diariamente e que é uma referência na blogosfera nacional!

    António Luís

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