No JL, uma interessante entrevista de Maria Leonor Nunes a Mário Vargas Llosa, o mais recente Nobel da Literatura. A propósito do título do seu último romance, a ideia de Literatura como paraíso ou utopia – a única utopia possível nos tempos que correm – dá o mote à conversa, também sobre o processo criativo de quem escreve. Sobre esse tema, responde MVL: “(o romance) É um processo demorado, inicialmente inconsciente. Em geral, o ponto de partida é algo vivido, uma experiência, uma imagem que ficam na memória e, pouco a pouco, tornam-se fantasia. A dada altura, dou-me conta que ando às voltas com uma ideia que é o cerne de uma história. Então, posso começar desde logo a tomar notas e apontamentos, a documentar-me, mas não começo a trabalhar de imediato. Espero para ver se essa ideia embrionária passa a prova do tempo. Às vezes, demora anos antes que comece a escrever.” Esta tese lembrou-me uma outra, ainda mais radical, de Rilke: “Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas.”
Não posso deixar de pensar no contraste flagrante com o que se passa com um cada vez maior número de “escritores de circunstância”, que publicam ao sabor das leis do mercado, sem terem tempo, sequer, de amadurecer ideias. E em quantos e quantos livros não passariam a prova do tempo, se lhes fosse feito esse simples teste.

Excelente reflexão, Ana. Subscrevo e aplaudo.