Lobos maus e capuchinhos vermelhos


Ana Vidal,

 

Não sei se Carlos Cruz é culpado ou inocente dos crimes pelos quais foi condenado. Assim como não sei exactamente o mesmo em relação a todos os outros nomes envolvidos num processo penosamente interminável que me enoja e angustia até ao limite, tal como, suponho, a qualquer pessoa de mente e estômago minimamente saudáveis. Anos e anos de uma insuportável pirotecnia em volta deste caso contribuiram muito para lançar sobre todos nós graves dúvidas, desconfianças e descrenças na mais sagrada das nossas instituições. Talvez a mais perversa das marcas profundas que estes anos nos deixaram – e que perdurarão muito para além desta saga, cujo fim nem sequer se avizinha ainda – seja  a de terem-nos transformado a todos na pior espécie de justiceiros: os que julgam, condenam ou absolvem com base no palpite, no feeling, nas simpatias e antipatias pessoais, no bom ou mau “ar” dos arguidos. Com base em tudo menos em fundamentos, que desconhecemos em absoluto e parecemos dispensar alegremente.

 

Tivemos finalmente uma sentença taxativa e clara, proferida por quem conhece o processo à exaustão, e recuso acreditar que crimes desta natureza e gravidade sejam julgados levianamente. Quero firmemente acreditar que a sentença é justa e que estas seis pessoas são, de facto, culpadas dos crimes de que eram acusadas. Não por uma mórbida sede de vingança ou outra razão qualquer, mas porque quero acreditar na seriedade da justiça portuguesa.

 

Voltando a Carlos Cruz, o nome mais insistentemente repetido por todos, digo de novo: não sei se é culpado ou inocente. Mesmo que lesse atentamente as duas mil páginas do processo – entretém que nem para uma reforma numa ilha deserta reservaria – eu não teria os meios nem a formação técnica para fazer uma avaliação isenta e válida. Mas há duas coisas que sei. A primeira é que Carlos Cruz tem a defendê-lo há oito anos – e a custo zero! – dois advogados de renome da nossa praça (e mais uma legião de pesquisadores e estagiários, com certeza), que já prometeram publicamente levá-lo em ombros até ao cadafalso, se preciso for. A segunda é que tem igualmente ao seu dispor uma arma poderosíssima, que domina como poucas pessoas neste país: a comunicação social. Se é verdade que os media o massacraram mais do que a qualquer outro arguido – e ele nunca perde uma oportunidade de se vitimizar por causa disso – não é menos verdade que os mesmos “carrascos” agora lhe dão igualmente visibilidade total para se defender e dizer de sua justiça. É quase um caso de omnipresença: está na abertura de todos os telejornais, está em conferências de imprensa, está em todos os debates sobre o assunto, está na net (com um site em que promete escândalos e revelações inauditas, e por isso regista diariamente um número de visitas astronómico), enfim, tem todo o tempo de antena que quiser. E, naturalmente, gere tudo isto com a mestria de quem trata as técnicas de comunicação por tu: o tom de voz, o jogo fisionómico, as palavras escolhidas a dedo e doseadas em teasers a preceito, etc., etc., etc. Pergunto: qual dos outros condenados do processo Casa Pia tem acesso a tantos privilégios? O mediatismo tem vantagens e desvantagens, porque os paus têm quase sempre dois bicos.

40 comentários em “Lobos maus e capuchinhos vermelhos”

  1. Raras vezes tenho visto tão ferido o princípio constitucional da igualdade dos cidadãos como nestes dias pós-acórdão do processo Casa Pia. A omnipresença de Carlos Cruz (o «arguido bom»), do seu advogado e agora também do bastonário da Ordem (mandando às malvas o dever de reserva inerente às funções que exerce) em tudo quanto é orgão de informação, procurando achincalhar o acórdão e os magistrados, em contraste com o nulo tempo de antena reservado a Carlos Silvino (o «arguido mau»), diz muito sobre o estado desta ‘República’, a poucos dias do centenário.

    (Sintonia, Ana. Por isso deixo aqui o mesmo comentário que deixei há pouco no texto do Luís)

    1. Claro, é isso mesmo. É tão fácil manipular a opinião pública contra uma pessoa como a favor dela, e não o ouço queixar-se agora dos jornalistas. Além disso, há um abismo entre as armas de que ele dispõe e aquelas que são dadas aos outros que estão na mesma situação.

  2. Cabe perguntar: se Carlos Cruz se considera inocente, com que direito poderia ser impedido de usar os meios ao seu dispor para provar a inocência?
    Ou o facto de ser perito em comunicação é mais um dos crimes a imputar-lhe?

    1. Os meios de que dispõe são aqueles que têm lugar no âmbito próprio de um processo judicial sujeito a regras aplicáveis a todos os sujeitos processuais e orientado por um conjunto de pessoas detentoras de poderes de direcção e orientação do mesmo com respeito pelos princípios e normas jurídicas.
      O facto de ser perito em comunicação não é crime pois claro. Já o facto de lhe ser permitido usar dessa perícia em programas de suposto interesse público poderá ser considerado como um desvio nas funções que penso estarem acometidas a um serviço público de televisão.

        1. É pena que dispense sem se dar tempo para reflectir. Até porque o processo não culminou e é um facto que os meios disponibilizados (sem embargo da técnica e habilidade de cada um) e, sobretudo, os meios públicos projectem de modo tão escandalosamente diferenciado as posições dos envolvidos.

          O princípio da igualdade faz parte da cidadania, mas é atropelado por pessoas que, como V., procuram os pretextos mais bizarros para justificar o injustificável. Devemos apontar e lamentar os erros – e não fingir que são de somenos. Era só o que faltava.

        2. Lição? Algo escapará à sua percepção. Respondi ao seu apelo. O espanto e os conhecimentos de que disponho, sempre parcos obviamente, não me permitem alcançar certas supostas realidades por si afirmadas (mas ainda bem!!). Pois: de que forma miraculosa pode um arguido provar a sua inocência via directos televisivos, conferências de imprensa e afins, sendo certo que quem aplica a lei é o julgador e não o cidadão? E ainda: é a verdade proferida em directo e sem direito a contraditório mais válida e legítima que aquela que foi apurada num processo penal?

    2. Cabe-me responder-lhe, Ana. Mas em que ponto do meu texto leu que defendo esse impedimento? Saliento só o abismo de meios que existe, como já disse, entre ele e os outros que estão na mesma posição. Para já nem falar de Carlos Silvino, o “mau da fita” oficial e que é, a meu ver, o que de todos eles tem mais atenuantes nas culpas que lhe são imputadas. Foi, ele próprio, vítima de abusos em criança, entrou na Casa Pia aos 4 anos e nunca conheceu outra realidade… não estou a desculpá-lo, estou apenas a fazer uma comparação de condições de vida e de meios. Não concorda?

  3. Faço das suas palavras as minhas, se me permite. Texto pertinente e, fundamentalmente, lúcido, coisa que parece perdida nos actuais tempos. Saliento consigo a minha crença na justiça e na competência técnica do colectivo de juízes que proferiu o acórdão.
    A propensão das pessoas em geral para a produção de juízos levianos (desacreditando de forma gratuita aqueles que estão em posição de o fazer), sem a fundamentação factual necessária (apenas possível por quem tenha acesso integral ao processo) e sem as ferramentas técnicas para a analisar acaso esse acesso aconteça, confronta-nos com a incapacidade que a sociedade tem para o silêncio, para a ponderação, para a consciência crítica responsável e para a assunção repartida de funções que se complementam. Confronto perturbador, diria.

    1. Somos encorajados a isso, Sílvia, e é tão fácil… vivemos na era do sensacionalismo, tudo nos conduz à opinião superficial mesmo em temas tão graves como este. Somos manipulados todos os dias, e alinhamos alegremente porque isso nos faz sentir importantes. Isto é o que mais me revolta.

      1. Não, não exagero. O tema é delicado e complexo, mas tu aborda-lo com a inteligência que, na minha modéstia, te reconheço, o que te permitiu encarar de frente aquilo que muita gente prefere olhar de soslaio.

        1. Tinha pensado não me meter neste assunto, mas o Prós e Contras foi a gota de água para mim. Ouvir o Carlos Cruz manipular descaradamente o testemunho sereno, generoso e lúcido de uma das vítimas (não me lembro do nome), resumindo tudo o que ele disse a uma admissão de culpa na “tendência para a mentira” das vítimas de abuso, e ver como lhe foi permitido fechar o programa declarando que essa era a coisa mais importante que ali tinha sido dita naquela noite, foi de mais para mim. Assim se condiciona a opinião pública, com a bênção da televisão pública.

  4. Que o Carlos Cruz e os seus advogados usem e abusem do espaço público para clamar inocência é um direito que lhes assiste e que só se fossem parvos não aproveitariam. Que no espaço público se passe a vida a discutir questões processuais menores (deviam ter entregue o acórdão, vão entregar o acórdão, afinal não têm ainda o acórdão…) e se permita que CC se refira às vítimas por “rapazes”, “prostitutos”, “interesseiros” e etc. já me dá vómitos. É que os “rapazes”, “prostitutos”, “interesseiros” e etc. tinham entre 10 e 13 anos à altura dos factos. E viviam ao deus dará na Casa Pia. Disto até o CC pode ter a certeza, não é?

    1. É então coisa de somenos a questão do acórdão, que continua sem ser conhecido? Pelos vistos, é-o, pelo menos para quem considera que isso credibiliza a Justiça… Valha-nos Deus, já que mais ninguém o faz.

      1. O acórdão será entregue amanhã de manhã. Segundo foi explicado em comunicado público, pretendeu-se que fosse entregue ao mesmo tempo a todas as partes interessadas e, mais, que por uma questão de lisura – já que o prazo dos recursos começa a contar a partir do dia da sua entrega -decidiu-se que seria depositado logo pela manhã.
        Posto isto, ficaria provado que a justiça funciona melhor se tivesse sido entregue imediatamente? Provaria. Mas não deixa de ser uma questão processual de somenos, pelo menos daquelas em relação às quais não me parece ser necessário invocar deus.

          1. O seu Deus é o seu Deus. O meu é o meu. Nenhum deles me parece para aqui chamado. Mas aí está uma questão que nem as provas do Santo Anselmo conseguiria resolver. Não sei se percebeu…

          2. Veja lá mas é se ganha juízo, que já tem idade, e evita a facilidade de insultar quem desconhece e só poderia (se estivesse para isso…) dar-lhe lições em qualquer que seja o domínio: cultural, político e, especialmente, da luta em prol dos valores democráticos.
            Pelas abstrusas observações que se permitiu apor aos meus comentários, completei o retrato que já tinha de si, tendo-me certificado de que não merece que perca mais um minuto consigo: falta-lhe altura.
            Passe bem, se puder (o que me parece difícil), que eu não voltarei aqui.

          3. Estou esmagada pela sua modéstia, Ana Cleto.
            Mas com tantos predicados, acredite que lhe falta um essencial: ser boa retratista. Enfim, não se pode ter tudo.

          4. Percebi, por exemplo, que o termo “provas” está no plural e, portanto, V. deveria ter escrito “conseguiriam”. Quanto ao mais, valha-nos a saudosa lembrança da drª Odete, aliás Maria de Olhão…

          5. Ana Cleto, obrigada pela correcção. E a segunda coisa é que tem mesmo graça: a descansada da Drª Odete é prima direita do meu pai (acho que ela me perdoaria o erro de concordância).

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