Cinema infantilizado, ou a morte do indivíduo
Alertado por um artigo já antigo do TLS (Clive Sinclair, “Total Eclipse”, aka o artigo-descaradamente-roubado-por-este-post), resolvi fazer um exercício: comparar um clássico com o seu remake. Ou seja, resolvi comparar, vá, a psique do original com a psique da sua reconversão moderna. E o resultado é um pouco triste: nos anos 50, o espectador era tratado como um adulto; no nosso tempo, o espectador é tratado como uma criança ou mesmo como um imbecil. Hoje em dia, parte-se do pressuposto de que o espectador é burro. O argumentista e realizador metem tudo na misturadora e servem uma papa já mastigada ao espectador. Como é óbvio, este modus operandi destrói os silêncios, os subentendidos, o mistério de um frame não explicado, enfim, destrói a imaginação do espectador.
O objecto desta fabulosa experiência científica é o “3:10 to Yuma” (o original é de 1957, e foi realizado por Delmer Daves – um tarefeiro muito competente; fez um dos melhores filmes da dupla Bogart/Bacall, “Dark Passage”; o remake é de 2007, e foi realizado por James Mangold). A história gira em torno de dois homens, o bandido (Ben Wade – Glenn Ford/Russell Crowe) e o pai de família (Dan Evans – Van Heflin/Christian Bale). Como já perceberam, o encanto da história deriva da colocação de um homem normal (Evans) numa situação extraordinária. Reza a lenda que é aqui que nascem os heróis. Bom, não vou contar mais nada, para não ser desmancha prazeres. Vou apenas, como dizia há pouco, comparar a atmosfera de cada filme. E a diferença principal está na forma como se aborda o bandido, Ben Wade. O filme original não tenta explicar o comportamento do bandido, ou seja, não tenta explicar a origem do mal. O mesmo já não sucede no filme de 2007. Mangold tenta explicar o mal através dos traumas psicológicos: o pai era um pulha, e a mãe uma faraónica meretriz, logo, Wade só podia ser bandido. Esta justificação revela bem o ar do tempo das nossas sociedades, que vivem subjugadas por esta espécie de vulgata psicológica.
Dentro e fora do grande ecrã, esta vulgata psicológica abole o indivíduo, abole a escolha consciente. No clássico, o bandido é bandido porque assim o escolheu. Mas, hoje, as nossas sociedades são incapazes de aceitar que alguém escolha livre e conscientemente um caminho, digamos, sinuoso. As pessoas não querem aceitar que, por exemplo, a vontade de poder tem vários caminhos, e muitos desses caminhos são ilegais e ilegítimos. Donde a relação causa-efeito do remake: Wade é um bandidolas, porque (e só porque) foi maltratado pelos pais. No filme de 1957, temos um indivíduo. Neste filme de 2007, temos uma pulsão psicológica. Ou seja, não temos ali uma personagem, mas um tomo de má psicologia. O mundo, meus amigos, era tão melhor antes da vulgarização de Freud e afins.


Esse é o mal da década, Henrique. Antes tínhamos filmes, agora há “conteúdos” para gente do Facebook donas de casa. tudo explicadinho, para não sobressaltar.
Bom post.
Tenho pensado com frequência nisto de que aqui nos falas, Henrique. Mais do que aspectos de ordem técnica, a maior diferença entre o chamado cinema clássico e o cinema actual reside precisamente neste ponto: a necessidade de os filmes actuais “explicarem”, “justificarem”, “enquadrarem”, “contextualizarem” tudo. Nenhum mau é verdadeiramente mau por isso decorrer do seu livre arbítrio. A responsabilidade é da família, da sociedade, do “sistema”, às vezes até da civilização judaico-cristã, fadada para expiar culpas particulares e universais.
Isto vale para o cinema – e ainda mais para as séries televisivas de grande audiência, onde a correcção política e a “compreensão” perante o crime, atendendo até a factores de ordem étnica, predomina. Basta ver alguns episódios do ‘CSI’, nas suas diversas versões, para se perceber onde quero chegar.
Tudo isto para dizer que gostei muito do teu texto. E gosto muito de te ver por cá. Abraço.
Um certeiro retrato da menoridade intelectual que hoje tende tanto a tratar os outros como menores. Parabéns, Henrique.
Henrique
Uma análise muito interessante e perspicaz do cinema actual.
Gostei sobretudo da comparação entre um original e o seu “remake”. É um exercício que vale a pena fazer e que nos revela tendências preocupantes na forma de tratar o espectador.
E no entanto… este “cinema instantâneo” que não valoriza a inteligência, tem público garantido… Dá que pensar…
Ana
Bela reflexão, que não se aplica só ao cinema mas que tem nele um bom barómetro. Também no cinema, outro bom exemplo dessa menorização da inteligência e capacidade interpretativa do espectador é “Lolita”, nas duas versões que lhe conheço (há mais?). Fiz esse mesmo exercício recentemente e cheguei à mesma conclusão: o primeiro é muitíssimo melhor exactamente pelas razões que o seu texto invoca, por muito que Jeremy Irons seja um dos meus actores de culto.
Totalmente de acordo. Há, no entanto, um ponto que gostaria de deixar à consideração: se a pressão do politicamente correcto e o receio de forçar os espectadores a pensar justificam a tendência actual, não se deverá a falta de explicação nos filmes clássicos ao facto de as noções de bem e de mal serem à época mais estereotipadas?
Tenho de pedir desculpa ao Henrique: por lapso meu, o último parágrafo do texto dele foi cortado na versão inicial deste texto, agora acrescentada. Assim é que é.