Rasgos (22)


Ana Vidal,

ARTE POÉTICA

 

Olhar o rio feito de tempo e água

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que os rostos passam como a água.

 

Sentir que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar e que a morte

Que a nossa carne teme é essa morte

De cada noite, que se chama sonho.

 

Ver em cada dia ou ano um símbolo

Dos dias do homem e dos seus anos,

Converter o ultraje dos anos

Em música, rumor e símbolo.

 

(…)

 

Às vezes pela tarde há uma cara

Que nos olha do fundo de um espelho

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela a nossa própria cara.

 

Contam que Ulisses, farto de prodígios

Chorou de amor ao avistar a sua Ítaca

Verde e humilde. A arte é essa Ítaca

De verde eternidade, não de prodígios.

 

(…)

 

Jorge Luís Borges, in Obra Poética

 

(Nota: tradução minha, com as devidas desculpas ao Mestre pela ousadia e pela liberdade de truncar um poema sublime)

14 comentários em “Rasgos (22)”

      1. Eu “vou” mais por este e deixo-lho em jeito de adivinha…é fácil.

        Yo soy el cóndor, vuelo
        sobre ti que caminas
        y de pronto en un ruedo
        de viento, pluma, garras,
        te asalto y te levanto
        en un ciclón silbante
        de huracanado frío.

        Y a mi torre de nieve,
        a mi guarida negra
        te llevo y sola vives,
        y te llenas de plumas
        y vuelas sobre el mundo,
        inmóvil, en la altura.

        Hembra cóndor, saltemos
        sobre esta presa roja,
        desgarremos la vida
        que pasa palpitando
        y levantemos juntos
        nuestro vuelo salvaje.

          1. Tenho um velho vinil onde é o próprio Neruda que lê os vinte poemas de amor…

            lamechices minhas, tá visto…

          2. Por un camino de oro van los mirlos… ¿Adónde?
            Por un camino de oro van las rosas… ¿Adónde?
            Por un camino de oro voy…
            ¿Adónde,
            otoño? ¿Adónde, pájaros y flores?

            então só mais este ,para o caminho…do velho JRJ…

    1. Obrigada, Pedro, gosto de ler poesia no original sempre que posso, mas também gosto do exercício de traduzi-la. A poesia de Borges (e também a prosa, claro) é um deslumbramento permanente, a que volto sempre.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *