Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro oito: Lx90, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes

Edição Dom Quixote, 2026

279 páginas

 

Se não há duas sem três, também não há três sem quatro. Joana Stichini Vilela (jornalista e consultora editorial) e Pedro Fernandes (designer gráfico e director de arte) reincidem no culto da memória alfacinha, repartida por décadas. Começaram da melhor maneira, recordando a Lisboa de 60 – obra que, sem favor, já podemos considerar de referência. Mantiveram e consolidaram o projecto, com os anos 70 e 80, proporcionando-nos agora uma digressão à década de 90.

Tempos de saudosa memória para muita gente. Havia motivos para isso. Foi o período, no último meio século, em que Portugal mais se aproximou do padrão médio de prosperidade desta Europa que nos sobrou como destino. Sei do que falo: vivi dez anos longe, noutro continente, e quando regressei, no final de 1996, encontrei um país irreconhecível. Para muito melhor.

A escrita elegante de Joana e o fulgor criativo do Pedro (com quem trabalhei num jornal desaparecido demasiado cedo, o semanário Novo) contribuem para este mergulho quase festivo num tempo em que nos sentíamos europeus de corpo inteiro. Tempo anterior à moeda única, à integração da China na Organização Mundial do Comércio, ao devastador morticínio do 11 de Setembro e à segunda Guerra do Golfo.

Despedida em grande do século, do milénio. De uma era irrepetível.

 

Lisboa mal despertara de um dos maiores traumas da sua história milenar: o pavoroso incêndio que destruiu grande parte do Chiado, em Agosto de 1988. As ruínas permaneceram expostas durante vários anos, lembrando a cada um de nós esta verdade velha como o mundo: é infinitamente mais fácil uma paisagem – urbana ou rural – morrer carbonizada do que renascer das cinzas.

Mesmo assim, era uma cidade varrida pelo optimismo. Evidente na conclusão da auto-estrada Lisboa-Porto (1991), na edificação do Centro Cultural de Belém (1992), na inauguração do Centro Comercial Colombo, o maior da Península Ibérica (1997), na abertura da Ponte Vasco da Gama (1998) e na Expo-98, que recebeu cerca de 11 milhões de pessoas durante 132 dias, de 22 de Maio a 30 de Setembro. Reabilitando toda a zona oriental da cidade.

Era um tempo em que se generalizavam os telemóveis (4,6 milhões de utentes em 1999). O cinema, o teatro, as artes plásticas e até a moda ganhavam novo impulso, designadamente em 1994, quando Lisboa foi capital europeia da cultura. A televisão privada dava enfim os primeiros passos com a fundação da SIC (1992) e da TVI (1993). O estádio José Alvalade recebia os maiores nomes da música mundial: Rolling Stones, Genesis, Pink Floyd, David Bowie, Dire Straits, Gun n’Roses, Bruce Springsteen, Sting, Paul Simon, Tina Turner, Prince, Carlos Santana, Whitney Houston, Bryan Adams, U2, R. E. M.

Em 1990, o PIB per capita em Portugal equivalia a 7,6 mil dólares. Em 1999, subira para 12,5 mil dólares. Éramos felizes e não sabíamos. Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes avivam-nos a memória. Fizeram muito bem.

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

Sugestão 8 de 2020:

A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)

Sugestão 8 de 2021:

Ernestina, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Sugestão 8 de 2022:

Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras)

Sugestão 8 de 2023:

A Biblioteca de Estaline, de Geoffrey Roberts (Zigurate)

Sugestão 8 de 2024:

A Próxima Guerra Civil, de Stephen Marche (Zigurate)

Sugestão 8 de 2025:

Stoner, de John Williams (D. Quixote)

6 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. quando regressei, no final de 1996, encontrei um país irreconhecível. Para muito melhor

    Não estou tão certo de que tenha sido para melhor. Enfim, depende da perspetiva, mas eu quando deixei Lisboa ela era uma cidade mais ou menos ordenada, e quando a ela regressei era um caos grosseiro de automóveis estacionados em cima de todos os passeios.

  2. Lisboa mal despertara de um dos maiores traumas da sua história milenar: o pavoroso incêndio que destruiu grande parte do Chiado, em Agosto de 1988

    Não é preciso exagerar. Esse incêndio destruiu meia dúzia, talvez uma dúzia, de edifícios, não mais. A cidade era e é muitíssimo maior do que esse pedacinho dela.

  3. Uma esplanada no Parque das Nações. Onde antes havia o deslumbramento do futuro, há agora betão a descascar, trotinetes atiradas para o chão e um vento gélido que varre o Tejo. Zé e Tó, na casa dos 60, bebem um café que lhes custou o triplo do que custaria fora daquela zona “nobre”.

    Tó: (A ler um artigo no telemóvel) Olha-me para isto, Zé. Diz aqui que nos anos 90 é que era. «O período em que Portugal mais se aproximou da prosperidade europeia».

    Zé: (Acende um cigarro com desânimo) Éramos felizes, sim senhor. Estávamos era anestesiados com os fundos europeus, mas muito felizes.

    Tó: Eh lá, mas havia optimismo! Lembra-te do Chiado! O texto diz que a cidade renasceu das cinzas.

    Zé: Renasceu? O Chiado ardeu em 88 e ficámos 10 anos a olhar para os escombros. E o “optimismo”? O nosso optimismo foi cimentar o país de norte a sul.

    Tó: Estás muito amargo. A cultura bateu no tecto! Fomos Capital da Cultura em 94. A televisão privada… a SIC, a TVI!

    Zé: Absolutamente renascentista, Tó. A SIC deu-nos o Big Show SIC. Foi aí que nos “sentimos europeus de corpo inteiro”, não foi? A ver o Macaco Adriano a saltar ao som de música pimba e as peixeiras a chorarem misérias na TVI à tarde.

    Tó: E os concertos no velhinho Alvalade? Rolling Stones, Pink Floyd, Bruce Springsteen! Todos queriam vir cá.

    Zé: Realmente, com o estádio a cair de podre, um cheiro a chouriço assado e a urina nas escadarias, o Springsteen devia pensar que estava a tocar para uma tribo..

    Tó: Mas o PIB subiu! De 7 mil para 12 mil dólares! E tivemos a Expo-98! Onze milhões de pessoas!

    Zé: Ah, a sagrada Expo-98. O momento em que Portugal decidiu salvar os oceanos… enchendo esta zona toda de plástico e betão armado. Também fizemos o Colombo.

    Tó: O Colombo era o maior da Península Ibérica!

    Zé: O orgulho tuga. “O maior da Península Ibérica”. Podíamos não ter hospitais em condições, mas tínhamos uma montanha-russa dentro de um centro comercial. Foi a glória.

    Tó: (A suspirar, olhando para a conta do café) Se calhar o autor do texto tem razão… Éramos felizes e não sabíamos.

    Zé: Não, Tó. Éramos idiotas e sabíamos perfeitamente. Mas como a conta dessa festa só ia chegar ao país vinte anos depois, com a Troika, nós pedimos mais uma rodada e continuámos a dançar a Macarena.
    Oh pá, que se lixe a prosperidade europeia.

  4. Nessa década, considerando a paridade de poder de compra, o PIB per capita protugês duplicou. Na primeira década seguinte cresceu apenas 40%, ou seja cresceu menos de metade. Quem quiser associar esse detalhe com a chegada do PS ao poder, assim como a trajectória até à chamada da Troika (porque raio é que chamaram a Troika?), é um fascista.

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