“Ataque atroz” à classe média


Pedro Correia,

 

A limitação das deduções fiscais é um "ataque atroz" à classe média. Assim disparou José Sócrates, num célebre frente-a-frente de campanha em Setembro contra Francisco Louçã, que lhe mereceu elogios quase unânimes dos comentadores políticos. "Mérito televisivo de Sócrates"; "Sócrates conseguiu pôr Louçã à defesa"; "Ataque [de Louçã] à classe média". Estes foram alguns dos inflamados títulos de então.

Apetece perguntar: o que diria o Sócrates de Setembro do Sócrates de Março, que anuncia aos portugueses limitações das deduções fiscais na saúde e educação?

E o que dirão hoje alguns dos seus mais ferrenhos adeptos que então se insurgiram contra o líder do Bloco de Esquerda por defender algo muito semelhante? Basta vir aqui para lembrar os mimos com que Louçã foi mimoseado: "impensável", "demagogia confrangedora", "momentus horribilis", "proposta suicida"…

Alega agora o primeiro-ministro, esquecendo esse seu fugaz momento de glória televisiva de Setembro, que a limitação das deduções fiscais na saúde e na educação já constava do programa eleitoral do PS.

Vale a pena recordar o que refere o citado programa eleitoral nesta matéria: "Reformar o IRS, mantendo a estabilidade da receita fiscal, tendo nomeadamente como objectivo redistribuir as deduções e benefícios fiscais, num modelo progressivo em favor das classes médias."

Sublinhe-se: em favor das classes médias. Precisamente ao contrário do que se anuncia agora.

9 comentários em ““Ataque atroz” à classe média”

  1. Decididamente, a criatividade não é uma característica dos governos de Sócrates. A classe média vai definhando, definhando até ser uma faixa estreita e esmagada. Da qual em breve já nada sairá que possa contribuir para continuar a alimentar os desvarios de quem governa sem imaginação e sem trabalho.

  2. Pois, mas o problema é definir exatamente o que são as “classes médias”…

    Tal como se viu recentemente numa discussão blogosférica entre Fernanda Câncio e Luís Aguiar-Conraria, o conceito de “classe média” é muito fluido… e toda a gente gosta de pretender pertencer à classe média.

  3. Todos governos da republica devem ser responsabilizados; a divida pública foi contrato por políticos incompetentes nos últimos 25 anos! Incitar os português a contratar vários créditos “carros novos (normas europeias), habitações, consumos diversas) foi o crime! – Resultado já não há poupança das famílias, as empresas não aguenta mais, o estado o pior exemplo… Quem pago os erros do nossos eleitos? a classe media! – 1º ministro é o pior mentiroso “não há + imposto!”, não posso admitir que os nossos governantes pensem que o povo é estúpido, não percebe…
    Não podemos jogar os ricos quando somos pobres!

  4. A solução do PEC está em TROCOS: acrónimo para “Taxa Repressora de Operações com Off Shores”.
    Impõe-se a criação de um novo imposto que cobraria 5% do valor de todos os negócios em que pelo menos um dos contratantes fosse uma off-shore. É uma medida justa, para o Estado arrecadar alguma coisa, já que os off-shores só existem para ocultar matéria colectável ao fisco. Exemplos:
    – o apartamento que, segundo os jornais, Sócrates comprou por 250.000 euros a uma off-shore renderia ao PEC cerca de 12.500 euros
    – os 350.000 euros pagos pela TAGUSPARK a uma off-shore do Figo sempre deixariam por cá 17.500 euros, em vez de se esfumarem no espaço como o gato da Alice (também ela no país das maravilhas).

  5. É por estas e por outras, que cada vez mais me sinto tentado a dar razão àquele empresário que há dias dizia numa entrevista a um jornal: “sempre que ouço um político falar, parto do princípio que está a mentir”.
    Infelizmente, temos de reconhecer que tem toda a razão e Sócrates tem feito aumentar de uma forma exponencial a desconfiança que cada vez mais temos que ter acerca do que dizem os políticos.

  6. Pedro:

    Excelente “post”.
    Ocorre-me perguntar de que estamos à espera para alterarmos tudo isto ou seremos sempre submissos a certos senhores e iluminados da treta como os actuais governantes?
    Este presidente do conselho de ministros mente desde 2005 (ou até antes) e nunca é responsabilizado por nada?
    Triste país que tem de aturar “gentinha” desta mas que continua adormecido sem dar um grito de revolta.

  7. Com tanta “frouxidão” fica tudo f*****! Ou, escrito de outra forma:

    Da frouxidão imaginativa
    de um programa mal amanhado
    brada a ruína efectiva
    do nosso regime definhado.

    A aventura nacional
    nestes anos entorpecidos
    é um desvairo descomunal
    que nos deixa esvanecidos.

    As palmas de satisfação,
    desta gente tão rosada,
    é pura manifestação
    de natura enfezada.

    Dá vontade de gritar
    de forma bem audível,
    vincando o protestar
    de asserção credível.

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