
Isto de andar na vida tem que se lhe diga. Por isso, e para minha defesa, procurei balizar-me por alguns princípios, morais se assim se lhes quiser chamar. Mas, entre as minhas abissais fraquezas e os “imponderáveis do quotidiano” (citando um célebre anglo-polaco que não era o Conrad), a quase todos esses princípios fui traindo, para minha desengraça espiritual. Agora, às portas do sexagenarismo, sobreviviam dois desses axiomas morais,”resilientes”: jamais comer pezinhos de porco; nunca comer mão de vaca.
Acontece que ontem me estreei no restaurante Dom Rodrigo, sito ao centro da Palmela nova… Simpática sala, boa decoração alheada do estilo neo-pequeno-burguês que tanto vai vigorando, preços módicos, serviço simpaticíssimo – atento, gentil e sábio, nisso nada importuno. E comida simples, sem ademanes, mas de cuidada confecção, saciável quantidade e adequada apresentação. Ora o prato do dia era a tal celerada “mãozinha de vaca”, que logo o meu correligionário comensal encomendou.
Devastado pelas agruras da vida mais uma vez cedo, deixo-me quebrar um dos meus últimos redutos: provei a tal Mão Visível. E muito apreciei, à tal manápula, até ululei na anuência.
Fico assim na vida “preso por um fio”, suspenso apenas por um último Valor, a tal refutação do pé suíno. Mas voltarei, e amiúde, ao restaurante Dom Rodrigo, na altaneira bela Palmela. Pois casa que me “veste bem”, mesmo que homem desprovido de princípios siga já eu…
(Postal para o meu Nenhures mas que aqui replico muito devido ao que Maria Dulce Fernandes nos acaba de informar sobre o dia de hoje)

em jovem comi além do mencionou:
pernil de porco ou lacão e perna de porco afiambrada
grandes comezainas
Mas com certeza, jpt, mão de vaca com feijão branco, ou até com grão, é uma coisa deliciosa! Teve que chegar a esta idade para provar?!
Comera em jovem adulto, repugnara-me e jurara nunca mais lhe tocar.
Sabe, jpt, o paladar das pessoas (de TODAS as pessoas) altera-se com a idade.
Assim, por exemplo, o vinho é bebida que não agrada aos jovens, mas agrada aos adultos.
Da mesma forma, a mão de vaca, eu também detestava quando era jovem, agora gosto.
É preciso saber isso, que o nosso paladar se altera com a idade, e portanto, coisas que dantes nos desagradavam, podemos agora achar deliciosas. Ou vice-versa.
Vinho não agrada aos jovens?
Haverá coisa melhor no mundo que sopas de cavalo cansado com açúcar amarelo?
Quanto ao paladar se alterar com a idade estamos de acordo, caro balio.
essa “cavalo cansado” já não é da nossa geração – e origens… E sim, o vinho agride os jovens incautos. Depois tomam-lhe o gosto. Às vezes com desmesura.
Claro que a razão está desse lado, estava, apenas, a “meter-me” como balio.
Essa do cavalo cansado, era vinho quente com pedaços de broa.
Principalmente de vinho morangueiro que era doce, de graça e a broa feita no forno.
Era remédio santo para a criançada dormir toda a noite.
O vinho dava de comer a mais de um milhão de portugueses.
A mão de vaca é um petisco delicioso, caro jpt.
Infelizmente, ainda não atingi o estado nirvana do nosso camarada/colega Pedro Correia, espero que em breve me consiga deliciar com umas costeletas de tofu, com uns pezinhos de salsa ou com uma grelhada mista de vegetais selvagens.
Obrigado pela dica, vou a Palmela com alguma frequência e anotei a sugestão comensal.
Pois, aquilo do tofu no Pedro Correia também me angustiou. Temo o pior…
(Espero que essa futura visita ao Dom Rodrigo seja aprazível. Tal como digo no postal gostei mesmo)
Depois conto como foi.
fico na expectativa
Com mais uma de 750 paus, bem pode para os lados do “O Fângio” em Negrais, e antes das costelas do habitual, assarapantar-se com uns pezinhos de coentrada. Ai ulula, ulula.
Fico grato pela recomendação
Muito bom!!
Eu, depois de, em criança, tentar comer um pedaço de dobrada num almoço de familia, e não saber o que fazer com dita, que não conseguia mastigar, não podia engolir, e não tinha onde cuspir, jurei nunca mais me aventurar com pedaços estranhos de animais.
Até que, em trabalho em na zona Santarém, o único restaurante da aldeia servia mão de vaca com grão. Pensei que poderia comer apenas o grão e coloquei de lado toda a carne gelatinosa.
Depois pensei no absurdo que era nem sequer provar. E desconfiadamente levei à boca. É certo que adorei! Uma verdadeira delícia. Fiquei totalmente rendida e resolvi libertar-me sempre que possível dos preconceitos.
Os pézinhos de coentrada ainda não tentei. Mas adoro tudo o que leva coentros. Talvez quando chegar aos cinquenta! 🙂
Qualquer dia vamos comer pezinhos de porco de coentrada ao Luar de Janeiro, em Évora.
e morra quem se negue…