Lá do alto


Maria Dulce Fernandes,

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“Alto está alto mora todos o vêem ninguém o adora”, dizia-me a avó para eu adivinhar que aquele gesto abaulado de mãos significava sino, naquele jogo de adivinhas com rima e senso a que tanto adorávamos brincar. Para mim esta era uma adivinha triste, porque morria de pena do sino, que todos viam e ninguém adorava, apesar de ele tocar para chamar os fiéis à celebração da Eucaristia Dominical, apesar de ele tocar quando se anunciava uma efeméride, apesar de  dobrar a finados.

E depois a Avó recitava :

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.

E eu condoía-me do imponente sino solitário que todos viam, ouviam e seguiam os tinidos enquanto tocava, mas quase imediatamente o som que nos emocionara, que nos avisara, que nos entristecera ou jubilara, caía rapidamente no esquecimento e praticamente ninguém o apercebia lá no alto, até lhe voltar a ouvir a voz grave e metálica.

O mal de crescer é perder a inocência, a candura de acreditar, de aceitar a simplicidade duma palavra, a ternura dum gesto. O mal de crescer é entender, é cada um ter os seus pareceres e fazer os seus juízos.

Eu cresci e continuo a olhar o sino, agora à luz da experiência de vida que a minha condição de pessoa antiga me conferiu. Já não o olho com os olhos puros da minha infância, nem me condoi vê-lo só lá no alto donde nunca saiu. Provavelmente acha-se importante de mais para descer do seu pináculo.

Também aconteceu assim com Gulliver em Lilliput e ilustra na perfeição a ilusão da realidade inversa:

 

                   Vozes de burro chegam aos céus (Ou pelo menos a altas instâncias)

 

(Imagem do Google)

22 comentários em “Lá do alto”

  1. O mal de crescer é perder a inocência

    Como versejou Carlos Tê:

    “É triste ser-se crescido
    Não ter mais a rédea solta
    Ir descobrindo o sentido
    Das coisas à nossa volta.”

  2. Apesar de evitar falar nisso, pois as reacções dos meus amigos poderiam ser de incompreensão ou pior, sempre apreciei mais fatos de banho do que bikinis (e vestidos e até calças a mini-saias). Talvez por achar que não há realidade que supere a minha imaginação. Ou talvez por ter lido Bergier e Pauwels demasiado cedo e os bikinis trazerem-me à memória a cobaia 311.
    Na experiência do “atoll” de Bikini, os americanos dispuseram cinco anéis de navios destinados a sucata com toda a espécie de artefactos e animais vivos, para avaliar os efeitos da explosão. Colocada num dos anéis (3º?) onde era suposto todo o ser vivo ser morto, a cobaia 311 apareceu viva e de boa saúde numa ilha relativamente distante. Era uma porca – estou certo que ser uma porca e não um porco merecia uma reflexão filosófica, mas não me ocorre nenhuma – e o facto nunca teve explicação possível. E, lá está, com a minha imaginação insaciável passei tempos a imaginar se a porca teria depois ficado cega, se desenvolveu tumores na pele, sobretudo se não ficou estéril. Claro que nunca soube.

      1. Talvez mais cedo do que se pensa.
        O protocolo ocidental – EUA, Inglaterra , França – restringe o nuclear à dissuasão. Só falhada esta, isto é, perante um ataque nuclear, é que podem ser usadas armas nucleares. Já o protocolo russo é diferente e admite o uso de armas nucleares perante a ameaça de uma derrota militar. Com o crescente apoio em armas e equipamentos à Ucrânia, entre finais do Verão e o fim do ano, a Rússia estará à beira de uma derrota militar e vai recorrer a armas nucleares tácticas. Esse será o momento da verdade. Ou o ocidente sacrifica a Crimeia e o Donbass, e a viabilidade da Ucrânia como estado independente, ou o conflito nuclear será inevitável.
        Não vejo cenário alternativo a não ser uma mudança drástica no Kremlin. Que, por não ter já ocorrido, se torna cada vez mais improvável.
        P.S.1 – Nem o Porsche 311 escaparia, muito menos uma porca 311.
        P.S.2 – Um optimista, que os há, poderia dizer que é por isso que o governo de António Costa não parece preocupado com a inflação.

        1. Com o crescente apoio em armas e equipamentos à Ucrânia, entre finais do Verão e o fim do ano, a Rússia estará à beira de uma derrota militar

          O report sobre a guerra do Economist desta semana não era de forma nenhuma assim assertivo.

          Fazem notar que as armas que o Ocidente está a fornecer, embora de grande precisão e alcance, só podem disparar pouca munição. (Aliás, a Ucrânia está com muita falta de munição em geral.) Essas novas armas são boas para atacar um quartel-general ou um aeródromo russo a grande distância, por exemplo, mas não propriamente para o confronto direto na batalha.

          Esse report parece ter dúvidas de que a Ucrânia possa ganhar a guerra este ano.

        2. o ocidente sacrifica a Crimeia e o Donbass, e a viabilidade da Ucrânia como estado independente

          A viabilidade da Ucrânia como Estado independente de forma nenhuma depende de o seu território abranger a Crimeia e o Donbass.
          A Crimeia e o Donbass são, quando muito, 1/5 do território ucraniano. Mesmo sem eles a Ucrânia continua a ser um país muito grande, e perfeitamente viável.

          1. Para Maria Dulce e Balio (ou vice-versa).
            O “Economist” é um excelente jornal que tem por tradição enganar-se em tudo o que é importante, com ênfase na Europa e no Euro.
            A(s) análise(s) que preveem a inflexão da guerra a partir de finais do Verão, não se circunscrevem ao armamento e equipamento. Incluem factores como a dificuldade russa em substituir unidades com demasiadas baixas ou simplesmente a precisar de descanso; também o factor, já incipiente, de ao aumentar a área ocupada, a Rússia ficar mais exposta a acções de terrorismo.
            Aclaradas as intenções russas – que são desígnio nacional e não apenas pessoal de Putín – a Crimeia permite à Rússia a todo o tempo fechar o estreito de Perch e tornar o mar de Azov um mar interior. Com um bloqueio a Odessa, fácil com base em Sevastopol, pode privar a Ucrânia de acessos ao Mar Negro, isto é, torna-a “de facto” um Estado continental. O Donbass é simultaneamente a zona de maior produtividade e de maior produção agrícola da Ucrânia, a zona onde pode diversificar portos e, militarmente, a maior segurança de Odessa. Sem a Crimeia e sem o Donbass e com a Rússia como vizinha a Ucrânia fica com a mesma viabilidade da Bielorússia. Com tempo e alguma ajuda vicinal, Zelensky será substituído por um novo Lukashenko. Pequenos pormenores, como a exportação de cereais a adubos por caminho-de-ferro (que para já não existe) fariam a produção Ucraniana mais cara do que e Russa, o contrário do que existia antes da invasão. E também, sem portos ou mesmo apenas com Odessa, a Ucrânia ficaria vitalmente na dependência do gás russo.
            Maria Dulce, os europeus não são eslavos. Um Luxemburgo ou uma Andorra não seria possíveis nessas bandas. De resto, Andorra é garantida por dois príncipes, um francês e outro espanhol. E o Luxemburgo só é viável no Benelux, isto é, coma independência garantido por laços à Bélgica e à Holanda. E quem seriam os garantes da Ucrânia? A Rússia e a Bielorrússia?
            Bem sei que todos os argumentos parecem bons para afastar a ideia da possibilidade de uma guerra nuclear. Mas a Rússia já tem o acordo de Lukashenko para instalar na Bielorússia mísseis com capacidade nuclear e não precisa dessa localização para alvos afastados como Paris ou Londres. Afastando a Moldova e a Polónia da equação, o objectivo só pode ser a utilização de armas nucleares tácticas na Ucrânia. A quem preste atenção, as mais duras declarações americanas – americanas, não da NATO – foram exactamente sobre as consequências se a Rússia utilizar armas nucleares na Ucrânia. No passado, em 1991, um actor de segunda, Reagan, ganhou um bluff monumental – a guerra das estrelas – aos russos.
            Hoje não estou a ver Biden a assustar Putín com as “terríveis consequências”. Por isso escrevi e mantenho que, salvo uma enorme mudança no Kremlin, desta vez vai ser preciso ir a jogo. Já não se vai lá com Bluffs e ameaças.

          2. Se um garante significar retorno substancial em moeda ou géneros, garantes não irão faltar.
            Não digo que está errado mas eu goste de ler o Economist. Depois há o que se diz nos USA, da boca dos trumpistas anti Sleepy Joe. Aqueles que sempre que perdem, ganham.
            Penso que está a ser muito pessimista, Francisco. Resta esperar para ver.

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