
“Alto está alto mora todos o vêem ninguém o adora”, dizia-me a avó para eu adivinhar que aquele gesto abaulado de mãos significava sino, naquele jogo de adivinhas com rima e senso a que tanto adorávamos brincar. Para mim esta era uma adivinha triste, porque morria de pena do sino, que todos viam e ninguém adorava, apesar de ele tocar para chamar os fiéis à celebração da Eucaristia Dominical, apesar de ele tocar quando se anunciava uma efeméride, apesar de dobrar a finados.
E depois a Avó recitava :
O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.
E eu condoía-me do imponente sino solitário que todos viam, ouviam e seguiam os tinidos enquanto tocava, mas quase imediatamente o som que nos emocionara, que nos avisara, que nos entristecera ou jubilara, caía rapidamente no esquecimento e praticamente ninguém o apercebia lá no alto, até lhe voltar a ouvir a voz grave e metálica.
O mal de crescer é perder a inocência, a candura de acreditar, de aceitar a simplicidade duma palavra, a ternura dum gesto. O mal de crescer é entender, é cada um ter os seus pareceres e fazer os seus juízos.
Eu cresci e continuo a olhar o sino, agora à luz da experiência de vida que a minha condição de pessoa antiga me conferiu. Já não o olho com os olhos puros da minha infância, nem me condoi vê-lo só lá no alto donde nunca saiu. Provavelmente acha-se importante de mais para descer do seu pináculo.
Também aconteceu assim com Gulliver em Lilliput e ilustra na perfeição a ilusão da realidade inversa:
Vozes de burro chegam aos céus (Ou pelo menos a altas instâncias)
(Imagem do Google)

O sino pertencia à sua avó ou era arrendado?
Era a minha avó quem explorava o sino! Tudo gente exploradora…
Coitadinho do padre, imagino o sofrimento.
Explorar um padre… ainda se fosse a Atlântida.
Gente da classe social alta não vai ao fundo.
Mas o clérigos sempre foram tão perdidos como o dito ” continente”
O mal de crescer é perder a inocência
Como versejou Carlos Tê:
“É triste ser-se crescido
Não ter mais a rédea solta
Ir descobrindo o sentido
Das coisas à nossa volta.”
É isso mesmo
Apesar de evitar falar nisso, pois as reacções dos meus amigos poderiam ser de incompreensão ou pior, sempre apreciei mais fatos de banho do que bikinis (e vestidos e até calças a mini-saias). Talvez por achar que não há realidade que supere a minha imaginação. Ou talvez por ter lido Bergier e Pauwels demasiado cedo e os bikinis trazerem-me à memória a cobaia 311.
Na experiência do “atoll” de Bikini, os americanos dispuseram cinco anéis de navios destinados a sucata com toda a espécie de artefactos e animais vivos, para avaliar os efeitos da explosão. Colocada num dos anéis (3º?) onde era suposto todo o ser vivo ser morto, a cobaia 311 apareceu viva e de boa saúde numa ilha relativamente distante. Era uma porca – estou certo que ser uma porca e não um porco merecia uma reflexão filosófica, mas não me ocorre nenhuma – e o facto nunca teve explicação possível. E, lá está, com a minha imaginação insaciável passei tempos a imaginar se a porca teria depois ficado cega, se desenvolveu tumores na pele, sobretudo se não ficou estéril. Claro que nunca soube.
É preciso ser uma grande porca para sobreviver a uma explosão atómica.
Um porco seguramente ter-se-ia finado de medo antes do impacto. O mundo precisa é de porcas 311!
Talvez mais cedo do que se pensa.
O protocolo ocidental – EUA, Inglaterra , França – restringe o nuclear à dissuasão. Só falhada esta, isto é, perante um ataque nuclear, é que podem ser usadas armas nucleares. Já o protocolo russo é diferente e admite o uso de armas nucleares perante a ameaça de uma derrota militar. Com o crescente apoio em armas e equipamentos à Ucrânia, entre finais do Verão e o fim do ano, a Rússia estará à beira de uma derrota militar e vai recorrer a armas nucleares tácticas. Esse será o momento da verdade. Ou o ocidente sacrifica a Crimeia e o Donbass, e a viabilidade da Ucrânia como estado independente, ou o conflito nuclear será inevitável.
Não vejo cenário alternativo a não ser uma mudança drástica no Kremlin. Que, por não ter já ocorrido, se torna cada vez mais improvável.
P.S.1 – Nem o Porsche 311 escaparia, muito menos uma porca 311.
P.S.2 – Um optimista, que os há, poderia dizer que é por isso que o governo de António Costa não parece preocupado com a inflação.
Quando é que para António Costa nunca foi tudo facilidades?
Com o crescente apoio em armas e equipamentos à Ucrânia, entre finais do Verão e o fim do ano, a Rússia estará à beira de uma derrota militar
O report sobre a guerra do Economist desta semana não era de forma nenhuma assim assertivo.
Fazem notar que as armas que o Ocidente está a fornecer, embora de grande precisão e alcance, só podem disparar pouca munição. (Aliás, a Ucrânia está com muita falta de munição em geral.) Essas novas armas são boas para atacar um quartel-general ou um aeródromo russo a grande distância, por exemplo, mas não propriamente para o confronto direto na batalha.
Esse report parece ter dúvidas de que a Ucrânia possa ganhar a guerra este ano.
Também li. Mas penso que é imprevisível.
o ocidente sacrifica a Crimeia e o Donbass, e a viabilidade da Ucrânia como estado independente
A viabilidade da Ucrânia como Estado independente de forma nenhuma depende de o seu território abranger a Crimeia e o Donbass.
A Crimeia e o Donbass são, quando muito, 1/5 do território ucraniano. Mesmo sem eles a Ucrânia continua a ser um país muito grande, e perfeitamente viável.
Isso é verdade. Andorra, o Luxemburgo, o Mónaco, etc., são bons exemplos de países pequenos perfeitamente viáveis.
Para Maria Dulce e Balio (ou vice-versa).
O “Economist” é um excelente jornal que tem por tradição enganar-se em tudo o que é importante, com ênfase na Europa e no Euro.
A(s) análise(s) que preveem a inflexão da guerra a partir de finais do Verão, não se circunscrevem ao armamento e equipamento. Incluem factores como a dificuldade russa em substituir unidades com demasiadas baixas ou simplesmente a precisar de descanso; também o factor, já incipiente, de ao aumentar a área ocupada, a Rússia ficar mais exposta a acções de terrorismo.
Aclaradas as intenções russas – que são desígnio nacional e não apenas pessoal de Putín – a Crimeia permite à Rússia a todo o tempo fechar o estreito de Perch e tornar o mar de Azov um mar interior. Com um bloqueio a Odessa, fácil com base em Sevastopol, pode privar a Ucrânia de acessos ao Mar Negro, isto é, torna-a “de facto” um Estado continental. O Donbass é simultaneamente a zona de maior produtividade e de maior produção agrícola da Ucrânia, a zona onde pode diversificar portos e, militarmente, a maior segurança de Odessa. Sem a Crimeia e sem o Donbass e com a Rússia como vizinha a Ucrânia fica com a mesma viabilidade da Bielorússia. Com tempo e alguma ajuda vicinal, Zelensky será substituído por um novo Lukashenko. Pequenos pormenores, como a exportação de cereais a adubos por caminho-de-ferro (que para já não existe) fariam a produção Ucraniana mais cara do que e Russa, o contrário do que existia antes da invasão. E também, sem portos ou mesmo apenas com Odessa, a Ucrânia ficaria vitalmente na dependência do gás russo.
Maria Dulce, os europeus não são eslavos. Um Luxemburgo ou uma Andorra não seria possíveis nessas bandas. De resto, Andorra é garantida por dois príncipes, um francês e outro espanhol. E o Luxemburgo só é viável no Benelux, isto é, coma independência garantido por laços à Bélgica e à Holanda. E quem seriam os garantes da Ucrânia? A Rússia e a Bielorrússia?
Bem sei que todos os argumentos parecem bons para afastar a ideia da possibilidade de uma guerra nuclear. Mas a Rússia já tem o acordo de Lukashenko para instalar na Bielorússia mísseis com capacidade nuclear e não precisa dessa localização para alvos afastados como Paris ou Londres. Afastando a Moldova e a Polónia da equação, o objectivo só pode ser a utilização de armas nucleares tácticas na Ucrânia. A quem preste atenção, as mais duras declarações americanas – americanas, não da NATO – foram exactamente sobre as consequências se a Rússia utilizar armas nucleares na Ucrânia. No passado, em 1991, um actor de segunda, Reagan, ganhou um bluff monumental – a guerra das estrelas – aos russos.
Hoje não estou a ver Biden a assustar Putín com as “terríveis consequências”. Por isso escrevi e mantenho que, salvo uma enorme mudança no Kremlin, desta vez vai ser preciso ir a jogo. Já não se vai lá com Bluffs e ameaças.
Se um garante significar retorno substancial em moeda ou géneros, garantes não irão faltar.
Não digo que está errado mas eu goste de ler o Economist. Depois há o que se diz nos USA, da boca dos trumpistas anti Sleepy Joe. Aqueles que sempre que perdem, ganham.
Penso que está a ser muito pessimista, Francisco. Resta esperar para ver.
Era uma porca transgénica com genes de barata.
Vive com o Elvis numa ilha secreta.
Trans é moda . Porca trans +Elvis = Burning Love… lembrei-me de torresmos. Faz tanto tempo que não como!
Constatei que existe a palavra “sinos” em 11 posts do meu blogue. Talvez este lhe interesse: https://imagenscomtexto.blogspot.com/200 9/11/amin-maalouf-e-os-sinos.html
Os sinos ecoam a passagem do tempo. Das cruzadas vistas pelos árabes penso que vale muito a pena ler. Gostei muito da recomendação. Obrigada!