O PSD movimenta-se para conseguir aquilo em que é perito: destronar um ‘líder’ para entronizar outro. Na última década e meia, os sociais-democratas tiveram oito ‘líderes’: Aníbal Cavaco Silva, Fernando Nogueira, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite. Gente para todos os gostos, como se viu e como se vê. O problema deste partido que tanto gosta de derrubar ‘líderes’ não é dos dirigentes – é um problema de programa, de projecto, de objectivos e de espaço geográfico no panorama político português.
É difícil encontrar um partido como o PSD noutro país da União Europeia, onde os blocos políticos dominantes são os que equivalem em Portugal ao PS e ao CDS. O PSD é uma originalidade portuguesa, justificável pelas contingências do Portugal pós-revolucionário e pela extraordinária personalidade do fundador do partido, Francisco Sá Carneiro. Mas os tempos são outros: a amálgama ideológica que permitiu ao PSD (aliás, em bom rigor, PPD/PSD) implantar-se em largos sectores da sociedade portuguesa joga hoje contra este partido claramente incaracterístico onde os verdadeiros sociais-democratas sempre estiveram em minoria. O PSD padece de um problema simétrico ao do PCP: enquanto os comunistas se tornaram essencialmente um ‘partido sindical’, que funciona como força de protesto mas sem correspondência em votos, o PSD tem vindo a tornar-se um ‘partido autárquico’, que serve para governar ao nível camarário mas não no plano nacional.
Esta seria a questão mais urgente a debater pelos seus militantes. Mas não. Como é norma em Portugal, o debate esgota-se na fulanização. Toda a discussão gira à volta de pessoas e não de ideias.


exactamente.o psd afunlicou para dentro.
E que de maneira…
Certíssimo. Como sabes, já tenho falado sobre a incongruência do PPD/PSD na realidade do espaço político, onde não encontra espaço próprio, ocupado à direita pelos populares do CDS e à esquerda pelos sociais-democratas do PS.
Se juntarmos a isso o número de autarcas ‘laranjas’ que já não poderão recandidatar-se nas próximas autárquicas, nem o “partido autárquico” restará.
O próprio militante nº 1, Pinto Balsemão, alertava há dias para a possibilidade de «suicídio» do PSD. Como bem sublinhas, o anunciado fim do mandato de dezenas de autarcas pode dar a machadada definitiva num partido que é ‘social-democrata’ só de nome.
Tens toda a razão, Pedro. Eu vaticino o fim do PSD há anos, mas o que é certo é que continua a aguentar-se como partido de poder. Não sei por quanto tempo mais.
E o grande problema é que a sobrevivência foi sempre garantida pela falta de ideias e de um rumo. No fundo, se bem virmos, o PSD sobreviveu sempre à custa de líderes fortes. Por isso, é natural a tendência da militância para discutir nomes e não ideias.
E se o PSD acabar não ha-de ser nenhum drama. A reorganização do mapa partidário português talvez fosse um sinal de esperança e de sanidade.
Concordo contigo, Joaquim. E também já venho escrevendo isto há muito. A reorganização do mapa partidário português seria muito útil para o nosso sistema político.
Excelente análise com que concordo em absoluto. De facto, não saem da guerrinha dos grupos e mais valia estarem quietos. Mas o pior é que estes grupos não se distinguem só pelas diferentes opiniões e estratégias (o que seria normalíssimo) mas também por algo de verdadeiramente constitucional: a ética político-partidária. Ora isto já diz tudo acerca da perda de identidade do caldeirão social-democrata.
Só duas ou três achegas: 1- Realmente não há debate de ideias (sobretudo se pensarmos em cadernos programáticos). Mas a verdade é que todos sabem, todos sabemos muito bem que sob a retórica da fulanização está latente e bem viva a retórica das ideias: – digamos que as verdadeiras ideias. As que unem e desunem as pessoas de acordo com a sua forma de estar na vida e de encarar a intervenção partidária. Aí é que as águas se dividem. 2- Também é verdade que Portugal é original por não ter um sistema bi-partidário , polarizando direita e esquerda. Tornaria tudo mais claro. Por mim, tenho a certeza que esta idiossincrasia portuguesa irá perder-se com a renovação das gerações e com a neutralização do (também peculiaríssimo) estigma abrilista , vulgarmente conhecido por complexo de esquerda… Mas para já, a singularidade de um partido como o PSD parece-me persistir para além da circunstância-Sá Carneiro. E se o PSD tem de rever a sua identidade, ou desaparecer, o CDS também devia exercer o ónus correspondente. 3- Para este diagnóstico de doença não podemos convocar só factores endógenos, se quisermos ser justos. Há determinantes externas que não podemos esquecer, tal como, por exemplo, ter em conta que “do outro lado” algo de muito importante mudou. E alguém também se descaracterizou, avariando a bússola nacional. Falo do PS, evidentemente, que não se transformou pouco…
Concordo consigo, no essencial. Por mim, como já acentuei, considero não só provável como desejável uma recomposição do sistema partidário português que permita uma clarificação política, nos moldes vigentes na esmagadora maioria dos países europeus, com duas grandes famílias políticas – a conservadora e a socialista – funcionando como verdadeiras alternativas de poder.
Muito bem visto e muito bem dito.
É uma questão que preocupa muita gente, Teresa. O PSD é um partido em decomposição acelerada, que tritura líderes como quem muda de camisa e permite assim a criação de um sistema unipolar, com hegemonia socialista. Não é por acaso que o PS foi governo em 12 dos últimos 15 anos.
Exactamente. Parecidos com o PSD na Europa só encontro a francesa UDF e principlamente o espanhol UCD, que não por acaso já desapareceram, absorvidas por forças mais vincadamente à direita. O PSD é uma originalidade que, a bem da aclaração do panorama partidário português, se podia extinguir para que a sua facção (realmente) social-democrata se unisse ao PS, a conservadora ao CDS e restaria talvez quem criasse um partifo liberal. E assim talvez ficássemos com um sistema de partidos idêntico ao da Alemanha.
Ora bem, João Pedro. Por acaso creio que caminhamos nessa direcção. O problema é que esse caminho está a ser percorrido demasiado devagar.
Eu iria mais longe.
O PSD não é um partido.
O Partido Social Democrata deixou de ser um partido. Já não o é. É, antes, um movimento de cidadãos com as ideias baralhadas, mas que também querem participar. Têm todo o direito. Porém, é de esperar que não se perceba a maneira através da qual pretendem participar. Se o PSD fosse uma entrada era, certamente, o pão d’ontem com paté de aroma a sardinha; se fosse um prato não seria mais do que a roupa velha, feita somente com os restos de uma consoada (ou de um congresso qualquer), não esquecendo toda a mistura de ideologias própria de um movimento de cidadãos; por fim, se fosse uma bebida era, sem dúvida, um café. Porquê!? Porque muitos dos membros daquele movimento não conseguem sobreviver sem ele.
Se bem entendi
« É, antes, um movimento de cidadãos com as ideias baralhadas».
A pontuação às vezes não chega. Se a afirmação tem apenas uma oração (= um sujeito), eu concordo.
Se tem duas orações (= dois sujeitos, partido e cidadãos) já discordo em absoluto…
Tem apenas um sujeito que é o “movimento de cidadãos”. Numa terminologia mais correcta o sujeito pode dizer-se que é o “movimento”, no sentido de “movimento cívico”. Uma espécie de “alternativa”, aos partidos políticos tradicionais, que tem como característica a defesa de algo mas que não se percebe bem em que ideologia assenta, daí a palavra “movimento”, porque está sempre a mudar, a mexer.
Em suma: só tem um sujeito.
Porém, fazendo uma análise menos poética e mais correcta, devo dizer que o sujeito é o “PSD”, mas PSD e movimento cívico são uma e a mesma coisa, confundem-se devido à sua natureza.
Ou seja, editando essa frase que escrevi, a mensagem a reter seria a seguinte: “O PDS é, antes, um movimento cívico com as ideias baralhadas, mas que também quer participar.”.
Perecebi… 🙂 Onde eu queria chegar é que o movimento – o colectivo, o institucional – está de facto baralhado.
Os cidadãos que o integram – individualmente – parece-me saberem muito bem o que querem, cada um de per si.
Sem dúvida, Chloé.
Cada um puxa para o seu lado. Pode rebentar.