Fiquei um bocadinho perplexa com este teu post, André. O problema deve ser meu: eu também não imagino como é que se vive com 450 euros por mês. Não sei como se paga uma casa, comida, transportes e tudo o mais com um ordenado desses. Para não pensar em filhos e escolas, doenças e apoio a idosos. E mais: acho vergonhoso que haja ordenados de 450 euros numa das economias mais desenvolvidas do mundo, pertencente a um clube muito especial de países. Houve qualquer coisa aqui que falhou; falhou, e continua a falhar, à medida que cada vez mais portugueses têm de tentar viver com 450 euros por mês. Isto não tem nada que ver com esquerda ou direita; felizmente, a indignação com a injustiça ainda é uma referência moral bem acima desse eixo tão redutor.
Comentário ao André
cadernoelastico,

Creio que a indignação vem do facto de uma pessoa que não se imagina a viver com 450€ mensais ter sido contra o aumento do salário mínimo, que permitiria que pessoas que vivem com os 450€ mensais com os quais não se imagina a viver pudessem viver com um bocadinho mais.
Um dos pontos.
Devia ter concretizado mais.
Eu sobrevivo com 250 euros ao mês (não estou a brincar). Gostava de enforcar 101% dos políticos e dos comentaristas de política neste país e em outros. Política? Isto é para gente que não tem de estar desesperado pensando quando será a próxima refeição. Gente como este Francisco Van Zeller me dá mais ânsia de vômitos do que a fome.
Caro Anónimo,
Julgo que tocou num ponto muito importante:
– “Política? Isto é para gente que não tem de estar desesperado pensando quando será a próxima refeição.”
É que a questão dos 450,00 Eur (no seu caso bem menos) não é apenas o que se pode fazer com esse salário, é também, e muito importante o que não se pode fazer. Isto é das escolhas que não se tem e que condicionam de sobremaneira a vida de uma pessoa, sem que o próprio possa fazer algo para mudar essa situação.
Gostava só de referir outra coisa sobre o que disse. Eu entrei no mundo politico. Sei que nesse aspecto sou um priveligiado (e infelizmente é mesmo algo só ao alcance de alguns), mas julgo profundamente injusto a percentagem que utiliza para definir os politicos e comentaristas, e que a meu ver apenas ajuda os que são exactamente da forma como você os imagina…
Pois eu acho que tenho o direito de ter também uma opinião. E, com a sua licença, o que não acho justo é o senhor vir falar a mim de injustiças. Tu te sentes injustiçado nos teus privilégios? Sinto muito. A percentagem é esta. É exatamente esta. Não duvido que o senhor até seja uma pessoa muito melhor do que as outras. Mas, honestamente, não preciso que digam-me o que não se pode fazer com 250 euros. Acredite, sei perfeitamente do que não sou capaz com 250 euros ao mês. Agradecido.
Caro Anónimo,
“Pois eu acho que tenho o direito de ter também uma opinião”
Nunca disse o contrário. Aliás apenas salientei algo com que não concordo e honestamente julgo que está errado. Certamente concordará que eu tenho também o direito a uma opinião?
“…o que não acho justo é o senhor vir falar a mim de injustiças.”
Porquê? Aliás foi injusto por exemplo para os politicos que defendem o aumento do Salário Minimo Nacional. Ou também queres enforcar esses politicos? Depois julgo que a actitude de generalizar é profundamente errada qualquer que seja o tema.
“Tu te sentes injustiçado nos teus privilégios?”
Não. O que eu sinto é que preferia viver numa sociedade onde aquilo que eu reconheço como privilégio fosse algo acessível a qualquer cidadão, ou seja não seja um privilégio.
“Não duvido que o senhor até seja uma pessoa muito melhor do que as outras”
Obrigado pelas palavras. Espero ser melhor que algumas, igual a outras, no entanto isso serão os outros a avaliar…
“Mas, honestamente, não preciso que digam-me o que não se pode fazer com 250 euros. Acredite, sei perfeitamente do que não sou capaz com 250 euros ao mês.”
Peço desculpa se o meu comentário transpareceu isso pois nem me passou pela cabeça. Sobre as tuas dificuldades só mesmo tu é que sabes. O meu conhecimento (e as minhas palavras) deriva da minha experiência pessoal, nada mais. Algo que aprendi e não esqueci…
Concordo com o João.
Na política há gente boa como há gente má…
Não tem nada a ver com a esquerda e com a direita?
É a típica frase para ficar bem.
Ou quem nos tem governado nestes últimos anos não foi a direita? E mesmo assumindo o PS como um partido de esquerda (!) já viram algum governo PSD preocupado com o salário mínimo nacional, em garantir e proteger os direitos dos trabalhadores ou a tomar uma decisão no sentido de os proteger socialmente?
Deixem-se de rodeios.
Se o salário mínimo nacional fosse receita certa para um rendimento mínimo de todos os portugueses, não só o mesmo já tinha sido aumentado como não havia empresas a fechar.
Quer isto dizer que o aumento do salário mínimo não pode ser visto no plano do “podem as pessoas viver com mais ou com menos do que isto” mas no plano económico.
O que equivale a dizer que ser contra o aumento do salário mínimo não significa que se é contra a que as pessoas vivam melhor. Mas tão só que, em termos económicos, o mesmo pode efeitos perversos.
Efeitos perversos, pá. E as causas perversas, ó meu patrão? Sabes onde elas estão? Não, tu não sabes. Tu não imaginas as responsabilidades que tem (que sempre teve) nesta Disneylândia. Tu deves ser de pano e ter o nariz feito de botão como todos os outros. Eu ergo paredes e ponho telhados nas coisas que faço todos os dias. Para quê? Para gente assim como tu ficar confortavelmente instalada a pensar nas perversidades que podem custar dar a mim mais 50 euros ao mês.
(Troquei os alhos por bugalhos. Espero que assim o comentário seja aceito.)
E trocados os alhos por bugalhos, não havia por que não aceitar o comentário.
A questão, caro anónimo, não está em cada um de nós merecer ou não, em termos mínimos pelo seu trabalho, mais do que aquilo que efectivamente recebe.
A questão está em saber, com o aumento da carga fiscal sobre pessoas e empresas, com a deflacção em curso, com a quebra na economia e na produção, se o aumento do salário mínimo pago pelas empresas não poderá, por exemplo, ter como efeito perverso, atrasar a sua recuperação e contribuir para o desemprego.
É que o salário mínimo é uma marca legal, que pode ter pouca eficácia se não puder ser atingida pelas empresas. É por isso que muitos países, que vivem bem melhor do que nós, dele prescindem. Como entender que o salário médio dos finlandeses é muito superior ao nosso se eles nem salário mínimo têm? Talvez a questão tenha que ver com a situação da economia e não com a fixação do salário mínimo.
Um abraço,
a.
“A questão, caro anónimo, não está em cada um de nós merecer ou não, em termos mínimos pelo seu trabalho, mais do que aquilo que efectivamente recebe.”
A questão só não é está por que não é o senhor que tem uma renda de 250 euros mensais.
Não quero que aumentem a carga tributária. Ao contrário. Uma maneira de fazer “avançar” (valorizar) meus 250 euros é justamente obrigando os impostos recuarem.
Pois eu sugiro que parem de pensar em como dividir a riqueza e passem a dividir a pobreza.
Meu caro,
O que quis dizer foi que aqueles que duvidam das virtualidades do aumento do salário mínimo o não fazem por considerar que cada um de nós merece apenas, em termos mínimos pelo seu trabalho, o actual valor do salário mínimo.
É por isso que antes de louvarmos a fácil medida de subir artificialmente o salário mínimo deveríamos pensar se essa medida efectivamente vai fazer subir o nível de vida das pessoas, ou se é apenas poeira que serve para esconder o desemprego e os impostos e a carga estadual a atrapalhar a economia.
Mais importante, digo eu que não ganho efectivamente 250 euros, do que fazer uma lei subir o salário mínimo é criar os mecanismos para que o trabalho seja mais valorizado e possa ser melhor pago. No fim de contas, acho que o trabalhador prefere medidas eficazes a medidas artificiais que têm como consequência maior desemprego.
E aqui entra a discordância, assim o suponho, da Ana Margarida. Não se é bom ou justo por se dizer que o salário mínimo deve ser aumentado mas sim por se criarem condições para que o valor do trabalho seja mais justo. E enquanto este Governo continuar a levar a carga fiscal para lá dos limites do suportável, e a contribuir para o despesimos que nos enterra, duvido que possamos olhar para as suas políticas e classificá-las como boas e justas. Mesmo que, no meio delas, conste o aumento artificial do salário mínimo.
Excelente resposta caro anónimo!
Ana Margarida,
(respondo-te aqui para não andarmos de post em post)
As minhas palavras advêm de vários factos:
(1) FvZ não se imagina a viver com 450€ por mês mas é contra o aumento do salário mínimo;
(2) para além de ser contra esse aumento, na entrevista solta frases de uma total insensibilidade social (associação entre violência e competitividade, maldade no relacionamento com os trabalhadores, etc), frases que não devem ser proferidas por quem não sente no dia a dia o veneno resultante das letras que conjuga, isto por uma questão de coluna vertebral;
(3) porque quem tem poder deve sentir sobre as suas costas um peso especial, o peso da responsabilidade de cuidar tão bem quanto possível daqueles que em última análise serão destinatários directos da sua acção. Poder não deve ser o conforto de uma cadeira e a gestão de orçamentos e influências;
(4) porque rejeito o império dos ditames económicos sobre os sociais, defendendo um meio termo;
(5) porque em inglês ou português a liberdade que releva neste assunto é a que é coarctada a quem recebe tão pouco, na medida em que isso é amiúde limitação da autodeterminação.
Por fim dizer-te que na minha opinião isto é uma questão de esquerda e direita, sim. Não seria a primeira vez que ouvia a associação entre esquerda e direita, boas e más pessoas mas não vou tão longe. Acho no entanto que isso em alguns casos é verdade. Em alguns casos.
Gostava imenso de continuar a debater com os senhores. Mas tenho 4 horas para dormir. Alguém precisa trabalhar neste país.
Agradecido (de verdade) por conversarem comigo.
Forte abraço.