O estilo Costa


Pedro Correia,

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Bem ao seu estilo, António Costa anunciou a «libertação total da sociedade» no final do Verão. Medida que coincidirá em absoluto com o calendário eleitoral: as autárquicas realizam-se a 26 de Setembro.

Preparemo-nos para a propaganda que aí vem. Ele nunca dá ponto sem nó.

 

O chefe do Governo adora ser portador de boas notícias. Quando as novidades são más, encarrega dessa tarefa alguns dos seus ministros. Designadamente a pobre Mariana Vieira da Silva, que já aparece nas conferências de imprensa com cara de quem suplica para a tirarem desse filme.

Foi ela que a 18 de Junho anunciou uma das mais inacreditáveis medidas alguma vez paridas num Conselho de Ministos: o “encerramento” da Área Metropolitana de Lisboa entre as 15 horas de sexta-feira e as 6 da manhã de segunda-feira. Quase três milhões de portugueses confinados dentro de parte do território nacional, sem proclamação do estado de emergência, para «impedir contágios». Como se o coronavírus só atacasse aos fins-de-semana.

Foi ela também que a 1 de Julho anunciou o “recolher obrigatório” entre as onze da noite e as seis da manhã em 45 concelhos do País, incluindo Lisboa e Porto, de novo sem estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse à luz da Lua.

Foi ainda ela – desta vez acompanhada pelo ministro da Economia – que a 8 de Julho anunciou outra medida ainda mais estapafúrdia do que as anteriores: a exigência de apresentação de certificados de vacinação ou realização de testes rápidos nos restaurantes e na hotelaria aos fins-de-semana, a partir do jantar de sexta-feira nos concelhos de maior risco e nos alojamentos turísticos em todo o território continental. Medidas que nem existiram quando Portugal ficou em estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse quando estamos a descansar e nunca quando estamos a trabalhar.

 

Nestas ocasiões, que cobrem de ridículo os portadores das novidades, Costa nunca aparece. Manda sempre qualquer outro ocupar o palco. Ele só comparece em contexto positivo, de preferência com palavras associadas à verba da bazuca, oriunda de Bruxelas. Anuncia 252 milhões de euros de investimento na investigação e economia do mar. Anuncia 244 milhões de euros para a área da cultura. Anuncia 465 milhões de euros em respostas sociais para infância, idosos e deficientes. Anuncia 900 milhões de euros para o «sucesso escolar». Numa cadência incessante, incansável. É raro ver um político assim: está em permanente campanha eleitoral.

Ainda a procissão vai no adro. Nos meses que vão seguir-se, teremos isto a um ritmo quase diário: o primeiro-ministro a pronunciar a palava milhões. Com o dinheiro dos outros. Sem o menor assomo de pudor num pais que em 2020 registou uma queda do PIB de 7,6% – superior à média de 6,2% do conjunto da União Europeia – e já neste primeiro trimeste viu o PIB português contrair 5,4%, o que constitui o pior desempenho de uma economia no espaço comunitário.

 

Nada que desencorajasse o chefe do Executivo de ter aproveitado ontem o debate do final do ano parlamentar para sugerir que «só ele saberá salvar o País da pandemia e da crise económica», na feliz definição – não isenta de ironia – da jornalista Rita Dinis no semanário Expresso.

Na divisão de tarefas no Governo, cabe-lhe em exclusivo o papel do bom da fita. Os erros, os disparates e as medidas inaceitáveis ficarão sempre a cargo de outros. E até o outrora «excelente ministro» Cabrita ficou mais isolado que nunca: deixou de poder contar com o aconchego do antigo colega de faculdade. 

É um estilo de governar. O estilo Costa.

28 comentários em “O estilo Costa”

  1. É há muito tempo uma evidência que Costa, quando a coisa aperta, não tem qualquer pudor em usar um ministro como corta-fogo. Dir-se-ia até que essa é, para ele (e muitos outros, como temos visto), uma das funções dos subordinados. O que nunca percebi é como aquela gente se presta tão caninamente a tal papel. Esperam um observatório ou um regulador como compensação futura? Têm tão fraca opinião de si próprios que não acreditam conseguir uma vida burguesa fora do jogo da manha política? Terá Costa dossiês comprometedores sobre todos os seus serventes?

    1. O que nunca percebi é como aquela gente se presta tão caninamente a tal papel. Esperam um observatório ou um regulador como compensação futura?

      Há quem diga que Mariana Vieira da Silva será a herdeira de Costa, isto é, que ela será a futura (candidata a) primeira-ministra. Ou seja, será bem mais do que uma reguladora.

    1. Um verdadeiro “vendedor de banha de cobra” dá-se mal com aquela gente e vende pouca banha. Ontem bem tentou vender um para-raios com rodado mas caiu no ridículo e nem esbracejou.

  2. Como se o coronavírus só atacasse quando estamos a descansar e nunca quando estamos a trabalhar.

    Mas isso sempre foi assim! Mandou-se encerrar todas as escolas – causando um prejuízo bárbaro às crianças e jovens – mas manteve-se em funcionamento as fábricas, os estaleiros de construção civil, etc. Como se o vírus não atacasse quem está a trabalhar aí.
    Em vez de se ter mandado encerrar as fábricas e os estaleiros mas continuar a escola, dado que as crianças são imunes ao vírus mas os adultos não são, fez-se precisamente o contrário.

    1. O maior crime que estão a fazer nesta pandemia é precisamente em relação às crianças.
      Foi um crime terem encerrado as escolas, porque os miúdos precisam desenvolver competências sociais.
      É um crime obrigarem as crianças a respirar por um pano cheio de bactérias, fungos e vírus, daí já terem começado a aparecer miúdos com o vírus sincicial.
      E vai ser um crime administrar estas vacinas a crianças, porque este vírus é inofensivo para elas e o seu sistema imunitário ainda está em desenvolvimento.
      Até que ponto é que nós, adultos, vamos apoiar esta visão distorcida do combate a uma crise pandémica em que se sacrifica a geração mais nova para proteger a geração mais velha?

      1. O maior crime que estão a fazer nesta pandemia é precisamente em relação às crianças.

        E jovens, para quem os encontros sociais são uma componente essencial do desenvolvimento.

        A reação dos decisores políticos à pandemia demonstrou o brutal egoísmo dos adultos e velhos da sociedade, que só pensaram em safar-se a si mesmos e não se importaram pevas com o prejuízo que estavam (e estão) a causar aos jovens e às crianças. Como se estes não fossem, não devessem ser, muito mais importantes do que os velhos, uma vez que eles são o futuro enquanto que os velhos não passam do passado.

        1. … e ambos os dois juntos e ao mesmo tempo são o presente.
          E tu és somente um tótó que não sabes onde estás, o que és nem para onde vais ir.
          Vai-te catar treteiro.

  3. Este texto representa um claro ataque a DGS e a classe médica especialista que aconselha o governo.
    1- Impedir ajuntamentos aos fins de semana.
    2-Impedir as festas ilegais
    3- Medida de controlo
    4- injecção de dinheiro na economia
    5- Estamos em Pandemia
    6- Ser Positivo
    7- O estilo Descentralizado

    Para tudo ser perfeito:
    Costa apenas precisa de dar uns belos milhões aos clubes de futebol como prenda para os catedráticos da bola e assim calar de uma vez por todas a maledicência.

    Raquel Castro

  4. Costa é um excelente Zandinga e futurólogo. É também um excelentíssimo estratego ao antecipar a vitória sobre o inimigo covid e a anunciar a libertação total do povo oprimido no final do Verão.
    Porém é incapaz de ludibriar o covid no presente e tudo faz para que o gajo tenha sucesso e mantenha a sua estratégia para contrariar o Costa. Aproveita-se ainda do covid para tentar passar a ideia que a burrice é do covid que até ajuda o governo a tomar medidas burras. Tenho a certeza que este bicho apareceu para lixar o Costa.
    Votarei no covid nas eleições autárquicas e legislativas.

  5. Costa não anunciou “a libertação total da sociedade”. (Isso são coisas de Boris Johnson.) Costa é comedido, conservador. Ele apenas falou “[d]esse momento importantíssimo para a confiança e libertação total da sociedade que é a imunidade de grupo”. Mas não disse se, quando esse momento fôr atingido, a sociedade será mesmo totalmente libertada. Não se comprometeu com tal coisa.

  6. a pobre Mariana Vieira da Silva, que já aparece nas conferências de imprensa com cara de quem suplica para a tirarem desse filme

    Não diga isso, Pedro. Há colegas seus (isto é, outros comentadores políticos) que dizem que ela está na calha para ser futura primeira-ministra, quando e se António Costa viajar para Bruxelas. (Ou, quiçá, para Nova Deli, acrescento eu.) Ela não quer que a tirem deste filme. Ela quer é ser a estrela principal do filme.

    1. Não creio. Nem me parece sequer que tenha perfil para isso.
      No processo de sucessão de Costa há três figuras já posicionadas: Pedro Nuno Santos (que parte com vantagem), Ana Catarina Mendes e Fernando Medina.

      1. No processo de sucessão de Costa há três figuras já posicionadas: Pedro Nuno Santos (que parte com vantagem), Ana Catarina Mendes e Fernando Medina.

        Pedro Nuno Santos não parte com vantagem. É muito jovem, muito trapalhão e inábil a exprimir-se, e muito esquerdista. When push comes to shove será afastado. (Digo isto até com pena, porque um familiar meu é assessor dele.)

        Fernando Medina também não tem perfil, na minha modesta opinião. É demasiadamente suave.

        Ana Catarina, sim. Essa é, em minha opinião, a sucessora. Aliás, tem-se verificado repetidamente que, em política, as mulheres são mais hábeis e têm maior sucesso que os homens. Verificar-se-á em Portugal, como se verificou já noutros países.

  7. Naquela comédia de revista que é o debate parlamentar do Estado da Nação, é triste ver que o André V é a regra e nao a excepção. Populismo, é o termo?
    Riem-se, mandam umas larachas, abafam os adversários com apupos, desviam assunto ou mentem, tudo fechado com um forte aplauso ao grande líder, só falta mesmo o penteado de estilo único.

    1. Laracha, infelizmente sem graça nenhuma, foi o PM ter anunciado ontem aos portugueses, em pleno debate do Estado da Nação, um plano de vacinação anti-covid para crianças e jovens dos 12 aos 17 anos, contra o parecer da comissão técnica e contra a opinião abalizada de muitos especialistas, incluindo vários ex-bastonários dos médicos e dos farmacêuticos e diversos pediatras e clínicos de outras especialidades. Sabendo-se que nenhuma destas vacinas foi devidamente testada junto de pessoas desta faixa etária.
      Truque de ilusionista para desviar as atenções dos problemas mais graves do País. Anda a brincar com coisas demasiado sérias.

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