Já abriu a época da caça ao voto


Pedro Correia,

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É oficial: abriu a época da caça ao voto. O que não admira: faltam apenas três meses para as eleições autárquicas. A partir de agora vai valer tudo.

Espelho do mundo, espelho da vida, espelho do melhor e do pior da política, a televisão antecipa desde já o que nos espera nestas 12 cruciais semanas que antecedem o escrutínio. Ainda mais cruciais por ocorrerem num momento em que, segundo uma sondagem há dias revelada, o partido do Governo sofre o mais sério abalo nas pesquisas de opinião desde Março de 2020.

Há que contrariar esta tendência, terá pensado o estado-maior socialista. E se assim pensou melhor o fez. Cada pretexto pode gerar notícia. E cada notícia funciona como chamariz ao exercício do voto nos mais diversos concelhos. Não esqueçamos que estas são umas eleições muito especiais: estão em jogo 308 presidências de câmaras municipais e 3091 presidências de juntas de freguesia no continente e nas regiões autónomas. Ninguém tenha ilusões: a soma de todas estas parcelas condicionará o próximo ciclo político a nível nacional.

Neste contexto, está especialmente em foco o ministro da Educação. É pelo menos a segunda vez, em poucos dias, que surge acompanhado de autarcas socialistas para lhes dar alento.

A 7 de Junho, deslocou-se a Vila Nova de Gaia – fazendo-se filmar ao lado do presidente da Câmara local, o socialista Eduardo Vítor Rodrigues, recandidato a um terceiro e último mandato. Visitou ali três escolas que “fazem parte dos 500 estabelecimentos de ensino que estão a remover o amianto” a nível nacional. “Vamos fazer uma reabilitação de eficiência energética”, declarou o autarca, aproveitando aquele tempo de antena nos telediários à boleia de Tiago Brandão Rodrigues. O ministro esteve à altura das circunstâncias: Gaia, sublinhou, é um município “que mostra que é possível fazer a diferença”.

A 19 de Junho, Brandão Rodrigues voltou ao Norte, desta vez para promover o concelho de Paredes de Coura. Elogiando a Escola Profissional do Alto Minho Interior, ali inaugurada em 1993. “O ensino profissional tem sido uma aposta muito forte do nosso país e esta escola tem sido um exemplo”, elogiou o membro do Governo – ao lado do presidente da Câmara local, o socialista Vitor Paulo Pereira, recandidato a um terceiro e último mandato.

Não havia pressa. Portanto, sobrou tempo para o autarca sublinhar que esta escola “está ligada ao mundo do trabalho”, enquanto o ministro mostrava satisfação por Paredes de Coura acolher em breve a fábrica de vacinas da Zendal. É investimento privado, de um grupo farmacêutico espanhol, mas o espectador menos sagaz pode supor que é obra do Governo. Com as televisões a registar. “Vai criar mais de 30 postos de trabalho”, garantia uma delas. Focando o ministro e o presidente da câmara, ambos com ar de orgulho. Dava para perceber, mesmo com máscaras.

Quem não fizesse a menor ideia de que vivemos já em período pré-eleitoral, ficava esclarecido. Em Portugal há coisas que nunca mudam.

 

Texto publicado no semanário Novo

48 comentários em “Já abriu a época da caça ao voto”

  1. Já dizia o Senhor Ford, pai da marca. Se tivesse que começar tudo de novo com 5 dólares seriam investidos em publicidade. Por cá isso é feito com empréstimos.

  2. Em vez de rumar ao Alto Minho, o ministro da Educação faria bem em se deslocar ao Algarve e pôr lá na ordem a diretora-geral de Saúde da região, instruindo-a de que tem o direito de interferir na Saúde mas não na Educação, e que quem manda no país é o governo e não ela. A diretora-geral da Saúde não deve ter o direito de prejudicar enormemente as crianças algarvias, impedindo-as de ter aulas e dessa forma hipotecando o seu futuro. Ela que combata a epidemia encerrando hotéis e fábricas, se quiser; escolas, não!

    1. Como se hoje se apreendesse alguma coisa nas escolas!
      Fechem as escolas, é tempo do verão do calor, deixem os miúdos brincar.
      Hey !Teachers! leave them kids alone!

      Carlos Perdigão

    2. “não deve ter o direito de prejudicar enormemente as crianças algarvias,” E deverá ter o direito de as fazer correr o risco de contraírem covid e ficarem com sequelas (mal conhecidas) para o resto da vida? Grande dilema. Tenho inveja de não ter certezas como você. Tenho dúvidas.

      1. As crianças têm um risco negligível (muito baixo) de contraírem covid-19. Crianças da escola primária (que são aquelas que foram fechadas no Algarve) têm um risco rigorosamente 0 de ficarem doentes.
        De facto, as crianças atuam como aspiradores de sars-cov-2: limpam o ar de vírus. Qualquer vírus que apanham, o seu sistema imunitário elimina-o e ele deixa de fazer mal a quem quer que seja.

          1. Acabo de ouvir um especialista, com ou sem aspas, dizer que entrámos na “quarta vaga”.
            Uma hora antes tinha ouvido outro especialista, com ou sem aspas, dizer que estávamos na “terceira vaga”.

  3. “Já abriu a época da caça ao voto” Ai se não abrisse ….. Ainda me lembro das épocas em que nunca abria.

      1. Pedro Correia você até parece o da cassete.
        Então a Rússia e a Sérvia? Com a China até nem vale a pena comparar, e com a Bielorrússia não sei não, o Jardim não deixava ninguém meter o nariz. Ah! e tal o desenvolvimento da ilha, ’tá bem e então o desenvolvimento da China? Até comprou por cá EDPs pra ajudar no liberalismo económico.
        Veja o desenvolvimento dos Emirados, é pá aquilo é eleições todos os dias que até chateia.

        1. Na China não há caça ao voto: só há um partido. O Partido Comunista, que manda desde 1949. Há 72 anos.
          Tem um símbolo igualzinho ao do PCP.
          Existe a caça ao opositor, a quem eles lá chamam “dissidente”. Basta falar alto contra o Governo ou escrever seja o que for de teor crítico nas redes sociais que restam para ser “dissidente”.

  4. Aqui as Parvónias (eixo Coimbra-FF) não aparecem na televisão, mas em compensação a maquinaria pesada virou meia cidade do avesso. Requalificações. E alterações ao tráfego, porque se sabe que aqui na zona o que mais aflige a população é o trânsito.

          1. Há obras por todo o lado, logicamente todos querem mostrar trabalho feito. As obras são sempre feitas próximo de eleições, doutra forma não dava nas vistas. E até parece que tem a ver com autorizações orçamentais ou a “satisfação orçamentais”.
            Aqui para os meus lados estão a substituir as lancis dos passeios por novos sem nenhuma necessidade, pois sabe-se lá quem vem a seguir e lá se vai a “satisfação orçamental ao fornecedor”.
            Quando começaram as obras das ciclovias em Lisboa, filho da mãe do medina prali e pracolá, depois de tudo feito, afinal ele até copiou o que existe por todas as grandes cidades europeias e americanas. Mas não fora os russos levava com as ciclovias em cima por entupir o trânsito.

          2. A questão é que vários deles só conseguem levar lá as televisões quando acertam agulhas com um ministro.
            O da Educação é o que se tem prestado mais a isso. Sempre com camaradas do PS.
            Ficarei atento.

  5. Quanto posso saber, o impacto local da fábrica de vacinas da Zendal em Paredes de Coura é nulo; por lá acredita-se que vai para lá porque ninguém mais a quis… O Presidente é o actual representante de uma linha de sucessão PS que vai na terceira geração e o primeiro presidente era PSD e depois virou PS… Portanto, uma geração bastarda. O Ministro Brandão é filho do mesmo sistema, tendo travado conhecimento com António Costa no Festival Rock… Portanto, estão todos muito bem uns para os outros, mas lá como cá, as alternativas não são muitas… Está tudo minado pela “gente que trabalha para a Câmara”… e quase não há família que não tenha algum membro por lá…

    1. o impacto local da fábrica de vacinas da Zendal em Paredes de Coura é nulo

      Como assim? O impacto de uma fábrica que emprega 30 pessoas não é nulo. Essas 30 pessoas deixam de ficar no desemprego. E a fábrica cria lucros que são taxados e ajudam a melhorar as infraestruturas locais.

      1. Eu escrevi o impacto “local”; pelo que me dizem por lá, os 30 empregos (e que é isso?) serão para pessoas de fora… Se quisermos, conforme o interesse político que nos move, até poderemos dizer que o impacto é enorme, mesmo que os resultados vão para Espanha, ali perto, ou para outro lado qualquer… Somos pobres mas não somos parvos. Acontecerá o mesmo que aconteceu com outras empresas que, ao terminarem os benefícios, dados pelos Municípios, se foram embora…

        1. É caso para dizer, “dá Deus nozes a quem não tem dentes”.
          Quer dizer: a população local está no pleno emprego e portanto acha que a instalação lá de uma fábrica não serve para nada.
          Eu na minha terra instalaram-se dezenas de fábricas e os locais nunca se queixaram, vieram migrantes de outras partes do país (do interior) para se fixarem lá e trabalharem nas fábricas, as pessoas locais que trabalhavam na agricultura largaram as enxadas e foram trabalhar nas fábricas onde se ganha muito melhor, e a terra prosperou e hoje é muitíssimo mais rica e feliz do que antes de haver fábricas. Não tem comparação!
          Essa agora de que uma fábrica numa terra não serve para nada e só enriquece os outros, é mesmo de totós, desculpe que lhe diga…

          1. Vá chamar tótó à sua tia!… Quem lhe disse que lá em Paredes de Coura não havia fábricas? Que as pessoas não largaram a agricultura para melhorar o seu nível de vida em fábricas que lá foram criadas? Que a vinda de pessoas de fora não é bem-vinda? E muito mais poderia dizer. E, sim, a população local está no pleno emprego… numa ou noutra coisa, toda a gente trabalha e até se dão ao luxo de deixar o emprego num sítio e ir para outro que paga melhor… Os parasitas vivem noutras paragens. A questão é apresentar-se como um grande acontecimento a abertura de uma fábrica com 30 empregos… Só os totós é que ainda vão nessa, deixe que lhe diga.

          2. Se em Paredes de Coura há fábricas e pleno emprego, ótimo. Mas nem por isso mais uma fábrica deixa de ser benvinda – trará migrantes (pessoas vindas de outras terras) para Paredes de Coura, dinamizando ainda mais o comércio e a sociedade locais. E dará ainda mais receitas à Câmara, a qual poderá promover ainda mais melhoramentos na terra.
            Na minha terra também há bué de fábricas, algumas com centenas de operários, e mesmo assim a Câmara abriu recentemente um parque industrial todo prafrentex e fica toda satisfeita (e a população também) quando mais uma empresa se isnstala lá.
            Uma fábrica só com 30 empregos é certamente pouco significativa. Mas aparece nos telejornais por ser fábrica de vacinas, que é aquilo que está na moda. Poderá não ser um grande acontecimento, mas é o tipo de acontecimento que está a dar.

      1. O ministro é tão courense que em miúdo, filho da professora lá da terra, mudou de sítio porque achava que a escola não tinha nível para ele… Diziam que era pessoa importante numa universidade lá fora, mas veio para ministro é o que se sabe… Em Coura só se for profeta da desgraça: perguntem-lhe se hoje frequentaria as Escolas de Coura!…

          1. Sim. A Casa Grande, em Romarigães, infelizmente em ruinas (tal com a Casa de Outeiro em Agualonga e tantas outras por ali… ) pelo menos quando a visitei há tempos. Tal como o Presidente Bernardino Machado, (creio que foi sogro de Aquilino), na Casa de Mantelães, em Ferreira, ali pertinho da já famosa Praia Fluvial do Tabuão, Paredes de Coura teve e tem gente que passa, de longe, o “nível” deste ministro. Outra coisa é a “visibilidade” que certa política oferece, mas que também passará sem deixar rasto…

  6. Parece-me lógico que Brandão Rodrigues tenha sido encarregado pelo PS de apoiar os candidatos autárquicos já que quem se ocupa do programa de neo-marxismo na educação é o secretário de Estado João Costa(*).
    (*) Lembre-se a polémica sobre Educação e Civismo e veja-se a entrevista de hoje de Jorge Buescu a Isabel Tavares.

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