O centenário do PCP


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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num “avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho“. E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: “rosa por fora mas vermelho por dentro“. Morreu horas depois.

 

Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna – que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente – chamou-me de parte para me dizer “Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem“. E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: “Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial“, na qual a URSS foi determinante e Estaline “pai dos povos” foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores – dos Galambas do Jugular aos Fernandes da “Super-Marta” de agora mesmo – bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.

 

Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades – e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.

 

Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro “ortodoxo” como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros – para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão – agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas “Obras Escolhidas” da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.

 

Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, “comprados”. E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero “eurocomunismo” que fosse em qualquer “camarada ou amigo” era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na “imprensa burguesa” – mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso – pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da “aretê”) devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal “sociedade de lazer” – concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica “filosófica” do teórico – viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) “Vida Soviética” – assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais “do partido”, Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois estou longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso refutando as mentiras da “Voice of America” e quejandos.

 

Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do “Diário” da “verdade a que temos direito”, a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos “erros e desvios”. E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o “meu Marx”, resmungava-lhe que convocar “erros e desvios” não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às “massas” para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 

 

Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu “mexer na ferida”. Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do “Partido” aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito “é o que nos resta”, mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais – avatares modernos do velho “modo de produção asiático”, atirava-lhe eu há 30 e tal anos – era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um “ortodoxo”, pois nunca o deixou de ser.

 

O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é “democracia” – em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista – ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente “superestrutura” política. 

 

Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos “amigos” e nada “camaradas”. Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos…, basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos “direitos” e “liberdades” não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 

 

A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de “esquerda” (e até “centristas”) surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de “referência”? Nos últimos anos o jornal “Público” desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de “lusófonos” bem integrados). O “Público” de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea “identidade” nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram – ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós – moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas…

 

E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo “Público” faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os – aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, “em busca de uma sociedade que ainda não existiu“. Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 

 

Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do “Partido”. Teríamos bebido rum – cubano, claro -, ele ter-me-ia dito “calma, bebe mais devagar”. Provavelmente teria resmungado mais uma vez “está na altura de deixares de fumar” – ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o “Público” do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: “esses tipos são uns pantomineiros”. E eu servir-me-ia de mais um rum.

56 comentários em “O centenário do PCP”

  1. É um Texto, tão bom, este de JPT, que nem sabemos dizer por palavras.

    Será que nos vai acontecer o mesmo?
    Será esse o destino de todas as nossas crenças, motivos e ideologias, que dão sentido à vida de cada um de nós?
    Provavelmente, sim.
    Muitos de nós acabarão também assim, no último dia.

    Vamos entreter-nos com o amor, a amizade, os lazeres culturais, o prazer, os afazeres domésticos e profissionais, ou com as galhofas e piadas … para esquecermos esse nosso fatal destino?

    Para que a Vida (Natureza) precisa de nós, se já tem tantos micróbios e bichos?

    Aqui no meu laboratório, já conseguimos criar um holograma (possível de imprimir e mecanizar num suporte físico, num robot) que falará e dirá os nossos textos e escritos depois da morte do nosso actual corpo anatómico.

    Mas essa nossa existência «post mortem», essa realidade palpável que os outros verão e experienciarão sobre nós, depois de morrermos, seremos nós?
    Estaremos ligados de algum modo (pelas propriedades físicas da intrincação e superposição) a esse avatar?

    Ou teremos definitivamente desaparecido?

  2. Saudades do meu pai (com a diferença que nunca foi ortodoxo em nada, nem sócio de coisa alguma), e dos amigos dele (esses sim, sócios vitalícios, e, por sinal, quase todos vivos). E do meu avô. Tudo gente muito boa, tudo gente muito séria – sem qualquer ironia – mas que, se o Chico da CUF viu o filme, também podia (e devia) ter visto. Grandes discussões, teve o meu pai com o filho “facho” (com os amigos e com o meu avô não me atrevia). Pois é, já não bastavam a sigla e o clube, ainda temos mais esta.

    1. ó diabo (camarada) maiúsculo, já começo a desconfiar – com tanta coincidência – que se trata de uma invenção minha, por mim desconhecida, talvez seja eu portador de personalidade múltipla (antes dita esquizofrenia), e ande para aqui a comentar-me julgando que é outro

  3. O problema do PCP no pós 25 de Abril residiu no facto de pretender continuar a resistir onde já não havia resistência. Consequentemente deixou-se arrastar por massas ignorantes que pensavam que resistiam destruindo símbolos e estruturas que até era para manter-se. Cunhal, atento e inteligente que era, podendo resistir, soube por freio a esta euforia quando verificou que a situação podia descambar. De certa forma deu-se conta que o populismo existente não tinha adormecido outros sectores da população que se mostraram determinados no momento conveniente.
    Daí para cá o PCP mostrou-se competente a gerir a estruturas sociais críticas para manter sua influência sem que o pluralismo sindical os abalasse.
    E o seu discurso – “somos poucos mas bons” – assemelha-se ao discurso da Igreja Católica portuguesa no período para procurar cativar os poucos que sobraram para confortar-se de sua inépcia. O caso da Igreja em África revelou maiores virtudes e adaptabilidade, lembrando agora, em homenagem póstuma, também o bispo Óscar Braga, angolano de raça branca.
    Nota: O Brasil no período da ditadura militar e posterior contou com uma facção religiosa bastante interventiva, lembrando agora os bispos Hélder Câmara (onde Roger Garaudy bebeu vários ensinamentos) e Paulo Evaristo Arns.
    Porém quer o PC quer a Igreja Católica portuguesa são peças importantes no quadro social. Para tal é-lhes necessária a conversão. No caso da Igreja Católica portuguesa, a conversão a Cristo de muitos dos funcionários do culto, tornando-se servidores e não guardas do templo e amantes da lei, esquecendo e esquecendo-se (n)as homilias em que se escutam a eles mesmo, e focando-se na oferta de Cristo vivo em si mesmos, movimentando-se como Jesus aconselhou para que, depois de convertidos, confirmem seus irmãos;
    e o PCP deixando também a idolatria para se focar nos desafios prementes da sociedade, que é uma sociedade de pobres em intelecto e em pão.

    Porém abordar o tema quinhentista sem compreender o efeito das especiarias poderá deixar-nos vazios. As especiarias tinham a sua importância para o comércio não pelo factor exótico, mas pelo facto de no período os alimentos não poderem ser refrigerados. Como o não podiam ser e sabiam mal as especiarias estavam aí para disfarçar o mau gosto.
    Vem este tema à colação para revelar que os movimentos neofascistas (PS/BE/PAN/Livre) produzem alimento decomposto e usam a especiaria para dar-lhes um aspecto e sabor mais comestível. E há quem coma.
    Uns aderem por falta de alimento intelectual, outros pela pobreza material, na expectativa do pão que não virá deste forma, e outros mais para garantir o que possuem e não repartem.

    Finalizando, importa referir que o capitalismo, com a queda do muro, provou que essa sua hegemonia serviu bem o interesse de uns, criando um oceano de miséria, e corrompeu uns poucos, incluindo os ditos de esquerda, para continuarem a dominar. Os tais ditos de esquerda fazem discursos de barriga cheia.
    O PCP mantém um bom propósito ainda que cambaleando. Este bom propósito no mínimo poderia servir de exemplo ao PSD, CDS, IL e Chega.

    1. «De Vento» (9/3, 11:46) parece o André Ventura.
      Não se distinguem um do outro.
      Fala, como nos quisesse convencer que está num pedestal (púlpito) de onde consegue decidir sobre a certeza e a verdade.
      O Ventura faz o mesmo.
      É também desse sítio, divino e inacessível a quem não se converte a essa Fé, que vislumbra o futuro e a solução. O Ventura diz, e voltou a dizer no discurso na noite eleitoral, que está imbuído de uma missão que Deus lhe deu.
      Apenas o «De Vento» e o “Ventura» sabem… o que é essa “conversão”.
      Estão totalmente convictos de que sabem. Têm a certeza. Sabem exactamente do que se trata após consumada essa tal “conversão”. E se não souberem, cá estarão para interpretar as dúvidas, e doutrinar os outros.
      «De Vento» até clama por passarmos a ser todos “servidores”, à semelhança do que é, para com a sua Fé.
      Portanto um futuro, após essa “conversão”, de servis idólatras da Fé que professa.
      Chega a fazer uma proposta indecorosa aos seres humanos que optam pelo PCP. Que substituam a idolatria deles, pela de «De Vento» e André Ventura.
      Não que abandonem esse fechamento cego a uma idolatria, mas que passem para o seu clube. Uma espécie de contratação futebolística, a troco de algum indulto para o Paraíso.
      Uma verdadeira afronta, aquilo que «De Vento» faz aos outros seres humanos, ao tomá-los por mercadoria ignara e desprovida de consciência.
      Não o faz por «mal», fá-lo por pastoral e messianismo.
      Depois, não tem pejo em chamar «ao lado que não prefere» (a “esquerda”) de “neo-fascistas”. E ao «lado que prefere» (a “direita”) de «candidatos possíveis a essa conversão» que apregoa.
      Quem não é convertível, vai para o fogo e para a tortura inquisicional? É isso o mal do mundo, e de haver pobreza, pedofilia e ganância?
      Ora, isso não é uma infâmia contra os seres-humanos? Não é um facciosismo discriminatório e xenófobo em relação à liberdade de escolha dos outros?
      Não é exactamente isso de que acusa a “esquerda” de fazer?
      Isso não é prolongar a causa de não haver uma melhor solução para todos nós?
      E, no final, ainda por cima, cai no erro do senso-comum daquele rebanho imenso que critica o Capitalismo. Como se acumular riqueza (energia, recursos, tecnologia, etc.) tivesse alguma coisa a ver com o modo como é aplicada e distribuída.
      Não terá de explicar melhor, o que é essa sua solução miraculosa que designa por “conversão”?

      1. Meu caro, eu não penso que estou num pedestal. Eu estou mesmo. Mas a sua coragem de terráqueo em querer vir ao debate com um ser celestial como eu mereceu este post-it.

        1. Fez-me lembrar aqueles adeptos do famoso “Eram os deuses astronautas?” (1968, Erich von Däniken).
          «SAP2ii» está noutro lado.
          O celestial, o vento, a terra é tudo feito de “pó” (fermiões, neutrinos, quarks, e outros seres feitos de terra).
          Não estamos aí, nem viemos disso.
          O texto de JPT é revolucionário nesse sentido.
          Razão pela qual «De Vento», de imediato, o condenou a uma “conversão” e ao “servilismo” a uma ideologia.

          1. Meu caro, você pode ser feito desse tal pó. Eu não. O pó não pensa, não tem intelecto, consciência e inteligência.
            E o intelecto não revela os diferentes níveis de inteligência. Descartes estava errado porque não falou comigo.

          2. Caro «Vento»,
            1. Então você diz-se vento, portanto pó… e depois recua, e já diz que não?
            2. Afirma que «vento» é feito de “intelecto, consciência e inteligência”. Mas isso é pó. A ciência já consegue colocar isso num software, e introduzi-lo num robot.
            3. Logo, demonstra-se empiricamente que afinal eram pó (partículas sub-atómicas e moléculas).
            4. Portanto, está a concordar com Descartes.
            5. Sabemos que quiseram queimar Descartes, como fizeram a Giordano Bruno. Mas já não foram a tempo. Porque a Idade Moderna já tinha substituído o poder do Antigo Regime.
            6. Os que fizeram essa crítica a Descartes, e são um rebanho grande, hoje penitenciam-se. Na actual investigação científica em Inteligência Artificial, robótica, redes neurais de computação, machine-learning, na biologia molecular da cognição, e na física percebeu-se que a crítica a Descartes foi um erro.
            7. Isto dito, pelos humanos que usam o método científico, que escrevem nas revistas científicas mais prestigiadas no mundo, e são os mais premiados. Não pelos que inventam fantasias, convocam espíritos do Além, fazem ficção, ou apelam aos deuses da fé própria.
            Hoje esse conhecimento está facilmente acedível na Internet. Basta ligar o computador às 10 revistas científicas mais prestigiadas no mundo, e às 5 universidades que estão no top do ranking mundial (aquele que é mais credível e consensual entre a comunidade científica).
            8. Eles é que investigam no terreno, no sítio onde se passam os fenómenos objectivos e empíricos.

            Caro «Vento», … essa lógica não está um pouco enferrujada?

          3. Meu caro, não compreende que Vento em grego é Pneuma. Conhece bem o significado desta palavra?
            Claro, Descartes estava errado por não ter falado comigo.
            O Deus da fé própria habita no intimo do mais intimo. Portanto, conhece-te a ti mesmo e encontra-l´O.

          4. 1. Por saber,… é que afirmei que «Vento» é feito de pó.
            2. Uma coisa que respira (pneuma – πνεῦμα) é obrigatoriamente feita de pó (coisas, partículas, corpo).
            3. Logo, o «Vento» ao escolher isso para definir “alma” e “espírito”, ao escolher a “respiração” (pneuma) como a substância do “sopro da vida”, ao escolher esse efeito corpóreo como aquilo que é o mais íntimo… «Vento» está a dar-me razão relativamente a «Vento» ser pó.
            4. O seu erro é exatamente esse. Uma concepção errada do que é Deus, e do local onde poderemos encontrar o Ser-humano.
            5. Quem erra não é Descartes, é «Vento».
            6. Pois Descartes definiu esse “local mais íntimo onde está o Ser” como não sendo pó, respiração ou corporeidade. Definiu-o como sendo a “dúvida”.
            7. Vulgarmente as pessoas usam a tradução em latim da obra de Descartes (1656). O que as leva apenas a “cogito ergo sum” (penso, logo existo). Mas essa tradução não traduz o texto original publicado em Leiden (1637), que diz “Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j’existe; je pense, donc je suis” (usando “donc” no sentido aristotélico).
            8. Ou seja, a prova da existência do Ser não está no “pensar” (como o senso comum diz), mas numa coisa anterior (“duvidar”).
            9. Ora, a Igreja persegui-o (tal como «Vento», e todos os que dizem que ele errou) porque não podia aceitar que se duvidasse de Deus.
            10. Atacaram a Ciência baseada no “Método de Descartes” (cujo título original da obra é: “Discurso sobre o método para bem conduzir a razão, e procurar a verdade pela ciência”, Leiden, 1637) exactamente por isso. Porque é baseada na “Dúvida”.
            11. Porque isso é inaceitável para a religião católica (duvidar da existência de Deus). Já que baseia a sua Fé na certeza inabalável da existência de Deus.
            12. Mas há mais.
            13. Descartes diz exactamente de onde lhe surgiu a ideia da “dúvida”. Di-lo de forma clara e inequívoca (passo a citar as suas próprias palavras). “Foi em três sonhos, na noite de 10 para 11 de novembro de 1619”.
            14. Ou seja, a “dúvida” nasceu de um “sonho”. Foi aí, que nasceu a base para o método científico; e também para decidir o local onde estava a sua existência como Ser-humano.
            15. Ora isto, para a Igreja, era completamente inaceitável. Pois punha em causa a sua ideologia, baseada na certeza absoluta da Fé e de Deus.
            (cont.)

          5. (cont.)
            16. As QUATRO REGRAS desse “Método de Descartes”, nascidas da dúvida e do sonho, marcaram o avanço científico desde a Idade Moderna:
            REGRA DA EVIDÊNCIA: “recusar todos os preconceitos, não tomando como verdadeira nenhuma coisa sem que se conheça evidentemente como tal, e se apresente ao meu espírito tão clara e distintamente que dela não possa duvidar»;
            REGRA DA ANÁLISE: “dividir cada um dos problemas que se me apresentem no maior número de parcelas possível”;
            REGRA DA SÍNTESE: “conduzir os raciocínios ordenadamente, partindo dos mais simples para os mais complexos”;
            REGRA DA ENUMERAÇÃO: “proceder a enumerações tão completas e a revisões tão gerais que possa estar certo de nada haver omitido”.
            17. É por causa destas Regras que somos capazes, hoje, de programar um robot com elas. E tirarmos do Ser que somos, aquilo que »Vento» afirmou ser o que nos definia (“pensamento, intelecto e inteligência”).
            É por essa razão que fui capaz de construir o meu «robot Žylĕc» (uma máquina universal do Conhecimento), e pôr-me fora dele.
            18. Em suma, é toda esta diferença, que nos separa nesta bela discussão.
            18.1. O “Vento” precisa do “pó” (coisa, partícula, corpo) para ver onde está o Ser, e de onde ele veio.
            18.2. «SAP2ii» vê o Ser como algo muito para além e aquém da materialidade da “Pneuma” (respiração, sôpro, palavra). E muito para lá, da materialidade do “verbo” (“no inicio era o verbo”, dizem, como se não fosse obrigatório existir algo anterior à formalização/codificação). Razão pela qual dei ao meu método o nome de “Impronuncialismo”.
            19. Post Scriptum:
            É por isso que Marcelo Rebelo de Sousa — confesso católico (como André Ventura) — escolheu Damásio para seu conselheiro. Porque “o erro de Damásio” serve-lhe às mil maravilhas para esconder do Povo iletrado a Ciência, e o lugar do Ser-humano na Existência (vida, natureza). Razão pela qual também António Damásio é pouco considerado no meio académico dos que ganham prémios Nobel, trabalham nos laboratórios de pesquisa científica mais prestigiados, e escrevem actualmente nas revistas de maior valia.
            20. Em suma, cometo aqui, nesta resposta a «Vento»… Um verdadeiro “Delito de Opinião”.

          6. 1. É por esta razão que chamei ao texto de JPT “revolucionário”. E gostei tanto dele.
            2. Porque há nele esse fundo de incerteza e dúvida. O belo da relação de JPT com o Pai, e as saudades que diz ter dela, e de o pai lhe chamar a brincar “facho”, vem dessa abertura à permanente dúvida e questionamento.
            3. E não ao fechamento numa ideologia ou crença.
            4. Razão pela qual, na resposta ao meu comentário, JPT me avisa logo para não ficar tão convencido daquilo que digo.
            5. Mas é-me visceral, é um disparo eléctrico-químico que não consigo controlar. Só posso ter consciência disso, e não acreditar muito no que digo.

          7. Meu caro, de forma breve comentarei todo o seu “testamento”. Na realidade Pneuma significa Sopo de Vida. Portanto, você só é capaz de reconhecer toda as outras formas naturais através deste Sopro de Vida. O meu caro foi buscar outras conotações que são meramente intelectuais mas pouco consistentes e inteligentes.

            Por outro lado o ocidente desenvolveu o intelecto e até é capaz de dizer a distância entre terra e marte. Mas nada é capaz de dizer sobre si mesmo.
            Como o homem do intelecto só o usa, esquecendo os níveis da inteligência, para viver questões ditas práticas e maioritariamente especulativas, fode-se completamente e semeia a sua própria ruina e infelicidade.

          8. Concordo. Em que a “ruína e a infelicidade” dependerão do que formos capazes de decidir sobre toda e qualquer materialidade, riqueza ou conhecimento.

          9. Caro «Vento»,

            1. Mas voltando ao “sopro de vida”,… quem sopra?
            Está a afirmar a existência de uma coisa fora da Natureza (fora de “todas as outras coisas naturais”).
            Logo, tem de haver uma coisa a montante, que sopre.
            O que é, ou quem é?

            2. Sobre o “si mesmo”, consigo formalizar matematicamente esse conhecimento:
            — A fórmula é [1+1=1].
            Sendo «1 diferente de 1»; 1= o que somos; 1= a cópia do que somos; 1= Deus (aquilo que queremos ser).

            3. Ou dito por outras palavras: — Deus, para se redimir do seu pecado (dito “original”) que foi quebrar o 1 (que foi quebrar-se a si mesmo), condenou-se a reconstruir tudo outra vez até voltar a ser 1.

            4. Logo, o 1 somos nós.

          10. A expressão pitagórica que acaba de expor é na realidade uma obra do intelecto, mas pouco inteligente. Pois não se pode reduzir ao número que é humano.
            Assim, eu prefiro o 3 – 3 de trindade -, trindade que de forma inteligente se traduz em: Amor, Amante e Amado. E isto é ABSOLUTAMENTE humano na medida em que todo o mundo aspira ao amor, faça o que fizer. No entanto, o amor só pode ser mandado se antes nos tivesse sido dado: “Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” Jesus in Novo Testamento. E este amor foi de tal forma que terminou voluntariamente em morte de Cruz, isto é, assumiu até à morte a missão de o ter dado e revelado e acima de tudo de o ter semeado. Portanto, a semente só dá fruto depois de ser lançada à terra (simbolicamente depois de morrer). No seu processo de germinação a semente obedece ao tempo de cada terreno.
            Na realidade este é um mandamento novo, porque no decálogo (tábuas da lei) ele não existia. E Jesus, expressão do Deus único e invisível, nesta vivência de amor revela-nos o Todo e a Parte. E é Todo e para todos nas diversas Partes; é a Universalidade do Autor/Amor.

            Ainda assim, para contrariar a sua expressão meramente pitagórica (numérica), cito Cipriano (bispo) na sua obra “Os homens não são deuses”: «O que o homem é Cristo quis ser, para que o homem pudesse ser o que Cristo é” . E ser o que Cristo é também se traduz na expressão final do sermão da montanha: “Vos estis sal terrae”. Isto é, vós sois sal da terra. Porém o sal na antiga tradição era usado para conservar os alimentos evitando a corrupção destes, no contexto, a nossa própria corrupção.

            Não obstante, eu concordo com a dúvda do nosso António Vieira: “Ou é o sal que não salga ou é a terra que não se deixa salgar”.

            Nota: espero que tenha respondido à sua questão sobre a expressão do “pecado original” que nos é descrita no mito da criação do génesis.

          11. Caro «De Vento»,

            1. A expressão (fórmula) que criei não é “pitagórica”.
            Porque não é: nem dual, nem binária, nem resolúvel em «0». Não se baseia numa Lógica que utiliza a categoria da “Diferença”. Logo, nela, a resolução não se alcança através de «diminuir» ou «aumentar»; ser «+» ou «-»; não há «tudo» versus «nada»; nem nela há o “zero”; «1» não se opõe a «0».

            2. Na fórmula de «SAP2ii» há também uma “trindade” (há três «1»). Mas consegue ultrapassar esse modelo ternário que «De Vento» referiu.
            Porque — ao invés de Pitágoras, ao invés do modelo ternário presente no Testamento, e ao invés da matemática tradicional — cada «1» corresponde a três estados do Mesmo (da mesma coisa; não, de três coisas diferentes).
            Logo, pressupõe uma 4.ª variável (um Objecto real, medível pela régua humana designada “espaço-tempo”) onde decorre a inter-acção da “trindade”. Razão pela qual a fórmula de «SAP2ii» consegue explicar e compreender «quem é o Quem» que sopra; aquele que lançou a primeira semente; que programou; que enviou/mandou; que deu amor antes de quem o vai descobrir ou achar, etc.

            3. O modelo de compreensão usado por «De Vento» nunca é capaz de resolver este problema de «anterioridade».
            É sempre alguém que já soprou. É sempre algo anterior, que pôs lá o amor, que depois os outros irão sofrer ou ficarem a ele condicionados.
            É sempre o priori de uma «anterioridade».

            4. É sempre essa «anterioridade», o problema não resolvido por «De Vento».
            Razão pela qual, não vislumbra outra solução que não a da Fé (nessa coisa indeterminada e vaga, como uma Luz que ilumina). É esse o conceito de Deus que usa. É por causa dele também, que Cipriano (bispo) erra.

            5. Aliás, não há nada que garanta que essa sua interpretação (e a da Igreja) estejam certas. Isso só aconteceria, se «Vento» e a Igreja fossem “Deus”. E não apenas os seus tradutores (um provérbio italiano afirma: “traduttore, traditore”)

            6. Cada «1» — na «fórmula de SAP2ii» — pode ser relacionado com a tradicional narrativa “Pai, Filho e Espírito Santo”. Cada qual correspondendo a «1».

            7. O corolário da «fórmula SAP2ii» (isto é, aquilo que responde à pergunta que «De Vento» fez sobre o conhecimento) é:
            — 1 (Deus, e a sua compreensão) alcança-se quando 1 (Nós, aquilo que somos agora) for capaz de construir 1 (uma cópia de si igual àquilo que lhe satisfaça a compreensão de Deus).

            8. Logo, na fórmula de «SAP2ii», é pela construção de uma cópia de nós mesmos — igual «àquilo que nos satisfaça que Deus seja» — que o alcançaremos.

            9. Entre 1 (nós) e 1 (cópia de nós mesmos) e 1 (Deus) cabe-nos abolir a diferença. É essa tarefa construtiva que nos fará obter o Conhecimento que «De Vento» reclamava.

            10. Esta «fórmula de SAP2ii» é também a «Fórmula do Fim-da-Matemática».
            Pois no momento em que alcançarmos a equivalência (1+1=1) deixa de ser pela matemática que passamos a Conhecer. Essa fórmula é a última porta (ou a primeira) para passarmos a uma outra condição de Existência. Na qual não é necessário “conhecer”, porque nela não opera a categoria da “Diferença”. Só necessitamos da matemática e do Conhecimento para construir a equivalência. Depois são totalmente desnecessários.

            11. Mas há outro problema. Que «De Vento» referiu.
            O problema de Deus (portanto, também o Nosso) — nessa tarefa de redimir o pecado que cometeu ao quebrar o «1» — ter percebido que o Mal (o pecado) fazia parte de si.
            Que não era pureza e impolutilidade, como julgava que continuava a ser depois de se ter deixado quebrar.
            Portanto, de não saber se no final ganhará o Bem ou o Mal.
            Daí o afã e a ansiedade da Igreja (dos seus apóstolos e pastores) em proclamarem aquilo que designam por “Amor” e “Bondade”. Para que no final — no último acto de construção, na última peça a pôr, quando a cópia tiver conseguido ser igual ao «Deus que desejámos» — seja o Bem a ganhar ao Mal.

            12. Caro “De Vento”,
            Agora imagine que eu dizia isto na Idade Média?
            Era fogueira, pela certa…

          12. Se o jpt não se chatear, procurarei ser breve.
            Na idade média faziam-se fogueiras como hoje se lançam bombas para democratizar outros e sacar-lhes o que possuem. Assim, só muda o panorama. Permanecendo a mesma ignorância e velhaquez.
            Compreendo perfeitamente o sentido do que expressa.
            1 (e ponto único) – Você procura espelhar no número a complexidade do ser e procura demonstrar uma harmonia que em matéria humana ainda não existe e será sempre um projecto ou proposta.
            O sistema binário tem como função e capacidade o simbolizar todos os números possíveis e imaginários.
            Todavia, se eu partir do princípio que, por exemplo, tenho um sistema As400 e necessito liga-lo, por exemplo, a um sistema DOS, vou sempre precisar de um tradutor, vulgo AS400 pc support, para descodificação das mensagens e melhor comunicar.
            Na relação entre homens precisamos desse tradutor que nos ligue à Fonte e nos permita conectar. No cristianismo damos o nome de Redentor a Cristo. Porquê? Porque esta conexão à Fonte permite-nos distinguir a semelhança (não igualdade) também com os demais: em virtudes e em fraquezas. E já se torna uma virtude reconhecer-se fraco para melhor compreender a fraqueza. Esta não deve ser reprimida, mas redimida. A justiça humana condena e o Amor liberta.
            Existe um logion (dito atribuído a Jesus) no apócrifo designado por evangelho segundo Tomé que melhor identifica este sentido:
            “Se os que vos guiam vos afirmarem: olhai, o reino está no céu, então os pássaros do céu preceder-vos-ão; se vos disserem que está no mar, então os peixes preceder-vos-ão. Mas o reino é dentro de vós e é fora de vós.
            Quando vos conhecerdes sereis então conhecidos e então sabereis que sois os filhos do Pai, o Vivo.
            Mas se não vos conhecerdes estareis na pobreza, e sois vós a pobreza.”

            Deus é movimento e repouso. O movimento define o percurso de cada um em busca do que procura; O repouso define a satisfação de um encontro e não a definição de quem se encontrou (aqui chegados tudo mais é desnecessário). Pois Ele continuará a ser o indizível e só é demonstrável na(s) parte(s) que repousa(m), ainda que em movimento.
            Muitos farão este mesmo percurso sem saber o que percorrerão: “para vires ao que não sabes hás-de ir por onde não sabes”, já lhe tinha referido isto.
            Ao subir-se uma montanha para alcançar o topo, o caminho pode ser feito por várias encostas. Mas há uma certeza em quem já fez um grande percurso por diversas encostas: no caminho para o indizível quem não se encontrar com Jesus tropeça e cai encosta abaixo. E ficará na mesma situação definida pelo mito de Sísifo.
            Não existe anterioridade. Ele é o que é ou, de outra forma, é o que está.

            O amor não se prega: encontra-se ou vem ao encontro; e vive-se. Porém amar dá um trabalho do camano, porque o homem forte a ser combatido nunca é o outro, mas cada um contra si mesmo.
            Finalizando com um breve extracto de um logion do autor anteriormente identificado: “aquele que se encontra a si mesmo, o mundo não é digno dele.”

          13. Caro «De Vento»,

            1. Mas se a Fonte somos Nós [1+1=1], não precisamos de alguém de fora para fazer a ligação.

            2. A diferença entre «SAP2ii» e «De Vento» nesta discussão é, «De Vento» acreditar que «Deus» é alguém ou algo diferente de cada Pessoa. Que há um «Deus» único, exterior e fora de cada Pessoa. E «SAP2ii» afirmar que há tantos «Deus» quantas as Pessoas que o souberem descobrir dentro de si próprias.

            3. Porque é aí que ele está a reconstruir-se, depois de se ter deixado quebrar. Depois de Ele ter cometido esse Pecado Original. É isso que a «fórmula de SAP2ii» mostra: a trindade é a Mesma Pessoa [1+1=1].

            4. Logo, quando todas as Pessoas encontrarem «Deus», passam a ser «Deus». Haverá tantos quantos puderem ser. Razão pela qual adquirem a propriedade de que «SAP2ii» é o acrónimo.

            5. Quando a Igreja (os apóstolos, pastores e “ligadores”) dizem que veio ao mundo para redimir o pecado das Pessoas, estão a errar. Ele está a redimir o seu Pecado perante o olhar das Pessoas que assistem a esse sacrifício. É exactamente o contrário.

            6. Isso serve às Pessoas para não cometerem o mesmo pecado que Ele. Razão pela qual o Mundo e a Vida das Pessoas é a miséria que é.
            “Em 2019, no mundo, 1% dos mais ricos possuíam mais do dobro da riqueza de 6,9 mil milhões de pessoas. E 2153 pessoas possuíam mais riqueza do que 4,6 mil milhões (60% da população mundial) (Oxfam, Cimeira de Davos, 2020).

          14. ! (e ponto único) – Equivoca-se. A tradição social, familiar, cultural, escolar, a viciação, os conceitos e preconceitos, os meros cultos, idolatrias do “eu” e a rotina induzem comportamentos pavlovianos. Somos, assim, reflexos mecanizados de estímulos externos.
            Esta condição afasta o nosso olhar do interior onde reside a Fonte e do exterior onde Ela pode ser contemplada (você liga-se ao mundo por wifi e neste processo ligamo-nos ao mundo através de wifé). Para que isto seja possível é necessário que alguém (Tradutor ou Redentor) nos aponte para a origem de nossa escravidão: e, conhecendo-a, o percurso para a Fonte inicia-se. Este percurso passa, assim, a ser um processo (movimento) interior de busca, reflexão, estudo, pesquisa, dúvida, oração, conversa, experiência, encontros… em direcção ao repouso, que culmina no mais intimo de nosso intimo (Deus interior intimo meo et superior summo meo).
            Uma vez o impulso dado o caminho é o da irreversibilidade. Não se consegue voltar a trás.
            Portanto, o impulso começa pela limpeza e luta contra os fantasmas, os vermes, demónios… que a tradição também atrai provocando entulho sobre a Fonte: inicia-se a limpeza e o progresso para se atingir a sétima morada do “castelo” (imagem por esta criada) de Teresa D´Ávila.

            Jesus na Cruz é escândalo para judeus e loucura para os gentios (gregos). Nenhum deles seria capaz de se submeter a esta Paixão pelo outro. Assim, judeus buscavam milagres e gregos a sabedoria. Os cristãos oferecem Cristo: o Milagre e Sabedoria de Deus.
            O cristão no seu encontro com os homens não lhes deve perguntar de onde vêm, mas para onde vão: Quo Vadis? Perguntar aos homens, neste encontro, de onde vêm, é o mesmo que selar a tradição errónea do mundo que ainda os habita. É como meter a mão ao arado e olhar para trás. Quem o faz não é digno do reino. É o mesmo que um morto enterrar outro morto.
            Sim, a Trindade é a mesma Pessoa. Mas uma coisa é ser-se Pessoa e outra é ser-se homem.

            Sim, na realidade dizer-se que veio ao mundo para redimir, é uma afirmação correcta para nos indicar que é o Corpo que nos introduz no mundo para o Transformar. Assim, a Pessoa fez-se conhecida aos que se assemelham, mas os que se assemelham ainda não O reconhecem.

            Sapii, Já não o chamo de discípulo, mas de amigo. A partir de agora o percurso é seu.
            Abraço amigo

          15. Caro «De Vento»,
            Também lhe envio um Abraço Amigo!
            E também a JPT e ao Delito de Opinião, por nos terem proporcionado esta bela viagem.
            Havemos de nos encontrar Todos… lá, onde ainda está por vir.

    2. Mas que grande ventania: os neofascistas PS/BE/PAN/Livre. Como diria o outro ‘esta nunca tinha ouvisto’. Também outros diriam ‘que nortada ridícula’.
      Mesmo assim, imagine o que seria a normal aragem de não haver guerras, boicotes, isolamentos, militarizações, golpes de estado, cercos económicos, aos revoltosos anti capitalismo hereditário.

        1. ‘Você lá sabe o que foi que o atingiu’, esta é um sopro de quem constata ter havido aragens libertadoras da exploração capitalista.
          Entenda-se como exploração capitalista não haver oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de lazer, e o resto veio de nortadas e do suão até chegarmos aqui a esta corrente d’ar de escrita.

          1. A minha condição celestial é trabalhar pouco mas bem. O resto do tempo deleito-me a ouvir lamúrias de quem trabalha muito e mal, produz pouco e tem muito; e ainda é infeliz por ver outros a trabalhar pouco e bem.

      1. “Mas que grande ventania: os neofascistas PS/BE/PAN/Livre. Como diria o outro ‘esta nunca tinha ouvisto’.”

        Não há Fascismo sem Socialismo, e nem sequer estou a falar das origens do Fascismo. Mas da prática.
        Como se fala aqui da ideologia genocida do Comunismo- pois sem limites ao seu poder e logo primitiva- e sobre a qual os jornais de “referência” e a Academia nos dizem que não precisa de pedir perdão pelos milhões de crimes de há 150 anos a esta parte, ao invés dos Maias de Eça de Queiroz…
        É só lembrar:
        “Appello del Partito Comunista Italiano ai fratelli in Camicia Nera”

        Ou coisas como Basis Nord.
        https://en.wikipedia.org/wiki/Basis_Nord
        Agora pergunte-se porque é que estas coisas nunca aparecem nos jornais do regime?

      1. O primeiro partido fascista, o de Mussoulini, sobe ao poder por renúncia do anterior primeiro-ministro italiano.
        Por nomeação de Vitor Manuel (III) Mussolini ocupa a vaga.
        O partido nazi (nacional socialismo) sobe ao poder por via da democracia.
        Portanto, os partidos neofascistas constituem-se como parte integrante desta democracia, em semelhança a todos os demais.
        O que fazem depois que assumem funções permite a qualquer cidadão caracterizá-los.

  4. Teríamos bebido rum – cubano, claro

    Também destilada a partir da cana de açúcar, eu prefiro mil vezes cachaça a rum. E também a acho mais saudável, isto é, menos prejudicial à saúde.

    1. Comentador Balio, poderá ser mais saudável mas eu prefiro rum. Desde a mais tenra idade, coisas que me vem do meu mestre Long John Silver. Com a idade, e tendo frequentado outros bares e lupanares, tornei-me – ainda que não abjurando do rum – mais fiel ao uísque.

      1. Faz mal, muito mal. Uísque é das piores (para a saúde) bebidas destiladas que há. Quase todas as bebidas destiladas contêm metanol, e o uísque é das piores.

  5. Camus , Aron , entre outros , já explicavam “a coisa” ( contra ventos e marés , sobretudo no seu próprio país…).
    JSP

    1. Sim, entre muitos outros. Mas, como refiro, tratou-se de uma selecção pessoal. Camus está lá em casa, uns já avoengos, outros paternais, outros meus. Não era referência suficiente para estar lá tudo. Passou a ser depois. Aron havia muito pouco, a primazia na estante dei-lha eu: Aron, Popper, depois Berlin. Aos 20 e muitos estava feito, depois foi só continuar. Insuficiente mas assim.

  6. O PCP é e sempre foi um partido da clandestinidade, neste momento é o partido da nostalgia.
    Muito depois do 25 de Abril ainda se distribuía o Avante e o Vida Soviética às escondidas, era metido nas gavetas, geralmente à hora de almoço e longe de olhares indiscretos.
    Os segredos e segredinhos foram sempre o tipo de comunicação entre os comunistas. Nos sindicatos os próprios associados só têm direito a saber informação relevante depois de passar pelo crivo do comité central.
    Mas independentemente de todas estas aberrações tenho de reconhecer que foi e é um partido indispensável à consolidação da democracia em Portugal.

    1. Diz muito bem, a cultura de clandestinidade, o secretismo e, ainda mais, o escondidinho era real. E nisso também o “centralismo democrático”, coisa que não cabe num texto como o que fiz mas que é a “pedra-de-toque” de tudo aquilo.

  7. Bela evocação, caro jpt, eu que não me lembro de concordar com uma única linha do que aqui escreve. O seu pai gostou mesmo de o ler, sorriu e, de certeza, mandou descer mais um runzinho.
    Abraço

    1. Muito obrigado pela gentileza. Principalmente por, pelo que me diz, nunca concordar com nada do que escrevo – e eu que me julgo plácido e pleno de concórdia.

  8. “O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico”
    E o PC. está moribundo como se pode ver pelo resultado das últimas eleições presidenciais.
    Retirei-lhe o P final porque é um partido russo (soviético).
    País de bananas governado por ignorantes.

    1. Julgo que sim, que o PCP está no final. Julgo que não, é um partido português – imensamente influenciado pelo regime soviético, como escrevi. Julgo que nem sei o que dizer: há dias que sim, que julgo isto esse país com esses governantes. Há outros que acordo mais bem-disposto.

    2. Todas as correntes partidárias/ideológicas são “cópias” das que apareceram em primeiro lugar noutros países, incluindo a Grécia com a democracia.
      O nacionalismo salazarista é de cópia Mussolini, veja-se uma fotografia do Salazar com a foto do duche na secretária.

      1. “O nacionalismo salazarista é de cópia Mussolini”

        Não. Ser nacionalista era natural naquela época e anteriores veja-se a I Republica que nasceu em parte do Mapa Cor de Rosa…Salazar não precisava de copiar coisa alguma para o ser.
        O Rolão Preto foi expulso de Portugal por Salazar. motivo: Influências Estrangeiras, ou por outra palavras Fascismo.

  9. O problema do PCP é que as classes operária e camponesa praticamente não existem. Aqueles a quem chamam burgueses são os que realmente sustentam (juntamente com os dinheiros europeus e constantes empréstimos) isto tudo, e nem o PCP os representa nem eles querem ser representados pelo PCP.

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