A propósito de Marcelino da Mata


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“Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?”, perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas – em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação – pois avessa às mitografias oficiais, às “imaginações das nações”. Questão algo esquecida na história portuguesa – até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder …).

 

Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão “do colonialismo” do modo básico como os intelectuais das “causas” surgem agora, anacrónicos ainda por cima… Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar – e até explicitar – distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso – os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.

 

Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual “Infante Santo”. Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que – ao que consta – a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere – em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda – menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa…

 

Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal “Público”) um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

23 comentários em “A propósito de Marcelino da Mata”

  1. Bom dia ,
    O Estado Novo , o povo português e a questão da raça é muito complexa e não encaixa muito bem nas novas modas .
    É por isso que muita gente concorda com André Ventura quando ele diz não há racismo estrutural em Portugal .
    Marcelino tinha orgulho em ser português e nós (portugueses brancos ,pretos,azuis , amarelos e outros)tinhamos orgulho que Coluna fosse capitão da nossa Seleção .

    Luis Almeida

  2. Bom dia caro jpt
    Peço desculpa pelo pedido, mas fiquei mesmo interessado. Podia explicitar melhor esta parte do seu texto: “E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso – os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.”
    É que em relação à Guiné giquei com ideia que eles foram perseguidos, mas em relação aos outros 2 países não sei nada, e dada a sua experiência moçambicana deve ter conhecimento dessa situação
    Cumprimentos
    Jorge Nunes

    1. “excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc”

      Os Portugueses deviam saber quem é esta gente, estes académicos da secretária com os seus estudos de treta sem verdade nenhuma a não ser o fanatismo de sobrevivência de viver as custas de subsídios do estado.
      Que credito pode ter um incentivador de violência como Ba, e como é que um fulano destes pode andar por aí apontando os Portugueses de racistas. Afinal quem são os padrinhos irresponsáveis deste Ba?
      Tenho vergonha que Portugal esteja a transformar-se num albergue de chulos!
      Cumprimentos
      Ana Sofia

  3. «a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país» – grande frase.
    Na verdade, a esmagadora maioria não sabe. Prefere varrer para debaixo do tapete.

    1. a lumpen-intelectualidade portuguesa não sabe que fazer com a história recente do país

      Sim, mas será que outros países que tiveram colónias, nomeadamente a Inglaterra, a França e a Espanha, estarão melhores? Será que os intelectuais desses países sabem que fazer com as histórias recentes deles?

  4. ” Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que – ao que consta – a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar.”
    Isso não é nada de novo, o nosso regime actual considera os veteranos brancos como quasi inimigos, os veteranos pretos como traidores. Para várias eminências que falam nas TVs deveriam ter sido fuzilados in loco a quando da queda do Império como milhares de outros que combateram por Portugal o foram pelo PAIGC.

    1. o nosso regime actual considera os veteranos brancos como quasi inimigos

      Isso não é propriamente anormal. Durante muitos anos após a guerra do Vietname, os soldados americanos que tinham combatido nela não eram nada bem vistos por grande parte da opinião pública norte-americana. Eles eram vistos como indivíduos que tinham estado a combater numa guerra injusta e cometido nela crimes hediondos.

      1. Neste caso é ideológico não reflexo da propaganda . Quando chegaram os cortes de 2008 a Esquerda passou o tempo todo a reclamar pela reposição dos subsídios. Um dos foi cortado foi o pequeno subsídio que os veteranos tinham começado a receber desde quando Paulo Portas foi MdD . A Esquerda chegou ao poder o subsídio foi reposto? claro quer não.
        Apareceu nos jornais. Claro que não.

  5. Para mim, Marcelino da Mata é como Afonso Henriques.
    Devo-lhes o mesmo.
    Defenderam a Identidade, que fez de Portugal o que é.
    Haverá, nalgum sítio do mundo, Liberdade sem Identidade?
    Haverá hoje, agora, aqui no território de Portugal, alguma outra guerra a travar para se conseguir defender essa Identidade?

  6. Há quem acuse Marcelino de ter cometido crimes militares. Que matou e torturou. Tortorou e assassinou ou não? Não sei. Mas ouvi de pessoas com credebilidade. Se é verdade, no mínimo há importantes indícios que nunca forma contraditados, como é que o Presidente da República foi ao funeral? Porque não foi ao de outros militares de que nunca se suspeitou que tivessem cometido crimes? Alguém quer esclarecer? Parece-me que não há interessados no esclarecimento. Não é esquisito?

    1. Ó João essa é que é verdade
      Então, todos os dias haveria funerais de antigos combatentes cada um herói à sua maneira. Então da Guiné não faltavam heróis.
      O problema do Marcelino é ter sido o mais condecorado das Forças Armadas Portuguesas, mas ter no curriculum umas ‘orelhas de ramboiadas’.

      1. “é ter sido o mais condecorado das Forças Armadas”
        Foi condecorado por ter cometido atrocidades ou por outras razões? Nada foi esclarecido e é aí que está o problema.
        Se um Ministro for suspeito de não ter pago o IVA de um conserto na casa de banho tem de se demitir e não importa se mais tarde for absolvido da acusação. Ora Marcelino é pelo menos suspeito …. neste caso não se esclarece e condecora-se. Estranho.

        1. Com certeza que ele foi condecorado por acções em combate, não é conhecido o teor do louvor/condecoração. Existiram processos contra ele por atrocidades que foram arquivados por ordens superiores, não se sabendo se foram cometidas no mesmo “acto” que deram lugar a louvor/condecoração.

  7. Sempre que se fala da Guerra Colonial referem-se as atrocidades cometidas pelo exército português. Tenho dúvidas de que tenha havido guerra na História sem as ditas atrocidades, ou então pensam que a malta entrava no campo de batalha com um cavalheirismo extremo?

    1. Tenho dúvidas de que tenha havido guerra na História sem as ditas atrocidades

      Não. Desde as Guerras Napoleónicas até à Primeira Guerra Mundial, inclusivé, as guerras eram a atividade de soldados integrados em exércitos que combatiam outros exércitos mas não se dedicavam nem a massacrar nem a roubar populações civis.

      Depois da Primeira Guerra Mundial é que passou a ser considerado legítimo massacrar a população civil do lado inimigo.

      E até às Guerras Napoleónicas, inclusivé, não se massacrava a população civil dos território conquistados, mas roubava-se-lhe tudo o que tinha.

      1. E até às Guerras Napoleónicas, inclusivé, não se massacrava a população civil dos território conquistados

        Desde quando e onde?

      2. “Não. Desde as Guerras Napoleónicas até à Primeira Guerra Mundial, inclusivé, as guerras eram a atividade de soldados integrados em exércitos que combatiam outros exércitos mas não se dedicavam nem a massacrar nem a roubar populações civis.”
        Para dizer isto é preciso não conhecer nada de História.
        https://en.wikipedia.org/wiki/Rape_of_Belgium

  8. Acreditem, em nenhum teatro de guerra, em nenhum dos lados, podem perdurar azinhas brancas.
    Mas também surgem, como em outras actividades humanas, supreendentes assumos de dignidade. RIP.

  9. Marcelino da Mata não é preto nem branco é um Português digno!
    O Mamadou BA é uma fraude e de português não tem nada e a única coisa que tem para oferecer aos portugueses é a indignidade dele próprio ser um racista !

    Tó Zé

    1. “Marcelino da Mata não é preto nem branco” Com esta fiquei atónito. E marquei uma consulta de urgência com o oftalmologista …. serei daltónico?

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