O comentário da semana


Pedro Correia,

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Foto: jornal The Guardian

 

«Meu pai faleceu em Julho de 2011. Logo a seguir ao funeral, minha mãe negou-se a estar uns dias comigo antes de regressar à sua casa na Parede.

“Não filho, vou já para casa, a vida continua.”

E assim continuou, em casa, com uma senhora uma vez por semana para limpezas e passar a ferro (hoje não se pode dizer mulher-a-dias), tratando da sua alimentação, de lavar a roupa na máquina nova que lhe comprei, tratando portanto da rotina caseira. [Fui] visitando-a em regra uma vez por semana, altura em que vamos ao supermercado, falando-nos ao telefone diariamente. Nos últimos quatro anos passou a ir sozinha ao supermercado: abriu um Continente a cerca de 40 metros de casa, pelo que me dispensou. Literalmente!

Na segunda-feira a seguir à Páscoa de 2019 teve uma crise de arritmia forte, esteve 11 dias no hospital de Cascais, recuperou, e quando a fui buscar para minha casa, logo nessa noite: “Filho, já não consigo estar sozinha em casa, quero ir para o lar onde estava até há poucos dias a minha prima Lana.”

E assim está num lar desde 31 de Maio de 2019. Nesse que queria, em Lisboa, e desde 12 de Maio de 2020 num melhor, a poucos metros de minha casa, visitando-a [eu] até há duas semanas na “Box das emoções”, onde estamos separados por um vidro.

Completou 95 anos em 8 de Julho passado. Continua felizmente, muito bem de cabeça, com uma lucidez, discernimento e memória extraordinárias. Mas apesar de ser uma senhora muito forte isto vai deixando mossa, devagarinho.»

 

Do nosso leitor António Cabral. A propósito deste texto do JPT.

Um comentário em “O comentário da semana”

  1. Não pode haver dúvidas de que a solução “lar de internamento para idosos” é uma solução de último recurso e que, para funcionar bem, exige muitos meios e que, quando funciona mal como frequentemente acontece, cria muitos problemas à sociedade e provoca muito sofrimento aos idosos internados, como veio demonstrar o caos que se vive e viverá em muitos deles. Para quem tinha dúvidas, a pandemia por covid 19 é bem esclarecedora.
    Por isso, defendo que os chamados “lares de idosos” não devem albergar mais do que umas poucas dezenas de indivíduos, privilegiando-se e favorecendo-se a sua manutenção/integração na família.
    Nesse sentido, acho que deveriam ser premiados os parentes que tomem o encargo de cuidar os seus idosos. O Estado, que vem financiando o internamento (à razão de cerca de 500 euros por mês e por cabeça), deveria criar uma prestação social, tipo abono de família, a favor dos cuidadores, em especial das famílias mais carenciadas. Nas famílias mais afortunadas, o parente cuidador também devia ser protegido, facilitando-lhe, legalmente, a cobrança das despesas junto dos outros herdeiros.
    E, se assim fosse feito, o problema dos lares ficava muito atenuado, libertando-se meios para melhorar as redes de hospitais de cuidados paliativos ou continuados, onde muitos utentes de Lares de Internamento deviam estar.

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