
«Aquela parte [do hino nacional] em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade»
É o mais antigo profissional de televisão em actividade entre nós: podemos vê-lo regularmente na RTP Memória, conduzindo entrevistas muito interessantes. Desta vez foi ele o entrevistado: respondeu sem hesitar a todas as perguntas que lhe fiz ao telefone. Sem nunca perder o sentido de humor.
Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?
Ter entrevistado a Jamie Lee Curtis, ter faltado a luz durante essa entrevista, ter estado 15 minutos às escuras sem ver a Jamie Lee Curtis e voltar para casa sonhando no que teria acontecido se estivesse às escuras com a Jamie Lee Curtis. Não aconteceu nada.
Gostaria de viver num hotel?
Tive essa experiência durante oito meses, no Porto. Fiquei com a certeza de que nunca quererei repetir a experiência da Beatriz Costa. Um hotel às vezes até parece a casa da gente. Mas não é.
A sua bebida preferida?
Ice tea.
Que número calça?
Depende: 42 em formato normal, 43 em ténis.
Que livro anda a ler?
Leio sempre vários ao mesmo tempo. Estou a terminar A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos: aquilo não é um livro, é uma arma de arremesso, que pesa cerca de meio quilo! Leio também as Confissões de uma Liberal, de Maria Filomena Mónica, um livro de crónicas de António Lobo Antunes, e Bocage – A vida apaixonada de um genial libertino, de Luís Rosa.
A sua personagem de ficção favorita?
Lili Caneças.
As aparências iludem?
No caso vertente, não.
A sua cor preferida?
É o azul, apesar de ser sportinguista dos pés à cabeça.
E a música da sua vida?
Sem dúvida Bridge Over Troubled Waters, de Simon e Garfunkel.
Costuma cantar no duche?
Canto trechos de ópera e canções napolitanas.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
Gosto do hino. Mas aquela parte em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade.
Que pecado capital pratica com mais frequência?
Objectivamente, a preguiça. Sou um preguiçoso frustrado. Gostava de não fazer nenhum.
Gosta de gravatas?
Gosto muito. Tenho imensas.
Com quem gostaria de jantar?
Primeiro convidem-me. Depois direi se aceito.
Qual o seu maior sonho?
Jamais conseguirei concretizá-lo, porque estou casado e sou feliz: era estar casado e ser feliz com a Sigourney Weaver.
O maior pesadelo?
Imaginar que os presidentes dos Estados Unidos podiam candidatar-se a um terceiro mandato.
O que o irrita profundamente?
Irrita-me a atitude “intelectual fresca” daqueles que me olham como se eu nunca tivesse lido em toda a minha vida outra coisa além do Tio Patinhas.
Em equipa que ganha não se mexe?
Mexe-se. Convém estar atento: nada se mantém sempre a ganhar.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Tratando-se do automóvel, gosto de conduzir. Na vida, adoro que me conduzam.
Casamentos gay: de acordo?
Estou de acordo com as uniões de facto gay.
Um exemplo de mulher bonita na política?
Em termos internacionais, a Ségolène Royal. A nível nacional, Teresa Caeiro: é muito bonita e tem muita graça natural.
O que faria se fosse milionário?
Dava a volta ao mundo com a minha família num avião particular. E organizava o maior campeonato do mundo de aeromodelismo. Muito privado, só meu.
Acredita no paraíso?
Acho que sim, desde que não seja um voo charter para a República Dominicana. Definitivamente, a República Dominicana cheia de charters não é um paraíso.
Tem um lema?
Aguenta-te, Júlio.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (14 de Julho de 2007)

Grande Júlio Isidro!
Sempre correctíssimo, gentilíssimo, com uma postura irretocável.
Os anos (e o currículo!) não o tornaram nem um pouco arrogante, ou condescendente, ou “o chato de serviço”. Pelo contrário, sempre esbanjando um entusiasmo genuíno e inteligente.
Grande “persona publica”!
Longa vida, Júlio Isidro!
Júlio Isidro: o maior descobridor de Portugal a seguir ao Vasco da Gama e ao Pedro Álvares Cabral.
E é mesmo verdade: ele descobriu e lançou nos seus programas inúmeros artistas, quase todos muito bons.
Cresci a vê-lo na tv, a preto e branco e depois a cores.
E mais recentemente, voltou a fazer aquilo em que é exímio na RTP-Memória: boas entrevistas, boas conversas, a espalhar conhecimento e memórias, sempre com simplicidade, charme e muito sentido de humor.
Gostei muito desta entrevista e só espero que ele tenha mesmo descoberto o elixir da eterna juventude – pelo menos é o que parece…
🌿🍂
Maria
Sábia resposta: Irrita-me a atitude “intelectual fresca” daqueles que me olham como se eu nunca tivesse lido em toda a minha vida outra coisa além do Tio Patinhas.
O Júlio Isidro é um ícone da nossa televisão.
Dezenas de profissionais de todas as áreas do entretenimento devem a carreira ao Júlio Isidro.
E ler Tio Patinhas ensina muitas coisas também. Tem lá também um Mancha Negra.
Grande entrevista, Sr. Júlio Isidro. Next!!