Terminar em beleza


Pedro Correia,

 

Há poucos dias, numa troca de impressões com o João Lisboa, descobri que temos gostos muito semelhantes em matéria cinematográfica. Incluindo uma devoção mútua pelo filme britânico O Terceiro Homem, realizado em 1949 por Carol Reed, a partir de um argumento concebido por Graham Greene, e com Orson Welles, Joseph Cotten, Alida Valli e Trevor Howard nos principais papéis. 

Costumo até eleger o magnífico desfile de Alida Valli pela vasta alameda bordejada de árvores despidas, ignorando a presença suplicante de Cotten, como a minha preferida de todos os finais de longas-metragens que já vi. Sem necessidade de uma palavra, só com a cítara dedilhada por Anton Karas a realçar a cena. A expressão terminar em beleza parece ter sido inventada aqui.

Proponho-vos que partilhem comigo as vossas preferências nesta matéria. Que finais de filmes mais vos tocaram por algum motivo?

84 comentários em “Terminar em beleza”

  1. A última frase do silêncio dos inocentes “I’m having an old friend for dinner”, porque é uma frase de duplo sentido, perfeita no contexto, daquelas frases que se calhar muitos guionistas perseguem durante toda a vida.

    Cumprimentos

  2. É sempre difícil entrar nessa do filme favorito, disco favorito, prato favorito.
    Um dentre muitos, o final do City Lights.

  3. Assim de repente, recordo-me de dois: o final do Zorba pela inocência do seu entusiasmo e o do Once Upon a Time in The West pelo simbolismo da morte do Velho Oeste e do nascimento de uma nova América. Curiosamente (ou talvez não!), ambos musicados por grandes compositores: Theodorakis e Morricone.

    Podia incluir mais alguns, pois à medida que escrevo vou-me lembrando deles, mas não vale a pena fazer disto um catálogo.

    Se o Pedro alguma vez fizer um texto sobre grandes aberturas de filmes, proponho desde já o D.O.A., um pequeno e quase despercebido film noir de 1950.

    1. “Zorba” é outro dos mais inesquecíveis desfechos de filmes, sim.
      Cá está ele:
      https://www.youtube.com/watch?v=1cJfIbMbw_4

      Nunca me esquecerei do deslumbramento que senti ao ver esta cena, nas condições ideais, num cinema antigo.(Enorme Anthony Quinn no papel da sua vida.)

      E cá está a outra cena final, também memorável:
      https://www.youtube.com/watch?v=NBno8SG421I

      Sim, havemos de concretizar essa série com aberturas de filmes. Série colectiva: irei lançar o repto aos colegas de blogue.
      Uma vez fizemos isso com aberturas de livros – e foi excelente. Com mais de vinte contributos.

      Eis (quase sem pensar) uma das minhas aberturas favoritas:
      https://www.youtube.com/watch?v=mBAtcI_t-Z8

      Um dos mais longos e engenhosos planos-sequência da história do cinema. Com assinatura de um mestre: Orson Welles.

      1. Pedro, não quer colocar aqui o link para essa série sobre abertura de livros? Gostava de a ler! 🙂
        Obrigada, Filipa

          1. Foi bom estar a reler… e fiquei com saudades do jaa, que nunca mais apareceu por aqui…
            🌾🍁
            Maria

  4. “2001: A Space Odyssey”. Nem lhe faço comentários 🙂

    “Brazil”, de Terry Gilliam, quando percebemos na última cena tanto o título do filme como o que significou todo o último acto.

    “Melancolia”, de Lars Von Trier. Sabemos desde o primeiro momento como vai acabar o filme, mas isso não amortece o impacto do final. Lembro-me de o ter visto no cinema e de toda a gente ter ficado sentada em silêncio longos minutos após os créditos finais começarem a rolar.

    “Carnage”, de Roman Polanski. Mas aqui não é tanto pelo final em si como por um detalhe maravilhoso mostrado nos créditos finais que sublinha o absurdo de todo o filme.

    1. “2001” é um pouco como “Citizen Kane”: repleto de cenas memoráveis do princípio ao fim. E todas tão interligadas que se torna difícil segmentá-las. Mas – como sublinhas – tem um fim absolutamente memorável (idem, quanto ao início).

  5. Ah, essa é difícil, tenho que pensar, são tantos…
    Assim de repente 3 finais: Zorba, Casablanca e o final da primeira versão do Blade Runner, com a nave naquele céu azul ao som do maravilhoso Love Theme.
    Dois inícios: Paris, Texas e Out of Africa.
    I’ll be back!
    🎬
    Maria

    Vou almoçar (e já não vou comer Lamb nem beber Red Chianti )

    1. I’m back!
      E como me pude esquecer de um dos meus finais preferidos de sempre?
      Breakfast at Tiffany’s, com a Audrey Hepburn , o George Peppard e o Cat, todos encharcados, a beijarem-se ao som de Moon River: Lindo!

      Outro final que me marcou bastante: Thelma and Louise.

      Para abertura lembrei-me do fabuloso Manhattan, embora o final também seja muito bom.

      E vou ficar por aqui para isto não virar um lençol…
      🎬
      Maria

        1. Em 2010 ainda eu não comentava em blogues, mas tenho a certeza que já comentei sobre este filme aqui no DO, talvez nas Canções da minha vida ou no Já li o livro e vi o filme.
          É um filme magnífico que nunca nos cansamos de ver, aliás como todos os filmes da Audrey Hepburn.
          ☔
          Maria

          1. Há vários outros filmes com ela de que gosto muito: “Caminho Para Dois”, “Charada”, “Férias em Roma”, “Funny Face”.
            E “My Fair Lady”, claro.

          2. Já encontrei: foi na série As Canções no Cinema (3) em 27.07.15.
            Já não estão lá todos os comentários, mas está o que me interessa.
            🎬
            Maria

          3. Reparei agora que o vídeo original já lá não está. A mudança de formato do youtube condenou à “extinção” muitos dos vídeos publicados nos primeiros anos do DELITO, incluindo grande parte da minha série “Canções do Século”.
            Poderei sempre repô-los,um a um, adaptados ao novo formato. Mas é um trabalho insano, inglório. Isto funciona como alerta para as contingências e a volatilidade da Rede: não tenhamos ilusões.

  6. A vida é bela tem final pungente, até por ir no oposto ao tom leve (no possível, dado o tema) do filme.
    Seven tem aquela cena final estrondosa. Que não termina à Hollywood.
    Fight Club tem um fim explosivo.
    Suspeitos do costume.
    E o “The Thing” (um dos GOAT) e Cabine on the Woods, outros finais anti-hollywood, personagens com destino traçado e conformados com isso.

    1. O meu problema com o África Minha é que gosto de todas as cenas, da primeira à última, sinto-me incapaz de escolher…
      Todavia, posso dizer que adorava que me lavassem o cabelo assim
      Maria

        1. Não diga a ninguém, Isabel, mas eu desconheço o significado da maioria deles… possivelmente até já usei algum indevidamente
          Daí preferir usar as flores, que funcionam assim como o vestido preto…
          Bom fim-de-semana!
          🌿🌼
          Maria

          1. Concordo. Acho que concordamos todos: aquela viagem de avião é inesquecível.
            Há vários vídeos, mas o que o Pedro aqui pôs não é o do Mozart, é com um tema da maravilhosa banda sonora do John Barry.
            🛩️
            Maria

            PS: Pedro, e que tal fazer uma série com “meios” de filmes?
            Proponho já um fantástico beijo que aparece lá pelo meio da Infância de Ivan do Andrei Tarkovski; aliás, este filme também tem um início belíssimo (com o canto do cuco) e um final igualmente belo com crianças a correr na praia.

          2. Sim, a cena do avião decorre ao som de uma das músicas da banda sonora criada por John Barry para o filme.

            Para além desta banda sonora, foi usado o Concerto para Clarinete em Lá maior, de Mozart. Lá terei que ver o filme novamente para saber os momentos em que surge. Será que é naquela cena do gramofone?

            Aqui fica o vídeo com Mozart:https://www.youtube.com/watch?v=Rjzf_cWzlp8

          3. É isso mesmo, e é neste vídeo que aparece a Iman (que conseguiu agarrar, e penso que fazer feliz, o David Bowie); e como aquele simples acenar de cabeças é importante, este filme está cheio de subtilezas…
            E sim, quase juraria que o Mozart surge na cena do gramofone.
            🌿🌼
            Maria

          4. De manhã estive a ver mais vídeos. O ‘África Minha’ é uma sucessão de fotogramas, cada um por si uma obra de arte. A mesa de jantar é uma belíssima natureza morta.

          5. Belíssimo livro sobre a longa e frutífera experiência africana de Karen Blixen. Pela qualidade da escrita e pela magnífica evocação de um tempo irrepetível. Obra tocada por uma doce, terna e contagiante nostalgia.
            Não hesito em incluí-lo entre os dez melhores livros de memórias do século XX.

          6. Ainda vai a tempo, Isabel 🙂
            Eu li-o quando saíu o filme, mais mais tarde (2011) comprei a edição conjunta Out of Africa + Shadows on the Grass. É mesmo a não perder.
            A Isak Dinesen (Karen Blixen) tem um livro de contos muito interessante ‘Ironias do Destino’; do conto ‘A Festa de Babette’ foi feito um belíssimo filme, que recomendo vivamente a quem gosta de comer bem e de bom cinema: ganhou um Oscar, um BAFTA e também um prémio em Cannes – e mais não digo, a não ser Bon Appétit!
            🥘🍲🍷
            Maria

    2. The Shawshank Redemption, Casablanca e principalmente Africa Minha.
      A minha filha mais velha , quando me sinto em baixo e preciso extravasar, diz-me sempre que vá ver os leões. É um filme extraordinário.

      1. Nada como o humor cúmplice em família, Maria Dulce.

        ‘Os condenados de Shawshank’ faz parte dos filmes que vi de empreitada (nos 80/90 havia um Vídeo Clube na família), talvez por isso não tenha ficado grande memória.

        Das últimas cenas do ‘Casablanca’ parece impossível acrescentar alguma coisa, já tudo foi dito. Memorável.

  7. Difícil escolher “o” final preferido. Assim de repente vem-me à memória o de “Cinema Paraíso” e o de “Clube dos Poetas Mortos”, que me comovem sempre e o do “Annie Hall”, que me deixa um sorriso nos lábios. Mas há muitos. O de Citizen Kane”, o de “Quanto mais Quente Melhor”, o de “A Vida de Bryan”…

    1. “Quanto Mais Quente Melhor”: obrigatório. Bem lembrado, Teresa.
      E, claro, “Citizen Kane” também. O clássico dos clássicos. Um desfecho que descodifica o filme inteiro.

  8. A apoteose da dança final em “Les uns et les autres” de Claude Lelouch.

    Aquele momento é como se fosse “o ponto de fuga” para onde convergem todas as personagens e as linhas das suas vidas.

      1. Eu também, que poltronas tão confortáveis (castanhas, se bem me lembro). Saímos de lá a dançar o Bolero de Ravel feitas tontas (éramos três) e depois fomos lanchar à Mexicana (belos azulejos de Querubim Lapa, se não estou em erro…).
        🎬
        Maria

      2. Também há imensos anos que não o revejo. Mas aquele encontro final de todas as vidas perdidas e sofridas que, de algum modo, um dia se cruzaram na mesma tragédia… reunem-se finalmente no mesmo ponto temporal. E com a dança como pano de fundo.

    1. José Couto, completamente de acordo consigo sobre este final.
      “Voando sobre um ninho de cucos” foi um grande filme. Vi-o em 77 e recordo-me de ter andado impressionada durante uns tempos.
      Há sempre inerente ao ser humano uma fome de Liberdade e uma capacidade de dizer basta! quando são ultrapassados todos os limites do suportável. É da sua natureza e seja lá qual for a sua circunstância conforme o comprova este filme.
      ML

      1. ML,
        Faço minhas as suas palavras.
        Este é, sem sombra de quaisquer dúvidas, um dos “meus” filmes, o qual vi e revi muitas vezes ao longo da minha vida, sem nunca me cansar.

      1. Não deixe de ver, Pedro. É um filme extraordinário e ganhou um Óscar de melhor filme em língua estrangeira.
        🎬
        Maria

  9. A agnórise no duelo final em “Era uma vez no Oeste”. Quase não há palavras, nesta cena feita de silêncio, de espera e _ sobretudo_ de uma memória muito particular. Tudo sublinhado pela música magistral de Ennio Morricone!
    E aquele rosto expressivo e marcante (meu Deus!) da interpretação de Charles Bronson.~
    ( Quem se lembra, sabe que na época não havia rapariga que não tivesse paixão por este actor_falo por mim! :-))

    https://www.youtube.com/watch?v=qwb3P0fuM1c

    SC

          1. Mais um tiro ao lado…
            Esta é uma pequena apresentação minha, publicada há cerca de 10 anos, no meu canal do YouTube, com frases retiradas do Livro do Desassossego, do nosso Bernardo Soares / FERNANDO PESSOA.
            Espero que goste.
            https://youtu.be/YmMG9ZdWx1U
            Bom Domingo.

  10. Já agora, numa homenagem a Ennio Morricone, vale mesmo a pena ouvir de novo este tema “Man with a harmonica” (da cena final do filme), tocada num concerto deste compositor. RIP.
    SC

  11. Também venho com frequência a este excelente espaço, embora nunca tenha comentado.

    Fiquei a pensar no seu desafio dos finais de filme e há sempre uma primeira vez:

    – o primeiro que me veio à cabeça foi o final do City Lights. Uma escolha óbvia, já referida aí acima.

    – depois há muitos, mas lembrei-me também muito do final do “Onde Fica a Casa do Amigo”, de Abbas Kiarostami, com a flor no livro dos trabalhos de casa do amigo.

    Saudações Leoninas, sempre.

    1. Esse do Kiarostami é suspense mesmo até ao fim.
      Pobres crianças, ninguém as ouvia…mas o nosso pequeno herói não desistiu e o final é lindo, com o pormenor da flor dentro do caderno…

      Maria

      1. O Caçador
        É um filme de uma dimensão, está tudo ali actores, fotografia,drama,amizade,traumas da guerra….enfim a vida..
        Grande filme

  12. Impossível ouvir a Cavatina do Stanley Myers sem me lembrar do The Deer Hunter, embora tenha sido escrita muito antes do filme.
    É uma peça belíssima que recordo sobretudo nas interpretações de John Williams e de Hank Marvin dos Shadows.
    Há temas assim: agarram-se aos filmes…
    Quem ouve o Tema de Lara e não se lembra logo do Dr. Jivago?
    🎬
    Maria

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