Desconheço se o comunicado de ontem de Luís Filipe Vieira, pelo qual anunciou que tinha riscado da lista da sua “Comissão de Honra” todos os apoios de titulares de cargos públicos, foi previamente combinado com os visados, ou com algum destes, ou se foram todos apanhados desprevenidos pela decisão e as palavras do presidente do Sport Lisboa e Benfica.
O desconsolo do candidato com o que se está a passar é compreensível. Foi mau para ele e foi mau para o clube qualquer que fosse a justificação. Mas esta é outra questão, que não foi a que gerou a polémica e a indignação de muitos. Com razão, diga-se de passagem.
O que o episódio do comunicado destaca é o crédito e a forma como hoje são olhados e tratados políticos e titulares de cargos públicos. E de quem é a culpa? Dos energúmenos das claques? Dos clubes? Dos presidentes destes? Da comunicação social?
É claro que de nenhum destes. Também não são eles quem marca almoços no parlamento para celebrar as conquistas desportivas dos seus clubes com os senhores deputados.
E saber se houve um telefonema antes, se foi o primeiro-ministro que pediu para ser retirado da lista, ou se foi uma decisão pessoal do candidato, é de todo irrelevante para o que interessa.
Ter entrado já tinha sido mau.
Se pediu para sair sem ter tido a iniciativa de sair pelo próprio pé, e depois de ter defendido a justeza do seu direito, isso seria ainda pior.
Se não pediu para sair e o candidato é que resolveu correr com ele e com os outros da sua “Comissão de Honra” dá ainda uma pior imagem, porque se fica com a sensação de que queriam e não se importavam de ficar e agora acabaram escorraçados saindo pela porta dos fundos.
Discutir um qualquer código de conduta dos membros do governo, que ainda por cima refere expressamente ser apenas “um compromisso de orientação” assumido no exercício das suas funções pelo membros do Governo e dos respectivos gabinetes, ou instrumento semelhante, também não ajuda à resolução do problema.
O simples facto de existir uma coisa dessas, oficial, já demonstra o nível a que se desceu e a estirpe de quem necessita de ter um guia para se comportar à altura dos cargos que ocupa numa república.
Alguns não se importarão com as figuras que fazem. Muitos não irão lá nem com mil códigos. Estão habituados ao estilo, ao convívio com “os gajos da bola”, e com outros muito piores. E por isso também conseguiram chegar onde chegaram. Até falsificando habilitações e qualificações.
Não será esse o caso do primeiro-ministro, o que torna ainda mais incompreensível a sua atitude de se prestar a integrar a tal “Comissão de Honra” e, depois de verificada a argolada, ainda insistir na sua posição. Será que não tem nenhum spin doctor decente com quem falar? Alguém civilizado, com bom senso e sentido crítico que possa dar-lhe uma ajuda? Só tem carreiristas, seguidistas, “tralha do partido” e yes men(*) para o aconselharem?
Aqui há uns anos houve um artigo (76.º, n.º 1) que foi eliminado do Estatuto da Ordem dos Advogados por uns negociantes que acharam que não valia a pena dizer que um advogado devia “no exercício da profissão e fora dela, (…), mostrar-se digno da honra e das responsabilidades que lhe são inerentes“. Ainda estou para perceber o que conseguiram com a sua eliminação.
O que aconteceu agora foi, com as devidas distâncias, uma reedição disto na nossa vida pública. Uma coisa é o que faço enquanto primeiro-ministro e líder do partido, outra coisa é o que faço na minha vida privada.
Não creio, como neste caso, que seja fácil fazer a separação dos planos, em especial quando são tantos e tão recorrentes os maus e os péssimos exemplos, muitos deles vindos de um passado não tão distante quanto isso e que tão, e bem, criticados foram.
Parece-me evidente, pese embora o exagero, que um tipo que se comporta normalmente como um trafulha, que faz da vigarice um modo de vida, jamais deixará de o ser se um dia lhe acontecer exercer um cargo público. Em especial se tiver uma oportunidade de dar o golpe saindo impune. Porque não há separação possível entre o que fazia, e certamente continuará a fazer, na sua vida privada e o exercício da função.
Poderei estar errado, e admito que sim, pois muitas vezes também erro nas minhas escolhas e nos meus juízos. Todavia, nem por isso deixo de assumir a responsabilidade pelas minhas acções. E se erro procuro corrigir, e não reincidir.
É que no extremo a separação entre vidas e papéis pode levar a que um tipo faça figuras tristes no exercício de cargos públicos.
E aí o problema não será apenas dele.
Não vale a pena dar exemplos. Todos os conhecemos.
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(Editado para substituição de “conferência de imprensa” por “comunicado” porque o anúncio foi feito pela segunda via)

Excelente
Estes algodões irão continuar a enganar?
Conferência de imprensa?!
Não foi um comunicado?
Tem toda a razão. Está rectificado.
Grato pela sua atenção.
Não tenho informação nem competência para o fazer, mas havendo quem tenha, gostaria de ver comentada a observação que ontem fiz em nsamento-da-semana-11785180?thread=95876 316#t95876316
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pe
Que grande chatice, nunca se tinha visto tal coisa.
E estava mesmo a dar muito jeito, já que dos fogos, tancos, pedreiras, e até da árvore do funchal, com provadas culpas directas nestes casos dramáticos, e agora foge desta tremenda, inexplicável, dramática pulhice de ser conivente e até beneficiário dos assaltos descarados ao bes e outros.
Que chatice, dava mesmo muito jeito. Isto não se faz ao povo.
Costa não está à altura da função.Exterioriza sem compostura o seu EGO em vaidade. O país pode arder todo, pode ficar (está )arruinado, podem morrer milhares que as tais supostas Habilidades que o pretendem mimosear os bajuladores dependentes do poder político, apagam tudo. País de cegos.
Também não são eles quem marca almoços no parlamento para celebrar as conquistas desportivas dos seus clubes com os senhores deputados.
Nem mais. Nunca percebi, aliás, por que razão isto… lá está… é chato ter dizer “por que razão isto é permitido”… quando não devia sequer acontecer, por razões óbvias de ética profissional — e ética da política, neste caso.
A explicação mais simples é a mais provável: é saloíce. Estes tipos são todos saloios. E nota-se.
Este texto defende a Republica das Aparências e parece apenas uma capa de pretensão para defender uma distância digamos quasi Salazarista que não pode existir no tipo de regime que temos.
Não estamos em Democracia Socialista para todos e todos tentam manobrar o esse Estado Socialista para tirar dinheiro ao vizinho?
Recebe-se o patrão , o sindicalista, o “artista”, e tutti quanti, mas não os “gajos da bola”? São uma raça à parte?
Quer o autor queira quer não, o futebol é uma das maiores identificações do país como país, talvez até a única com força que resta.
Como explicar que o autor não quer o PM Costa como membro de uma comissão de eleição partidária de um clube mas quer uma Democracia Socialista onde naturalmente funciona a lógica Populista e onde cada vez mais a política está em tudo?
Se a política está em tudo é evidente que tudo também está na política…
lucklucky