Ainda sobre a educação para a cidadania


Paulo Sousa,

Já depois de o assunto aqui ter sido postado e comentado, tropecei num desabafo no Facebook em que uma defensora da obrigatoriedade da frequência da referida disciplina se queixava de ter crescido numa aldeia católica, retrógrada e patriarcal e que sabia bem o que lhe tinha custado emancipar-se, acrescentando que: “O que teria sido de nós, sem uma escola pública aberta e democrática?” Quando comecei a ler esta frase achei que ia sair algo do género: “O que teria sido de nós, sem as aulas de Educação para a Cidadania?”

Ora se os efeitos de uma emancipação numa terra pequena como a descrita possam ser traumáticos, o que em certas combinações de comunidade e familia admito que o possam ser, isso, o trauma, não legitima que se possa ser hoje tão impositivo como impositivo era a situação anterior.

As mentalidades não se mudam de um dia para o outro a toque de decreto de lei e ameaça de polícia, antes pelo contrário. Será muito mais eficaz ambicionar por uma evolução serena e saber esperar. Não o fazer equivale a protagonizar um comportamento simétrico ao do radicalismo que se quer combater. Se as ideias que estão em causa são válidas e sólidas, o que não é o ponto do meu texto, acabarão por naturalmente se impor.

13 comentários em “Ainda sobre a educação para a cidadania”

    1. Se a prazo, com a evolução da espécie, todos acabaremos por alinhar nessas matérias, obrigar quem não está convicto a ter de ser subjugado a essa crença… alimentará apenas o efeito contrário.

      1. Quais as matérias a que o Paulo se refere?

        A meu ver (opinião humilde e de um pai que vai ter uma filha este ano no 5ano) o currículo é bastante vasto e a maior parte dos assuntos é extremamente importante nos dias de hoje:
        https://cidadania.dge.mec.pt/dominios

        Vá lá, sejamos sinceros. Existe um grande aparato por um dos assuntos ser a “Igualdade de Género”. Se não estivesse lá tudo era pacífico.

        Enquanto pai, nenhum assunto me choca e não será, com certeza, por uma disciplina que os meus filhos serão levados a seguir qualquer ideologia/crença, mas isso sò sou eu.

        1. Alinho nessa regra, embora apenas acrescente que se alguns pais o pretenderem possam ter direito de escolha. Nem que fosse apenas para evitar todo este granel por tão pouco.

          1. É um granel feito por pessoas que não têm nada que fazer na sua vidinha. Haja paciência para tanta confusão! É bom que o pessoal discuta estes assuntos mas com conhecimento de causa e sem tabus.

            Mais uma vez uma opinião meramente pessoal.

            Eu não concordo com o direito de escolha a esta disciplina. Se formos por aí qualquer dia todas têm que ser opcionais. Se existir um pai que ache que a terra é plana não vai querer que o filho frequente Geografia porque ensinam ao filho o contrário.

            Muitos dos que querem que a disciplina seja opcional são apenas os que acham que o bicho papão da esquerda quer impor a igualdade de género como ideologia (se isto alguma vez faz parte da ideologia de algum partido).

            Bom, vou para a janela ver passar a próxima moda das redes sociais

        2. Se a sua filha for inteligente; se tiver apoio em casa para esclarecer dúvidas, se estiver integrada num qualquer grupo que lhe possa oferecer o contraditório; então, se isso tudo se verificar, a sua filha pertencerá aos 10 ou 20% (muito optimista) que não serão formatados à esquerda ou mais simplesmente, a rejeitar a qualquer discurso de direita.

          Além da Igualdade de género, Direitos Humanos, Interculturalidade, Desenvolvimento sustentável, Educação ambiental, Instituições e participação democrática, Empreendedorismo e Mundo do Trabalho (e até outras como Saúde), dependem fortemente do professor que as abordar.
          Hoje, as grandes divisões concepcionais são mais Estado vs. menos Estado no campo da organização política e imposição legal vs. liberdade de escolha na filosofia política.
          Essas matérias irão ser abordadas de forma variada em escolas privadas mas sob a batuta do ministério (fichas, formações, fiscalizações) e pela natural inclinação da maioria dos professores/funcionários públicos de forma orientadamente esquerdista.

          Como meros exemplos, perguntas ou meras sugestões de como é possível um desenvolvimento sustentado quando os grandes interesses financeiros esgotam os recursos do planeta; ou como preservar um ambiente enquanto as grandes petrolíferas têm interesse no crescimento do transporte privado.

          A questão é que o confronto marxismo/capitalismo raramente é assumido directamente. Inteligentemente os teóricos marxistas aliam-se a causas que desgastem, ataquem ou minem o capitalismo (alguém acredita que o partido os Verdes é mais do que uma emanação do PC?); o ministério da Educação está dominado por marxistas aliados a maçons, e os professores públicos têm forte interesse corporativo em afastar seja o que for que possa levar à comparação ou mesmo escolha pelo ensino privado, o que os torna os instrumentos perfeitos.

          A Igualdade de género é assunto demasiado complexo para ser abordado num comentário com limitação de espaço mas não quero terminar sem lhe dizer que, se fosse pai de de uma aluna prestes a entrar no 5º ano, eu exigiria conhecer a preparação específica e inquirir, pessoalmente ou integrado numa associação de pais, o professor que lhe iria leccionar Sexualidade.

          Mas, infelizmente, reconheço que é mais fácil não pensar nisso e deixar andar que, alias, é a formatação dos pais desde o Estado Novo e se calhar, já anteriormente: não se preocupem nem discutam porque é o Estado que está cá para resolver.

        3. Sobre a igualdade de género…

          Igualdade não é nem tornar tudo igual nem sequer tratar tudo de maneira igual. Filosófica e racionalmente, igualdade consiste em tratar igualmente aquilo que é igual e desigualmente aquilo que é desigual.
          Como já aqui comentei, a igualdade não é um princípio. Na realidade é uma aplicação do princípio da justiça, que consiste em dar a cada um aquilo que lhe cabe; completando-se com a noção de que, não havendo no mundo apenas coisas boas, tão injusto é apropriar-se de mais coisas boas do lhe competia como furtar-se à sua quota-parte de coisas más.

          Não vou discutir a existência de dois sexos – ignorando excepções e indeterminações que teriam de ter tratamento diferenciado – nem o facto de ambos partilharem a mesma dignidade. Creio que, ressalvadas as excepções, esta formulação – dois sexos que partilham a mesma dignidade – é comum a esquerdas e direitas.

          Apesar de me parecer intuitivo e de inútil discussão, realço que homens e mulheres, têm de facto algumas características diferentes; mais uma vez para a grande maioria dos casos e devendo as excepções ter tratamento diferenciado.
          Encontro diferenças de ordem física – por exemplo, menor estatura, menor potência muscular, maior resistência dos ossos da bacia, maior longevidade – de ordem mais fisiológica – maxime tudo o relacionado com sexualidade e aparelho reprodutor – e também de ordem mental, de que cito a célebre obra de John Gray “Os Homens são de Marte, as Mulheres de Vénus”.

          Portanto, sendo homens e mulheres diferentes, na vida real a consubstanciação da identidade de dignidade não pode ser conseguida pela igualdade de tratamento mas antes por uma justa desigualdade.
          Têm as esquerdas e as feministas razão, quando dizem que a mulher não está a ser tratada de forma justa e eu sou o primeiro a concordar. E, muito lamentavelmente, desconheço doutrinas das direitas que, com consistência, se proponham corrigir esta injustiça.

          Independentemente de aspectos parciais e ligados sobretudo à materialidade – remunerações e percentagens em orgãos directivos – já será discutível se, tudo considerado, qual dos sexos detém efectivamente a posição dominante. Bem sei que as esquerdistas, olham ou dizem olhar para a maternidade como um fardo mas, lá no fundo e por vezes sem coragem de o confessar, muitos homens nutrem sentimentos de inferioridade por aquela lhes estar negada. E, sendo naturalmente controverso, o livro de Esther Vilar “O Homem Subjugado” aponta aspectos que são difíceis de negar.

          Mas a esquerda, reduz a questão à “Igualdade de género” que reune a falsidade à falácia pelo que é de rejeitar liminarmente. Simplificando, exigem carreiras com igual ordenado e iguais promoções automáticas e, verificando que nessas condições, os empresários tendem a só contratar homens, logo querem impor um sistema de quotas obrigatórias.
          Propor “a trabalho igual, salário igual” soa muito bem mas, aprofundando, pergunta-se se a mulher pode efectivamente fazer o mesmo trabalho do que o homem e, se nalguns domínios puder, se o esforço dispendido será o mesmo. Com certeza que há muitos domínios em que o podem fazer mas a minha experiência de vida diz-me que em grande número de actividades isso não é possível.

          Sem advogar nem sequer aceitar que se possa continuar a protelar a injustiça mas não tendo tempo nem espaço para desenvolver pela positiva, a verdade é que a simples expressão “Igualdade de género” é e não pode deixar de ser uma afirmação ideológica de esquerda, sendo assim inconstitucional a sua inclusão em programas escolares muito menos numa cadeira obrigatória, cujas avaliações irão contar para o aproveitamento do aluno.
          Tal como estou certo que irá acontecer no domínio da Saúde em que, possivelmente evitando o termo eutanásia, se irá advogar a “morte assistida”, também uma coisa “muito boa” pois todos desejam morrer sem dores e acompanhados por entes queridos.

  1. “O que teria sido de nós, sem uma escola pública aberta e democrática?”

    Não é aberta, só tem um pensamento, não é democrática só aceita um comportamento.

    Todos os dias temos a prova na morte da criatividade (também) por causa da escola publica aberta e democrática para a mediocridade só cria clones.
    Existia mais criatividade na “ditadura cinzenta” do Estado Novo do que hoje.

    “Não o fazer equivale a protagonizar um comportamento simétrico ao do radicalismo que se quer combater.”

    As aulas “educação para a cidadania” são extremistas.

    lucklucky

    1. Eu acho que as pessoas em geral e os jovens em particular não são burros. Vai daí que, tal como acontecia com a aulas de Religião e Moral, vulgo Ratos Mortos, até se podem sair a rir à gargalhada das aulas e das suas matérias, mas até Religião e Moral era facultativa…
      Extremista não serão as matérias, mas a sua obrigatoriedade.

  2. se queixava de ter crescido numa aldeia católica, retrógrada e patriarcal

    LOL

    Evidentemente aprendeu na escola pública a desconstruir essas barbaridades com as ferramentas do plataformismo. Apanhar matéria é que foi mais difícil.

  3. JÁ NÃO HÁ VIRGENS! JÁ NÃO HÁ VIRGENS!
    E já não há virgens nem do sexo feminino nem do sexo masculino por causa dessa treta da igualdade de género com que nos tentam doutrinar nas aulas de cidadania e mais não sei lá o quê!
    JÁ NÃO HÁ VIRGENS! JÁ NÃO HÁ VIRGENS!

    1. Converta-se e torne-se num bombista suicida e terá 70 (nunca percebi é se vêm acompanhadas de 70 sogras).
      A crise já vem de longe. Há muitos anos, no porto de S. Vicente havia uma escultura em pedra de uma enorme águia. Diziam os locais que se uma rapariga chegasse virgem aos quinze anos a águia levantava voo. Já não em S. Vicente mas ainda em Cabo Verde, definia-se virgem como uma rapariga de 12/13 anos, … feiazinha!
      E na cosmopolita Cascais – uma das razões para gostar de Portugal – em posição privilegiada sobra a baía, havia uma pensão com trepadeiras de vinha virgem e exactamente assim chamada, que gozava das preferências de jovens turistas inglesas. Depois de numa noite, terem afixado um cartaz, passou a ficar conhecida por “Vinha mas já não volta”.

      1. Pelo que disse no 1º parágrafo, estou em crer que para os radicais do EI (mas apenas a “franja” composta por homens heterossexuais):
        PARAÍSO = 70 virgens, SEM sogras a acompanhar.
        PURGATÓRIO = 70 virgens + respetivas 70 sogras.
        INFERNO = 70 sogras ( as mães das virgens destinadas ao sortudo que foi para o Paraíso).
        As coisas que uma pessoa aprende, só por comentar num blog…

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