Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro cinco: Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro

Edição Objectiva, 2018

229 páginas

 

Os erros de escrita – não corrigidos nem sancionados – tornaram-se de uso corrente, até em publicações outrora consideradas de referência. E são cada vez mais raros aqueles que se dão ao incómodo de censurá-los. Desde logo por absoluto desconhecimento da norma, num tempo em que a ignorância impera e até se atreve a ditar sentenças.

Este livro rema contra a corrente, precisamente Por Amor à Língua. Didáctico, sem nunca ser maçador. Acutilante, sem ser arrogante ou presumido. Muita gente deveria tê-lo como obra de cabeceira. Para evitar lapsos lexicais, sintácticos e ortográficos, cada vez mais frequentes.

Manuel Monteiro – escritor e formador na área da revisão de textos – foi anotando, no exercício da sua actividade profissional, algumas falhas mais frequentes, que aqui anota em benefício de todos. O esbanjamento de adjectivos, que devem ser usados com parcimónia. O desgaste do verbo ser – como se não existissem outros. A invasão de pleonasmos (“sorriso nos lábios”, “elo de ligação”, “surpresa inesperada”). O uso e abuso de lugares-comuns. A proliferação de cacofonias (“boca dela”, “fica agora”, “uma mão”). A desmedida multiplicação de pronomes pessoais, possessivos e relativos. O emprego até à náusea de pontos de exclamação e reticências («Um ponto de exclamação é como rires da tua piada», alertava Scott Fitzgerald).

Preservar este secular idioma passa pela revalorização de vocábulos antigos e pelo combate ao portinglês que nos invade, mesmo quando surge disfarçado de português (é o caso do anglicismo “evento”, hoje omnipresente). E por darmos luta sem tréguas ao chamado “acordo ortográfico”, que decretou a separação de famílias lexicais (lácteo mas laticínio, epilético mas epilepsia, tato mas táctil), inventou termos aberrantes (como corréu em vez de co-réu ou conavegador em vez de co-navegador) e substituiu a regra pelo arbítrio (uma trapalhada em que materno-infantil coexiste com infantojuvenil, bissetriz com trissectriz, cor-de-rosa com cor de laranja).

«Evitamos assim que a nossa escrita se junte à massa indistinta de fotocópias de fotocópias de fotocópias», preservando a memória das palavras e resistindo à uniformização, conclui Manuel Monteiro. É uma boa causa: a língua portuguesa merece.

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Sugestão 5 de 2016:

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d’ Água)

Sugestão 5 de 2017:

Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Sugestão 5 de 2018:

Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 5 de 2019:

Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)

36 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. o anglicismo “evento”

    “evento” é um anglicismo??? Creio que é uma palavra bem portuguesa, que significa “acontecimento”.

        1. Informou-se mal, o que não admira. Dicionários online são refeitos a toda a hora e neles cabe sempre mais um significado e mais um termo, português ou estrangeiro, nem que tenha sido impresso no jornal da antevéspera.
          Escolha melhor as suas fontes antes de falar do que não sabe.

        2. Tentando esclarecer: “evento” é um neologismo/anglicismo se ou quando usado com o significado de: actividade planeada com um especial propósito, e que normalmente envolve a participação de um considerável número de pessoas como, por exemplo, uma conferência, um certame, uma festa, uma exposição.

          1. Tal como atualmente em 95% das ocasiões os jornalistas utilizam “disparar” como sentido de “aumentar”, e utilizam “arrasar” com o sentido de “argumentar fortemente”.

          2. Obrigado pelo esclarecimento. Eu sabia que era isso que estava em causa. Mas:
            (1) Tal como eu disse, a palavra “evento” não é um anglicismo, ela sempre existiu em bom português.
            (2) Em inglês a palavra event também sempre existiu com o mesmo sentido “acontecimento” que em português.
            (3) Portanto, não se trata, nem na língua portuguesa, nem na língua inglesa, de uma palavra nova, importada ou criada. Trata-se somente da apropriação de uma palavra pré-existente na própria língua para lhe dar um novo significado. E essa apropriação tanto ocorreu no português como no inglês.

          3. Agora há até uma obra (em português) intitulada “Grandes Eventos da Antiguidade e da Idade Média”.
            Título que já diz tudo sobre a qualidade deste canhenho.
            Coisa mais ridícula, esta ditadura dos “eventos” de importação.

  2. Já nasceu a Primavera,
    já dos prados brotam flores.
    E da teia que o evento tecera,
    corações dilacerados d’amores.

  3. Esse livro de bem escrever parece-me recomendação com interesse. E, no entanto, apesar dele, há prosa repetitiva que só assim ganha sentido; e pleonasmos que enriquecem; e adjectivos que esclarecem; e não faltam autores consagrados onde abundem.

    1. Alguns pleonasmos podem ter intenção irónica. Ou satírica. Em termos gerais, duvido muito que “surpresa inesperada”, “entrar para dentro”, repetiu duas vezes” e outros que tais enriqueçam seja que texto for.

      1. Acabo de ouvir mais um, aliás muito frequente: “pequenos detalhes”. Outro, papagueado todos os dias nas televisões “breve pausa”. Isto já sem falar nas “duras críticas”, que se tornaram um intragável lugar-comum.

          1. Confundes poesia do século XVI com linguagem corrente do século XXI: isto só demonstra que fazes muito bem em permanecer anónimo.

        1. Se vamos ao Luís Vaz, também encontramos um exemplo clássico de cacofonia: «Alma minha, gentil que te partiste…»

          Mas não vamos desatar a escrever “boca dela”, “uma mão” ou “o nosso hino” por causa disso.

      1. Também eu. Um amigo ofereceu-me quando saiu. Li e pensei em fazer um postal a chamar a atenção … Preguicei. Ainda bem que chamaste a atenção.

  4. Há milhares de burrices nefastas ditas todos os dias nas tevês que depois as pessoas reproduzem infinitamente porque… enfim… porque há 6 milhões de benfiquistas.

    Alguns exemplos:

    No dia de hoje — é o pleonasmo mais burro de todos desde que o senhor de La Palice se viu ao espelho. É um espanholismo como um outro espanholismo mais antigo e não menos estúpido: desde Lisboa, desde Madrid. O dia de hoje foi importado por um comentador meio-atrasado da Volta à França na Eurosport e pegou como fogo no mato. Agora qualquer besta anormal repete isto como se estivesse muito bem dito.

    aconteceu rápido, subiu rápido… É subiu rapidamente. Isto aqui precisa de um advérbio, pode estar bem no Brasil, eles lá não se importam de abandalhar tudo, mas por cá está errado. Os comentadores da bola, de todos os anormais que andam por aí, são os piores: repetem isto até à exaustão)

    ouvir mais alto… “Ouvir mais alto”, minha besta??!! É ouvir melhor, ó palhaço)

    A bolsa afundou 2% Afundou o quê, meu macaco?? Afundou os 2%?? Não. Os verbos transitivos precisam de complemento directo: é uma acção feita sobre algo/alguém. Como foi a própria bolsa que se afundou, o verbo tem de ser reflexivo: a bolsa afundou-se 2%. É a mesma história daquela citação do Barreto no outro dia.

    Etc, etc, podia estar aqui a noite toda, mas não me pagam para isto. Estudem, pá. Não, não, espera aí, melhor ainda: fechem o bico, caneco. Calem-se, não digam nada, nem escrevam nada. Ai, era tão bom.

    1. “Ao dia de hoje”, absurda expressão de recentíssima importação castelhana, é uma das aberrações que vamos ouvindo em doses galopantes por aí.
      Se há pleonasmo pleonástico (passe o pleonasmo), é este. Aliás também criticado em Espanha, por escritores como Javier Marías, na sua coluna dominical do “El País”.

      Outra aberração é a tradução literal de expressões idiomáticas inglesas, a mais frequente (e recente) das quais é “ao fim do dia”.
      De repente, toda a gente desatou a dizer “ao fim do dia” – parece que correram todos ao Google Tradutor para sacar esta frase martelada, que nada significa em português. “At the end of the day”, em inglês, significa “em suma”, #em conclusão”, “no fim de contas”, “ao fim e ao cabo”.

      Com esta mania da tradução literal das expressões idiomáticas inglesas, não tardará muito que alguns imbecis digam também por cá que “chovem gatos e cães”.
      Já faltou mais.

      1. Outra importação recente é o “so good” americano: a um não sei quê, não sei quê responde-se com o corolário: “tão bom”. Mas, enfim, nesta não existe nada de fundamentalmente errado.

        Uma que já me parece disparatada é um chavão jornalístico recente que, ao que tudo indica, não vai longe — talvez porque é verdadeiramente não-significante: algures num piso higienizado e sem glúten da SIC, alguém se lembrou de traduzir timeline por fita do tempo.

        Até poderia ser uma importação com alguma utilidade, mas por vários motivos de ordem cultural acaba por ser um corpo relativamente estranho ao mesmo tempo que é o exemplo acabado de uma tradução que tem qualquer coisa de absurdo.

        1. A propósito de chavões jornalísticos: já vomito o “pôr em cima da mesa” e o “deu um murro na mesa”. Coitada da mesa, com tanto peso em cima e tanto murro que lhe dão.
          Pior talvez só o “à beira de um ataque de nervos”, que serve para qualquer título quando os neurónios entram em greve.

          1. al borde de un ataque de nervios estiveram as mujeres de Almodóvar.
            As de Almodôvar nunca estão.

      2. Sempre ouvi traduzir “eventually” por eventualmente quando deveria ser finalmente.
        Outra que se propagou como fogo em mato seco foi o “há uns anos atrás”, graças ao “ago”.
        A última moda é o gigantesco ter dado lugar ao gigante.
        Estou a ponderar comprar este livro
        🍁
        Maria

        1. “Anos atrás” pegou como vírus. Até políticos adoram falar assim. Alguns devem supor que se tornam mais “doutorais” quando põem “atrás” a reboque dos “anos”.

          Um célebre jornalista antigo, há muitos anos, ensinou-me que nunca é preciso falar assim: «Toda a gente sabe que o ânus fica atrás.»

  5. Um livro que faria todo o sentido ser lido nas escolas. Mas para o entender convém ter hábitos de leitura, receio. E de escrita escorreita. Isso e algum orgulho na língua-mãe, coisa muito acima – ou que deveria estar muito acima – de mera “ferramenta”.

    Mas não parece que o ensino os procure gerar. Nem o ensino nem tudo o resto.

    Costa

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