Miguel Ângelo: «Gosto de ser conduzido»


Pedro Correia,

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«Devíamos ter uma pontualidade mais britânica para podermos fazer outras coisas na vida. Irrita-me quando me fazer esperar»

 

Distinguiu-se como vocalista dos Delfins, que deram o “último concerto” em 2009 mas voltaram a reunir-se para um espectáculo especial dez anos depois e já anunciaram o regresso à estrada. Ao telefone, foi cordato e afável. Assumindo-se como sportinguista, leitor de Saramago e apreciador de Charlotte Gainsboug.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo que o céu me caia em cima da cabeça.

Gostaria de viver num hotel?

Não me importava nada. Gostava de viver num hotel, como a Beatriz Costa. Tem o seu quê de romântico e não me parece nada mau haver quem nos faça a cama todos os dias.

A sua bebida preferida?

Sumo de laranja natural. Sem açúçar e sem conotações políticas.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho. Suponho, aliás, que todos acabamos sempre por ter alguma pedra no sapato. Em finais dos anos 90 tive a possibilidade de viver parte do ano no Brasil e não aproveitei.

Arrependeu-se?

Arrependi-me um bocadinho.

Que livro anda a ler?

Acabei ontem de ler o Caim, de José Saramago.

E gostou?

Sim. Gosto de alguns livros de Saramago. Entre outros motivos porque considero que ele temum invulgar sentido de humor, um aspecto que não tenho visto muito sublinhado.

A sua personagem de ficção favorita?

Sempre gostei muito das personagens do Marlon Brando, um dos meus actores de eleição. Ele fazia sempre a mesma personagem de filme para filme.

Que filmes com Marlon Brando destaca?

Achei-o excepcional como coronel Kurtz, em Apocalypse Now. Também acho inesquecíveis os desempenhos dele em filmes como A Revolta na Bounty e Há Lodo no Cais.

Rir é o melhor remédio?

Provavelmente. Mas não contra a gripe.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Creio que foi hoje: senti as lágrimas a correrem-me pela cara. Mas como estava a chover imenso talvez fosse mesmo da chuva…

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Como não tenho carta de condução, não me resta alternativa. Gosto mesmo mais de ser conduzido.

Transgredir é bom?

Nunca fui pessoa com temperamento para transgressões. Gosto mais de subverter por dentro.

Qual é o seu prato favorito?

Pato à Pequim. É óptimo.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Tal como acontece com a maioria dos portugueses, acho que é a gula.

A sua cor preferida?

É o verde.

No futebol também?

Sim. Tenho uma canção, intitulada A Cor Azul, que às vezes foi um pouco mal interpretada.

Costuma cantar no duche?

Não. Costumo ouvir rádio enquanto tomo duche. É praticamente a única altura do dia em que ouço rádio.

E a música da sua vida?

Heroes, de David Bowie.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

No início dos anos 90 correu o boato que tinha sido encomendado um novo hino nacional à Resistência. Foi pena que não tivesse passado de um boato. Não seria má ideia substituir este texto bélico.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com o Bob Dylan. Mas, se calhar, não falaríamos muito.

As aparências iludem?

Por acaso acho que não. Muitas vezes, olhando para a cara, conseguimos ver a alma das pessoas.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Deixar uma senhora à espera na mesa do jantar.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Gosto muito de usar chapéus. Até porque não uso chapéus-de-chuva.

Qual é o seu maior sonho?

Olhar para o planeta bem lá de cima.

E o maior pesadelo?

Ser enterrado vivo.

O que o irrita profundamente?

Não sou uma pessoa de grandes irritações. Mas às vezes fico stressado com a falta de pontualidade. Tenho a noção de que devíamos ter uma pontualidade mais britânica para podermos fazer outras coisas na vida. Irrita-me quando me fazem esperar.

Qual a melhor forma de relaxar?

Um bom banho de imersão.

O que faria se fosse milionário?

Ajudava outras pessoas a ser milionárias.

Uma mulher bonita?

Charlotte Gainsbourg.

Acredita no paraíso?

É como com a felicidade: acredito em momentos de paraíso.

Tem um lema?

Contem comigo.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (16 de Janeiro de 2010)

7 comentários em “Miguel Ângelo: «Gosto de ser conduzido»”

  1. Achei uma entrevista muito natural do Miguel Angelo, eterno Betinho de Cascais.
    Registo o Pato à Pequim revelador de uma certa veia comunista.

    O Sumo de laranja natural será verdade!?!
    Para uma estrela da música, cheio de cachopas aos saltos com vontades hoteleiras.

    Charlotte Gainsbourg???

    O Miguelito arma-se em pudico, menino que não parte um prato e depois pimba é logo com aquela ninfomaníaca hard-core 1 escalão.

    Sim senhor!!! lá está o querer viver no “Hotel da felicidade” é umas a sair e outras a entrar, quase um paraíso.

    Terminar com “contem comigo” em vez de cantem comigo!
    Que dizer deste rato Mickey!…

    Este Miguelito é um artista cheio de arquitectura paisagística,gosta do verde mas de franguinho não tem nada.

    João Abelho

  2. Par toutatis, Pedro, gostei muito desta entrevista
    Fui grande fã dos Delfins e do Miguel Ângelo, mas desconhecia ter tantas afinidades: Bowie, Dylan, Saramago, pontualidade, Brando, etc., etc.
    Que venha o próximo.
    🍀
    Maria

  3. Gosto deste cantor
    Gostei destas respostas:

    Ser enterrado vivo. ( porque tenho medo,também,quero ser cremada)
    Irrita-me quando me fazem esperar.( passo-me!)
    É como com a felicidade: acredito em momentos de paraíso ( sem dúvida,os momentos).

  4. Tb gosto do Miguel — independentemente de ser do meu clube até porque não ligo a clubes.

    E caramba quem diz isto da forma mais simples possível,

    Tem um lema?

    Contem comigo.

    não é com certeza um caramelo qualquer.

  5. Sempre gostei muito deste “Delfim” .,. (e também dos outros, claro).
    Ainda bem que esta entrevista não me decepcionou.

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