Leituras


Pedro Correia,

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«Velar e rondar é a condição oculta do destino de certos seres, mesmo nas noites mortas, nas noites infinitamente sós.»

Orlando da Costa, Podem Chamar-me Eurídice… (1964), p. 61

Ed. Avante!, 2019

Um comentário em “Leituras”

  1. Hoje acordei poeta e provocador. E o mote da provocação era precisamente perguntar: “você” é capaz de ficar sozinho? E a frase seleccionada da obra do autor é o pretexto ideal para esta provocação poética.

    Schopenhauer usou a metáfora do porco-espinho para estimular seu pensamento à reflexão disto que é estar só.
    Observava ele no Inverno que os porcos-espinhos por sentirem frio se aproximavam uns dos outros. Porém, de cada vez que se aproximavam, afastavam-se de imediato, pois o contacto feria-os devido aos espinhos. Mas o frio era tanto que fez com que este comportamento de aproximação e afastamento se repetisse indefinidamente.

    O mito da criação, em Génesis, diz-nos que Deus achava que não era bom o homem ficar só. Foi Deus que começou por achar. Não obstante ser colocado este pensamento em Deus, o aspecto substantivo que subjaz é o de que a criação sempre foi constituída por macho e fêmea. Logo, no humano o mesmo princípio devia ocorrer.
    E acrescenta: Adão caiu num profundo sono – ao homem ocorrem sempre acontecimentos chatos enquanto dorme – e Deus, de uma costela, isto é de sua própria carne (de Adão), fez a mulher. E acrescenta ainda: Adão, quando a viu, sentiu-se satisfeito.
    Portanto, aparentemente estava resolvido o problema da solidão e de o homem estar só. Situação esta que não existia na realidade, pois Adão já vivia no paraíso. Porém ele aceitou, achou que era bom e consentiu a presença da companheira, Eva (mulher).
    O que é que isto tem que ver com o comportamento dos porcos-espinhos?

    Simples: da mesma forma que estes se aproximavam para se aquecerem e encontravam a dor dos espinhos que os afastava, permaneceram e ainda permanecem nesta sequência de aproximação e afastamento ou de afastamento e aproximação (a inversão dos factores é propositada).

    Adão achou ser bom a companheira que lhe foi oferecida; até ao momento em que surgiram os espinhos: perdeu o paraíso, vendo-se forçado a buscá-lo por toda a sua vida, e, pior ainda, ocorreu em seu filho Caim o primeiro homicídio conhecido.
    Nota: Sob um ponto de vista legal e espiritual não acredito que possa ser considerado homicídio, pois neste mito ainda não havia conhecimento por parte do homem da morte e o que representava a morte.

    Assim, a questão do estar só, que também é bom, diz respeito somente a uma questão de dependência e de se desconhecer o sentido da palavra amor. O amor não depende, porque se o homem/mulher depender de alguém para amar, ele ou ela não amam, dependem do amor de outro para seu próprio consolo. E isto é egoísmo.
    Uma vez mais, logo, como o amor se basta a si mesmo e se entrega por isto mesmo, o Deus Amor ou o Amor de Deus é o que o homem deve buscar para nunca se sentir só, mesmo que possa estar. E este Amor de Deus, se formos teimosos, obteremos para nós mesmos.

    Bom fim-de-semana e deixem-se merdas!

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