Amar ou odiar, ou tudo ou nada


Pedro Correia,

 

“Uma pequena história narrada numa escala épica.” A definição é de Barry Norman, um dos mais prestigiados críticos de cinema britânicos, e parece a que melhor capta a essência deste filme desmesurado, que transcende todos os padrões do cinema conhecido no final da década de 30, e de algum modo antecipou tendências: E Tudo o Vento Levou funciona como raiz ancestral de todas as ficções telenovelescas que se tornaram uma maçadora banalidade dos nossos dias. A receita não voltou a pegar. Reveja-se O Gigante (George Stevens, 1956), por exemplo: não há comparação possível.

A diferença reside no carácter pioneiro desta ficção que pretende celebrar os “valores” sulistas dos EUA totalmente ao arrepio da torrente da história na América progressista de Franklin Roosevelt: há um certo charme neste assumido anacronismo. E é também uma questão de escala: tudo foi concebido em grande pelo produtor do filme, David O. Selznick — megalómano, ególatra, dotado de uma tenacidade quase lendária, produtor ímpar da era de ouro do cinema norte-americano.

 

Selznick só sabia mesmo pensar em grande. Para ele, mais era sempre sinónimo de melhor: nunca se contentou em ficar a meio caminho. Reuniu a maior equipa técnica, o maior naipe de figurantes, o maior número de estrelas. Conseguiu o maior número de nomeações (onze, obtendo um total de oito estatuetas) para os Óscares de Hollywood. E sobretudo alcançou a maior receita de bilheteira: se actualizarmos o valor da inflação, E Tudo o Vento Levou foi provavelmente o maior campeão de bilheteira de todos os tempos.

O génio empresarial de Selznick ficou logo patente nessa brilhante jogada publicitária que foi a escolha do elenco para o filme, estreado no cinema Fox, em Atlanta, a 15 de Dezembro de 1939. Todas as actrizes conceituadas da época e muitas aspirantes ao estrelato, de uma forma ou outra, manifestaram interesse em conseguir o papel principal, o de Scarlett O’ Hara.

A lista, para não variar neste empreendimento, era quilométrica: Bette Davis, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Paulette Goddard, Joan Bennett, Greer Garson, Norma Shearer, Loretta Young, Lana Turner, Irene Dunne, Ida Lupino, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Miriam Hopkins, Talluah Bankhead, Carole Lombard, Anita Louise, Ann Sheridan, Claudette Colbert, Susan Hayward, Margaret Sullavan, Frances Dee, Catherine Campbell. Um megaconcurso de testes cinematográficos que acabou por servir de rampa de lançamento para a fama de uma britânica de 25 anos, em início de carreira. Chamava-se Vivien Leigh.

 

Sem ela, E Tudo o Vento Levou não seria o que foi. Não seria o que é. Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória. Com a sua força de carácter, a sua vivacidade, o seu apego tenaz aos valores familiares, à herança do sangue, aos vínculos afectivos à terra-mãe. Numa das cenas mais marcantes do filme, o pai de Scarlett, Gerald O’ Hara (grande interpretação de Thomas Mitchell, um dos secundários mais talentosos de Hollywood), diz-lhe: “A terra é a única coisa do mundo por que vale a pena lutar ou morrer.”

Ela faz desta frase um lema de vida. E remete tudo o resto a um plano inferior, fiel ao juramento que fará mais tarde: “Deus é testemunha que não deixarei ninguém derrotar-me.” Indiferente aos ventos da história, que sopram implacáveis contra o orgulhoso Sul tão bem descrito pelo capitão Rhett Butler (Clark Gable) em vésperas da eclosão da guerra civil norte-americana: os sulistas, sublinha ele, “só têm palavras, escravos e arrogância”.

 

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Olivia de Havilland (1916-2020)

 

Guerra e amor, os dois maiores condimentos do cinema clássico, estão presentes em Gone With the Wind. Mas o que mais prende a atenção do espectador, num filme que tem largas dezenas de personagens, é o destino de um quarteto: Scarlett, Rhett, Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley. Personagens convictas, cada qual a seu modo, de que aquela guerra significaria “o fim do nosso mundo”, como um angustiado Ashley (Leslie Howard) diz à sua apaixonada Scarlett em vésperas da mobilização geral no Sul.

Ironias do destino: no momento em que o filme estreou, também na vida real se travava uma guerra que mudaria para sempre a face do mundo. E o britânico Leslie Howard estaria envolvido nela, como agente de Churchill, acabando por ser abatido em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol, pela aviação nazi.

 

Selznick, um homem que gostava de mulheres, estava certo: sem o fabuloso desempenho de Vivien Leigh, E Tudo o Vento Levou seria quase uma ficção banal. A belíssima britânica faz toda a diferença em cada cena da longa-metragem, transmitindo-lhe uma autenticidade quase inigualável na história do cinema. Não foi por acaso que recebeu o Óscar, suplantando os colegas do sexo masculino: Howard parece sempre um pouco deslocado neste filme e Gable limita-se a fazer o papel de… Gable.

Vivien só encontra aqui duas competidoras à altura do seu talento. Ambas negras, ambas vítimas do racismo sulista que não as deixou brilhar na memorável estreia de Atlanta: Hattie McDaniel, no papel de Mammy, e Butterfly McQueen, no papel de Prissy (que gozaria enfim de um merecido destaque nas celebrações das bodas de ouro do filme, em Dezembro de 1989).

 

E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O’ Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais — os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?

Qual o segredo de Selznick para que este filme de 1939 parecesse muito à frente da sua época e ainda hoje permaneça no imaginário dos espectadores? O segredo de sempre: soube rodear-se dos melhores. Entre a equipa de argumentistas, por exemplo, figurou um tal Scott Fitzgerald. Capaz, como outros, de reduzir as 1037 páginas do romance de Margaret Mitchell, galardoada com o Pulitzer, para cerca de um terço. Por uma vez sem exemplo, less was more.

 

Comecei por falar em Selznick, acabo o texto também a invocá-lo. Porque nenhum outro grande protagonista do cinema como ele perturbou tanto a “política de autores” teorizada na década de 50 por alguns críticos franceses, que centravam as suas análises no realizador, apontando-o como o verdadeiro autor de um filme.

Selznick era uma carta fora do baralho: é dele que se fala ainda hoje, quando se fala de Gone With the Wind. O filme chegou a ter quatro realizadores: Victor Fleming, único que figurou nos créditos finais, George Cukor (responsável por algumas cenas marcantes, como a da discussão inicial entre Scarlett e Mammy), Sam Wood e o fotógrafo William Cameron Menzies. Mas é um filme de Selznick, sem sombra de dúvida. Num tempo em que o produtor concebia a obra de arte e o realizador era apenas o seu artífice. Outros tempos, outros costumes. Numa cena capital, Rhett diz para Scarlett: “É um momento histórico. Pode dizer aos seus netos como viu o Sul desaparecer numa noite.”

A última frase do filme, proferida por uma Vivien Leigh em estado de graça, é uma das mais célebres de sempre na Sétima Arte: “Amanhã será outro dia.” Verdade histórica, verdade cinematográfica. O facto é que o cinema não voltaria a ser o mesmo.

 

Gone with the Wind. Ou na versão portuguesa, que sempre preferi, E Tudo o Vento Levou. Já que estamos mergulhados num melodrama, carreguemos nas tintas melodramáticas. Como escreveu o poeta Fausto Guedes Teixeira, num poema que certamente Scarlett apreciaria: “Amar ou odiar / Ou tudo ou nada: / O meio termo é que não pode ser / (…) Amemos muito como odiamos já! / A verdade está sempre nos extremos / Pois é no sentimento que ela está.”

Às vezes convém trair a letra para permanecer fiel ao espírito. É o caso.

 

Texto reeditado em memória de Olivia de Havilland, agora falecida, aos 104 anos.

23 comentários em “Amar ou odiar, ou tudo ou nada”

  1. Ainda viveu o suficiente para ver o “seu” filme banido das transmissões televisivas por um bando de idiotas fascinantes.
    Que descanse em paz.

      1. Para o Luckluki

        Porque eu sou a Joacine e sei bem o que é ir ao cinema e não ser respeitada.
        Este filme incentiva o vento do sofrimento do irmão negro, e da altivez branca.
        Por isso não posso aceitar!

        Joacine Moreira

        1. “Este filme incentiva o vento do sofrimento do irmão negro, e da altivez branca.”

          Como?
          Parece-me que ao só permitir-se pensar na fragilidade negra a torna cega por exemplo para o conflito entre brancos no filme.

          E o filme ainda tem mais correntes e conflitos que esses.

          lucklucky

          1. Para o Lucklucki

            Já estou habituada ao discurso da negação, e sinceramente o que é esse conflito de brancos, quando o negro está aprisionado no pensamento e na liberdade de acção, o Lucklucki gosta muito de cowboiadas, quando o irmão negro é que deu duro no campo de algodão….

            Joacine Moreira

          2. É a Joacine que se porta como negacionista ao não querer responder à questão ou apresentar prova.

            “e sinceramente o que é esse conflito de brancos”

            Foi só a Guerra Civil Americana que acabou com os estados esclavagistas
            Não foi mais nenhuma outra civilização a não ser a branca que acabou com a escravatura.

            Foram os Ingleses com a Royal Navy e Anti-Slavery, foram os Ingleses a punir o reino do Dahomey e outros reinos africanos dedicados à escravatura.
            https://www.bbc.com/news/world-africa-53444752

            Se basta retratar a escravatura para ser racista como parece implicar então o que é um filme de piratas? ou de Romanos? Egipcios?

            Se realizar um filme com escravos brancos : estes escravos do século XIX será um filme racista?

            The Bombardment of Algiers (27 August 1816) was an attempt by Britain and the Netherlands to end the slavery practices of Omar Agha, the Dey of Algiers. An Anglo-Dutch fleet under the command of Admiral Edward Pellew, 1st Viscount Exmouth bombarded ships and the harbour defences of Algiers.

            There was a continuing campaign by various European navies and the American navy to suppress the piracy against Europeans by the North African Barbary states. The specific aim of this expedition, however, was to free Christian slaves and to stop the practice of enslaving Europeans. To this end, it was partially successful, as the Dey of Algiers freed around 3,000 slaves following the bombardment and signed a treaty against the slavery of Europeans. However, this practice did not end completely until the French conquest of Algeria.

            https://en.wikipedia.org/wiki/Bombardment_of_Algiers_(1816)

            Ou os Gregos escravizados pelos Turcos a quando da guerra de independência?

            lucklucky

          3. Isso é mentira!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

            Um filme de serie B, que só existe na sua cabeça de lucklucki.

            Joacine Moreira

  2. Sabe-se lá porquê, está muito longe de ser um “filme da minha vida”.
    Com a recente polémica, desperta uma vontade de o rever. Pode ter envelhecido bem.

    1. Se for visto em cópia nova, como eu o revi, confirmo: envelheceu muito bem. É espantoso como Olivia de Havilland sobreviveu mais de 80 anos à estreia do filme em que foi cabeça de cartaz..

  3. Meu caro, este seu “poema” é um hino à memória de Olivia de Havilland.

    Li o livro quando tinha uns 14 anos, e vi o filme mais tarde. É um daqueles filmes que faz jus ao livro, não defraudando as expectativas.

    Curiosamente há uma série que passou na Netflix chamada “Hollywoodland” salvo erro, uma reescrita histórica, que lembra muitas personagens de Hollywood, incluindo Hattie McDaniel, a 1ª actriz negra a receber um Óscar.

    Gostei tanto deste seu texto de cinéfilo como daquele referente a “Shane”.

    Obrigado.

    1. Eu é que agradeço tão generosas palavras, meu caro.
      Já vi este filme mais de uma vez e confesso ter gostado, acima de tudo, da mais recente.
      Sendo Vivien Leigh uma belíssima mulher, sempre me senti mais membro do clube de fãs da Olivia de Havilland. Nem sei bem porquê. Talvez porque prefira mulheres de uma beleza mais discreta e menos ostensiva do que a de VL.

      Entretanto, nunca li o livro. Nem o tenho, sequer. Mas está há anos na minha lista de prioridades. Agora, que o sei alvo de ferozes censores, ainda mais.

  4. Vi esse filme por volta dos meus catorze anos, e perdi a conta às que fui vendo pela vida fora.
    Curiosamente nunca li o livro nem o tenho.
    Concordo que é um filme que bate por margem incomparável quaisquer outros feitos até agora. É um épico imortal.
    A reportagem que lhe dedica e que nos dá o privilégio de ler, é uma epopeia não menos épica sobre uma obra de dimensão inigualável.
    Sinceros parabéns. É senhor de um dom descritivo inimitável.

  5. É um filme fantástico, um excelente retrato de época, excelelentemente conseguido com todas as limitações que a era pré-digital impunha.
    Revi durante o confinamento. São cerca de quatro horas muito bem empregues; prende-nos do princípio ao fim e não desaponta nem um bocadinho.
    Muitas das maiores e melhores produções de Hollywood lançaram muitos actores “desconhecidos” que ficarão para sempre associados aos papeis que desempenharam. Vivian Leigh será sempre Scarlett O’Hara mas também será sempre Blanche DuBois, Anna Karenina…

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