Os rangers da COVID-19


Teresa Ribeiro,

A intrépida dona da frutaria, onde costumo abastecer-me, esteve desde o começo da pandemia a fazer o seu statement diário. Sempre muito atarefada, movimentava-se na loja sem máscara – enquanto tal foi permitido – e a espalhar olhares de desdém por quem lá passava, devidamente protegido. É claro que com esta atitude levou vários dos seus funcionários a inibirem-se de usar máscara. A balda era tanta que deixei de lá ir. Há dias reparei que tinham a porta fechada e nela colado o aviso: “Encerrados por motivos de COVID-19”. Seis infectados, soube entretanto. De uma equipa de 12.

Na tasca perto do escritório, o ambiente que se via da rua era igualmente descontraído, com o dono a aviar copos ao balcão de máscara ao pescoço, a um friso de clientes, na sua maioria idosos, sem protecção. Também fechou. E vão dois.

Há gente que todos os dias se arrisca, mas não tem alternativa. Gente obrigada a deslocar-se em transportes públicos em hora de ponta e pessoal de saúde, entre muitos outros. Estes, que agora estão de molho, tinham. Mas preferiram mostrar ao vírus quem era mais macho. Agora já sabem.

40 comentários em “Os rangers da COVID-19”

  1. Teresa, infelizmente, constato que há muita gente que não usa a máscara caso o “vizinho” a esteja a usar. Isto é tão frequente que já nem ligo. Revela bem o civismo, a preocupação pelo out o do tuga. Mas que diabos, também um dos incêndios em Oleiros começou com uma bela churrascada. Os holandeses ou nórdicos têm razão. E sim, a emigração é uma opção. É tudo mau e feio de mais.

      1. Pois os tugas não entendem o ‘statement’ diário, frutaria com ‘funcionários’ e ‘tascas a aviar copos’ junto de escritórios, e vai daí nada de máscaras de protecção.
        Uma frutaria com 12 pessoas é obra, só para pagar ordenados precisava e vender muita fruta.

          1. ‘Tá bem, e quanto aos ‘funcionários’? É uma frutaria ou uma repartição pública?
            Agora a mania também é o ‘colaborador’, parece que a palavra trabalhador faz arrepiar.
            Em toda a legislação do trabalho é trabalhador e em determinadas categorias profissionais aparece empregado.

      2. A mim deixa-me indiferente. Isto “tudo” é como pode ser, e não como deveria ser, desde que me conheço.

        O isolamento social, mais do que a distância, é uma opção. Mas mesmo que envereda-se pelo eremitério o Estado não me esqueceria, com os seus impostos sobre a propriedade. Nem num quadradinho de terra, com duas ovelhas e umas galinhas, mais uma horta, consigo ser esquecido.

      3. Pois é. Estou inteiramente de acordo.
        Mas olhe que há por aí gente muito chic, muito bem, muito civilizada que milita pelo “direito a não usar mordaça”.

        São fans daquela aberração facebookeana- o André Dias.

        1. E eu estou inteiramente de acordo com o que diz. Esses são os rangers versão chic. Igualmente perigosos para a saúde pública. Apesar do verniz, quanto a cultura cívica estão ao nível dos outros.

    1. Não costumo comentar, mas desta vez terá de ser.
      É cómico ler o que o Vorph escreveu por aqui antes de declarada a pandemia, qualquer coisa sobre o vírus só atacar quem tinha comorbidades, ter uma baixíssima mortalidade e o Vorph achar desnecessário tanto barulho e alarme por causa do “novo coronavírus”.
      Mudar de opinião é salutar, mas o Vorph consegue mudar de opinião fingindo que não teve outra. Não apenas neste assunto, mas em quase todos onde lhe li comentários. Mais moderação e menos moralização fariam maravilhas pela credibilidade do que escreve.
      Cumprimentos
      Lourdes Sousa

      Para Teresa Ribeiro:
      Um excelente texto, como é hábito!
      E uma triste forma de aprender a lição. Triste porque duvido que, passado o perigo, lhes fique algo mais do que a memória dos dias em que não puderam facturar.
      Cumprimentos,
      Lourdes Sousa

      1. Lourdes, escrevi que o vírus, em virtude das suas características biológicas, seria “impossível” de conter. Vejo com preocupação e pessimismo o Outono/Inverno, quando “chegar” a gripe sazonal. Afirmei que a distância inter-individual seria a medida mais eficaz contra a transmissão viral. Uma vez findo o Estado de Emergência, ao qual a economia nacional não resistirá, caso se venha a declarar um outro, defendo, quando a distância social seja impraticável, o uso da máscara (sigo para já a OMS).

        Eu fiz, voluntariamente, quarentena/confinamento de mês e meio, estando livre para o não fazer (a Lei concede-me dito privilégio). Por isso não percebo essa sua admoestação. Seria interessante saber se a Lourdes não é um Norberto, um gás tóxico, ou um Armando das feiras. Mas não passa de um anónimo. Pena, a bem do debate.

        1. De Vorph “Girevoy” Valknut a 27.07.2020 às 18:04

          Eh eh…
          Não levou em conta que o caro Vorph tinha mais cordas no seu arco e não se limitava a tão pequenos cometimentos,

        2. Serei sua desconhecida, mas não sou anónima. Nem pseudónima, e se pouco ou nada percebo de tecnologia já o que escreveu em português e em inglês percebo muito bem. Também percebi que rapidamente constatou que “isto tudo” afinal era “a sério”, mas vejo-o criticar nos outros o mesmo cepticismo que o acometeu nos primeiros tempos e fá-lo sem qualquer sinal de contrição.
          Não pretendo entrar em debates, a matéria não o justifica e é maçador ter de verificar se recebi resposta (vim porque me dirigi também à autora do texto) e ainda ter de procurar as provas.
          Aceite a minha nota, ou admoestação se assim quiser, como a de uma aposentada professora de filosofia que vê um jovem com aspirações a “enfant terrible” perder-se em contradições do próprio argumento.
          Desejo-lhe muito sucesso.
          Cumprimentos,
          Lourdes Sousa

          ====

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          De Vorph “Girevoy” Valknut a 09.03.2020 às 08:01

          Pois eu tenho-me recordado de Camus, e do livro, A Peste.

          Adoeço ao ver todo este deprimente circo, montado em torno de uma pandemia cujo vírus :
          1) apresenta um período de incubação até 15 dias.
          2) a maioria dos infectados não desenvolve sintomatologia.
          3)a sintomatologia é na esmagadora maioria ligeira e não patognomónica.
          4) com uma taxa de mortalidade a rondar os 3%.
          5)cujas vítimas mortais apresentam patologias intercorrentes.

          A comunicação social portuguesa dá – me asco, as instituições de saúde pública, nacionais e internacionais, ao invés de sossegarem a população, fundamental para o controlo de qualquer pandemia e manutenção da ordem pública, inquietam e desassossegam.

          Ou não nos contaram a história toda ou é tudo mau demais.
          Os tempos parecem de peste cerebral, com a Itália a suspender funerais (de uma desumanidade atroz) e o Papa a dar hóstias on line.
          Não tarda, de uma taxa de mortalidade de 3% passaremos para uma taxa de desespero de 80%.

          Ao pequeno almoço, com sorte, terei direito a um directo do Júlio de Matos. Pergunto-me: E se isto tudo fosse mesmo a sério?

          “The evil that is in the world comes out of ignorance, and good intentions may do as much harm as malevolence, if they lack understanding”

          ====

      1. Teresa Ribeiro a 27.07.2020 às 17:36

        Podem não ter o monopólio, mas têm sempre novidades, mesmo quando é impossível havê-las.

    1. Como sabe se eram “tugas” (expressão horrível)? Se calhar eram “pakis”, as frutarias agora é tudo “pakis”. Até podia ser uma frutaria “black” porque como sabemos todas as frutas vieram de África no Plistoceno ou no Paleolítico ou lá no que caraças foi. Veio tudo de África.

  2. É assim em muitos locais. Tenho um café ao pé de mim, no local onde trabalho, zona de calamidade e nem a dona do café tem máscara, nem os clientes que se agrupam á mesa com ela , muitas vezes. Isto na esplanada. Dentro do café foram adotados sistemas novos- os estores estão sempre corridos a média-luz… Não sei muito bem porquê, pois dou a volta por longe. Póvoa Sto. Adrião…

  3. Esses dois casos naoserao cherry picking, quantos estabelecimentos que cumpriaram as regras a risca e tiveram de fechar devido ao virus?

  4. Teresa,
    A dona da frutaria com 12 empregados (já vivi em Paris e nunca vi uma frutaria com com 12 empregados, adiante) movimentava-se sem máscara enquanto tal foi permitido ou seja cumpriu sempre as determinações superiores da OMS, da senhora das echarpes e da Temido; a senhora cumpriu ordens, fez o que era suposto; deixemos a OMS de fora, há quatro mulheres envolvidos, a Teresa (acusadora), a fruteira (acusada de cumprir as regras), a Graça e a Marta (emissoras das regras) o que fizeram todas estas fêmeas?
    Mostrar ao vírus quem era mais macho!
    (este tipo de texto é machista ou feminista? sinceramente, não sei, se usasse “soutien” depois de ler isto, queimá-lo-ia)

    1. Não tenciono passar a policiar o meu discurso em obediência aos novos ditames do politicamente correcto. Era só o que faltava!
      Essa expressão que critica descreve uma atitude que nasce, justamente, de uma cultura machista e não é preciso fazer um desenho para se perceber que a usei para caricaturá-la. Portanto, ao contrário do que interpretou, não fui “machista”, só porque o usei uma expressão machista. Muito pelo contrário.

  5. Conheço tantos, mas tantos, Teresa… insisrptem num incumprimento que só eles estendem e em desvalorizar o que não reconecem .
    Do risco, falo na primeira pessoa. Minimizar a perigosidade com N variáveis envolvidas, tem sido um desafio, do qual nos temos saído bem, com muitos sustos pelo caminho, e já alguns testes. Tento mentalizar-me que não será uma questão de se, mas sim uma questão de quando, mas nem po isso facilito no cumprimento das regras de um plano de trabalho bem construido e que tem funcionado muito bem.
    É fundamental relembrar que nada terminou, Teresa, obrigada.

    1. Sim, é um desafio, Maria Dulce. E também já concluí que mais vale pôr a questão do “se” de parte. É uma guerra perdida, por isso sejamos pragmáticos e procuremos, dentro do que nos é possível, adiar o tête-à-tête com o bicho :))))

  6. Teresa Ribeiro, vivo numa cidade num fuso horário – nesta altura do ano – com uma diferença de +6 horas em relação ao de Portugal mas até estou bem: é que o último caso de alguém infectado no interior do país, com o vírus do “bicho”, até foi registado em 25 de Maio… pelo que até me sinto seguro embora continue a, sempre que vou apenas ao supermercado ou ao 7/11 da esquina, usar uma maldita máscara que, no meu caso, até foram feitas pela minha esposa.

    Sou o que eles, os da terra, por aqui chamam de “falang” (que, basicamente, tirando nuances adaptadas pelas muitas circunstâncias de conveniência, significa no geral “brancos”) e que, infelizmente e invariavelmente, acabam sempre por serem conotados com um habitual comportamento anti-social em relação a quase tudo mas, ultimamente, em especial ao não respeitarem as regras locais/nacionais impostas para tentar evitar a propagação do vírus maldito. E evidentemente, essa “fama” não nasceu do nada: eu, por exemplo, que insisto em usar máscara, mesmo apesar dos tais muitos dias sem casos internos de infectados, já fui abordado várias vezes por outros “falangs” que acham que estou a ser ridículo porque estou a “obedecer” a uma “imposição” contra o “direito de liberdade individual do ser humano”, naturalmente, no caso particular, misturada com a habitual rácica-cultural superioridade do “branco”: alguns até me perguntam se quero ser mais indígena do que os indígenas!

    Há, infelizmente, nos “brancos” (europeus, descendentes de europeus, aculturados europeus) uma tendência para uma desobediência rebelde, típica de adolescentes que, infelizmente, por isso, apenas se revela numa verdadeira inconsciente tendência suicida: a maioria dos escribas (e seus apoiantes) aqui no blogue, sofre desse problema… em relação às recomendações e imposições legais que foram adoptadas para tentar travar (com sucesso ou não) a progressão do contágio do vírus.

    Se por um lado eles evocam os direitos apagados da constituição por essas medidas, por outro denunciam os que insistem em as não cumprir como privilegiados ideológicos. E é claro que até negam qualquer influência positiva por parte do Estado: os louros da glória devem-se aos indivíduos que decidiram “coincidir” os seus comportamentos com as “imposições” das autoridades mas claro, quando esses mesmos indivíduos varrem os “supers”, eles até mereciam ser exilados para a Venezuela… ou Cuba. Eu até compreendo que nem mencionem a Coreia do Norte: eles sabem que nela não há “supers”!

    Bom, nesta altura, acredito que V. até esteja a pensar que o meu discurso é “ideológico” mas vá por mim, ele é tão ideológico como qualquer um dos que por aqui aparece neste blogue: o essencial é perceber o que todos esses discursos ideológicos depois até significam…

    Os comentários inseridos no fórum disponibilizado pelo seu “post” são um perfeito exemplo de tudo o que pretendi dizer até agora: dos que antes (até nem assim há tanto tempo) achavam que era apenas uma gripe que estava a ser utilizada politicamente, aos que ainda hoje insistem que ela é, de facto, uma gripe porque a sua frutaria não é uma frutaria porque tem 12 funcionários, passando, claro, pelos que descobrem veios secretos de machismo/feminismo nele, numa verdadeira interpretação onde denunciam as evidentes mensagens secretas e conspirativas nele inseridas por si (e então começo a desconfiar que V. é uma illuminati ou, quiçá, uma “pedreira livre”)

    Termino com uma frase-comentário que acho uma verdadeira pérola de toda a discussão que V. abriu: «Ainda não esqueci que não mereço viver, por tomar as precauções que bem entender.»

    1. Sim, o que há mais é gente com o pensamento “confinado” por ideologias, preconceitos, etc. Eu, apenas procuro correr em pista própria. Nem sempre serei bem-sucedida, mas tentar fazê-lo é um desafio e um desafio divertido.

  7. Estes estabelecimentos fecharam, não por causa do vírus, mas por causa das determinações da Direção-Geral da Saúde, que impedem de trabalhar quem seja portador do vírus – mesmo que essa pessoa esteja de perfeita saúde.
    Os seis trabalhadores da frutaria que estão contaminados estão todos eles bem e recomendam-se. Só não vão trabalhar porque a DGS os proíbe disso.

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