Ian Holm (1931 – 2020)


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Fotografia de 2005 por Cambridge Jones/Getty Images, retirada da NBC News

 

Ian Holm pode não ter sido um actor associado com frequência ao papel de protagonista (no cinema, pelo menos; sobre a sua longa carreira no teatro não me poderei pronunciar), mas nem por isso deixou de se fazer notar – o carisma de algumas das suas personagens secundárias bastou para as tornar com frequência inesquecíveis.

O desempenho inevitável nos elogios fúnebres de hoje será talvez o seu Bilbo Baggins da adaptação de The Lord of Rings de J.R.R. Tolkien, já no crepúsculo da vida a abdicar relutantemente do Anel que lhe preservara a juventude. Na vasta trilogia de Peter Jackson as cenas de Holm não são longas mas ficam na memória, abrindo e encerrando toda a saga – com o início maravilhoso da sua festa de aniversário e o interlúdio melancólico de Rivendell no primeiro filme, The Fellowship of the Ring, e a sua partida para Valinor no epílogo de The Return of the King. Holm viria a regressar com Jackson à Terra Média na adaptação de The Hobbit, contada em analepse para lhe permitir passar o testemunho a Martin Freeman e fazer a ponte com a história original. Em The Fifth Element, de Luc Besson, interpretou o frenético Padre Vito Cornelius, último elemento de um culto antigo capaz de fazer a ligação com a civilização alienígena dos Mondoshawans e assim salvar o universo (ou, vá lá, permitir que o Korben e a Leeloo de Bruce Willis e da Milla Jovovich salvassem o universo). E no grande Brazil de Terry Gilliam foi  Mr. Kurtzmann, o titubeante chefe de Sam Lowry (Jonathan Pryce), a cargo de uma pequena parte de toda aquela burocracia infernal.

Mas é em Alien de Ridley Scott que, para mim, Ian Holm tem a sua aparição definitiva no grande ecrã ao interpretar Ash, o cientista da tripulação que se transforma num inesperado antagonista. Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Mr. Kurtzmann, são em si bastante diferentes, mas existe entre eles um fio condutor na interpretação simpática, apologética e algo desajeitada de Holm. Mas o andróide Ash não podia estar mais longe desse registo: frio, metódico, absolutamente dedicado a cumprir a missão secreta da Nostromo, mesmo sabendo que isso implicará a morte dos seus colegas de tripulação. O seu confronto com a Ellen Ripley de Sigourney Weaver não é muito menos aterrador do que o próprio alienígena.

Haverá vários outros papéis de Ian Holm para descobrir ou re-descobrir (aos anos que ando a ver se revejo a adaptação televisiva de Through the Looking Glass  que apanhei uma vez a passar na RTP2), mas estes, de quatro dos meus filmes preferidos, ficam-me na memória.

Filho de pais escoceses, Ian Holm nasceu a 12 de Setembro de 1931 em Goodmayes, Essex. Faleceu hoje aos 88 anos.

8 comentários em “Ian Holm (1931 – 2020)”

      1. Olá João,
        tem mesmo que ver o Chariots of Fire, é um filme extraordinário, que eu tive a sorte de ver em estreia num écran a sério.
        Ontem fiquei perplexa ao ver a lista enorme de filmes em que ele entrou (e que eu vi, embora não me consiga recordar dele em todos, obviamente); era um secundário muito competente que fazia sempre a diferença.
        Ainda bem que vai ser recordado pelo Senhor dos Anéis, especialmente pelos jovens.

        Bom sábado cinéfilo!
        🎬
        Maria

        1. Gostei mesmo muito de o ver como Bilbo. E, não desfazendo o Martin Freeman, actor que muito aprecio (e que terá sido talvez o melhor da segunda e desnecessária trilogia de Peter Jackson), teria gostado imenso de ver o Ian Holm a fazer todo o papel de Bilbo numa adaptação de The Hobbit. Mas mesmo em 2001 já não teria idade para o papel.

          Curiosamente, há uma adaptação radiofónica de The Lord of the Rings, mais antiga, na qual Ian Holm interpreta… Frodo.

          Bons filmes, Maria! 🙂

  1. não é para publicar

    “E no grande Brazil de Terry Gilliam foi Sam…”
    “Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Sam…”

    O personagem chama-se Mr. Kurtzman.

    1. Não tenho problema em publicar, e agradeço-lhe o reparo. Embiquei no o Sam Lowry. Está corrigido

      Isto também me faz pensar que tenho de rever o Brazil. A última vez que o vi já foi há uns anos (2017, talvez?), mas no cinema: passou numa das salas pequenas do Alvaláxia, e não deixei passar a oportunidade. Uma maravilha.

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