
Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.
Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.
Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.
E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.
Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.
O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.
A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta – muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.
Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.
No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.
Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.
Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…
Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.
Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.
Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco” mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.
Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.
A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.
No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.
O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.
Bom Dia de Portugal para todos.

Adorei.
E despertou-me lembranças de viagens parecidas, nos anos 1970. Não a Marrocos, mas ao Sul de Espanha, com a tenda e os colchões de encher no carro e os parques de campismo poeirentos, sobrelotados e com 42ºC à sombra.
Em Alicante, acordávamos pelas 6h30m da manhã ao grito de “HIIIELOOOOO!” Era o motorista de um camião cheio de blocos de gelo para as malas térmicas. Quem quisesse arrebanhar um desses blocos, tinha de se levantar logo, desapareciam num instante.
São lembranças tão boas Cristina, que gostava de poder revisitar os locais. Tenho apenas receio de me desapontar. Tudo muda. Mas como eu gosto de planear viagens, olhe…
Uma viagem num Fiat 1500 até ao Algarve, parava de 100 em 100km porque aquecia demais.
lucklucky
E partia de que local?
Lisboa.
lucklucky
Também tenho situações parecidas, sempre com VW. O meu pai trabalhava na Guerin nesse tempo. Carros sempre com as revisões cinco estrelas e a meio do Alentejo, na Andaluzia, sei lá, carregados que nem camelos, pufff. Ninguém se ralava. Havia sempre um amigo que percebia de mecânica e dava-se um jeito.
Numa outra vagem a Sevilla ( gosto muito de Sevilla) o carro não arrancava. Era Domingo. Um espanhol simpático juntou-se à molhada à volta do capô e disse : “necessitas cambiar las bojias. Lunes las poderás cambiar”. Ficou tudo a olhar para ele sem perceber. Acenou e foi à sua vida. Ficámos por ali, porque não havia nada a fazer e no dia seguinte , 2a feira, fomos com o carro à oficina. Necessitava trocar as velas. Simples 🙂
Também passei por aí mas numa Toyota Hiace que ia fazer a rodagem. Destino: Gibraltar.
Éramos oito. Dormimos em Sevilha, mas o calor era tanto que procuramos um hotel com ar condicionado. A segunda noite foi em Algeciras, muito mais fresquinho. Adorei conhecer Tarifa, o local mais perto de África e um dos mais ventosos que conheci.
Foi aí que uma das meninas se lembrou que não tinha trazido passaporte. E agora? Vamos e deixamo-la aqui de castigo?
No way!
Desolados, lá fomos para Ceuta (bye-bye monkeys!).
Não desgostei mas estava uma chuvinha chata e alguém sugeriu que fôssemos a Tetouan. E lá fomos, de autocarro, deixando os documentos na fronteira. Cena deprimente dos camelos e das cobras à beira da estrada com homens de jeans e adidas (cadê os touaregs de azul, ou de branco como o Lawrence?).
Mas foi bom e exótico q. b. : almoçamos muito bem numa espécie de palacete, com direito a danças regionais e até, para gáudio dos rapazes, uma dança do ventre.
Fiz umas belas compras, um casaco de camurça cor de mel e um saco lindo que usei até não poder mais. Ao entrar para o autocarro vi que todos tinham um belo tambor menos eu.
Também quero um! Fiz birra e vim cá fora. Um rapaz pediu-me 800 pesetas. 800? perguntei admirada, pois os outros tinham pago 1200.
Okay, disse ele, dá-me 500!!!
Ó fáxavor, é para já!
Quando voltei para o autocarro os outros queriam-me matar
ainda hoje me rio ao recordar a cara deles : só 500 pesetas? 😂
Ah, Adorei Tetouan!
🌻
Maria
Sorry, Dulce, não consegui sintetizar mais
Sevilla é um tormento de calor, mas quando somos novos quase que não damos por ele.
Nesta viagem também estava programado ir a Gibraltar, mas não nos deixaram entrar por causa de uma qualquer situação diplomática. O meu irmão, que ficou com estas fotos, consiguiu apanhar-nos de fugida junto às cancelas.
Hei-de voltar a Marrocos, Maria, e vou tentar passar nestas cidades a caminho de lugares que ainda não conheço.
Tenho saudades de tudo. Dos meus pais, dos lugares , dos meus irmãos tão engraçados e de mim também… nessa altura ainda era a Maria Dulce e não a Maria das Dore.
Imagino a despesa em gasolina, o carocha de 1977 gastava que nem um camião.
Não devia ser barato, se pensarmos no carro que era, mas sei que o meu pai atestava sempre em Espanha que tinha o câmbio da peseta bastante favorável e a gasolina mais barata. O único carr a diesel que o meu pai teve foi o Golf 0km em meados dos anos 80.
Recuerdos empolgam qualquer um.
Para mim só a boleia de 2cv,rédea curta/carteira lisa.Muita berma,muito descampado e mesmo centro de aldeia junto às bicas..Tenda de um pano
emprestada pela “bufa”,termo não pejorativo ou que deixara de o ser à força
de o ouvir durante os sete anos liceais.
Viajo agora pelas V.as Memórias,descontinuado o 2cv,emagrecido o Saldo
e a saúde em parte incerta.
Com os meus agradecimentos.
Viajar pelas memórias rejuvenesce. Tenha sempre umas óptimas viagens