Em busca do acaso


Paulo Sousa,

A sequência de feriados desta semana abriu a possibilidade de realizar um projecto antigo que consistia em regressar, desta vez com um dos meus rebentos, a um dos lugares mágicos do nosso país, o Covão da Ametade, o berço do rio Zêzere.

Apesar das previsões meteorológicas não serem risonhas para o segundo dia, arriscámos sair de casa. Afinal de contas a chuva só mete medo a quem é feito de açúcar.

Assim, as tralhas das caminhadas em autonomia e das pernoitas na natureza foram recuperadas do pasto das aranhas. Com o pó sacudido e as botas calçadas, pusemo-nos ao caminho.

O trajecto começou em Manteigas. Seguimos pela na meia-encosta da vertente oeste do incrível vale glaciário. Dali a vista sobre o vale é soberba.

IMG_7145.jpg

Quilómetro após quilómetro o trilho começa a degradar-se. As giestas são inúmeras, e aos poucos começamos a ter de lutar, metro a metro, contra estes obstáculos que preenchem toda a passagem. Como se isso não chegasse, a páginas tantas é o próprio caminho que deixa de merecer esse nome. Ali a linha do horizonte é composta por paredes íngremes onde não se consegue descortinar nenhuma passagem. Perante isso, recuamos.

Com o avançar da hora e com o fuso alimentar a badalar dentro de nós, decidimos que merecíamos um reforço positivo que consistiria numa transferência de carga da mochila para o estômago.

A paragem foi frutuosa e após o café final, já na lavagem do púcaro ali ao lado, num dos riachos ali omnipresentes, tive uma surpresa. Dentro do púcaro veio um pequeno insecto que desconhecia. Alguém me ajuda a identificar o bicho?

21835009_7kNQu.jpeg

 

De maneira a não regressarmos a Manteigas, nem de subir ao planalto, o que nos iria atrasar na chegada ao local da pernoita, decidimos descer até à base do vale glaciário do Zêzere. Esta descida acabou por ser a passagem mais empolgante de todo o passeio, pois em pouco mais de duzentos metros de deslocação horizontal descemos duzentos metros verticais. As giestas, que antes nos tinham obstruído o avanço, foram aqui um ponto de apoio a que nos agarrámos para travar a descida. Com uns arranhões a mais e quase amarelos com tanto pólen, chegámos finalmente ao fundo do vale do rio ainda recém-nascido. Seguimos o trilho assinalado da Grande Rota do Zêzere em direcção à sua nascente. Foi por entre rebanhos e estábulos que fizemos estes quilómetros. A passagem vai estreitando e ficando mais sinuosa, aqui e ali enlameada, até que finalmente chegámos ao alcatrão e pouco depois ao destino planeado.

IMG_7168.jpg

Visto de cima este covão encantado parece um coração. Montámos a tenda no seu ventrículo direito, ao lado de uma das churrasqueiras ali existentes. Quase sem darmos por isso já estávamos na conversa com três encantadores vizinhos, com quem partilhámos as horas que se seguiram. Além do serão partilhámos ainda vinho, chouriço assado, pão, queijo e maçãs de Alcobaça. À volta da fogueira confinada dentro da estrutura de betão, ainda falámos de ondas sísmicas, de navios bacalhoeiros, de vinho tinto, de excesso de carga nas mochilas, de leitão da Bairrada, de courgettes, de rugby, de auroras boreais, do Montenegro, de electrodomésticos Teka, e ainda de teclados de entrecosto, que além de um belo petisco são uma metáfora da vida, pois também neles sem ossos não há carne.

Importa relevar que os nossos vizinhos vinham de outra zona do país, de outra direcção e com um destino diferente. O facto de termos estado à mesma hora e no mesmo ventrículo do Covão foi uma absoluta coincidência. A sintonia nos interesses e o acerto de frequência no humor foi incrível.

Quando tivemos de nos recolher às tendas para pernoitar entendi que os quilómetros, os arranhões e as ameaças de bolhas nos pés daquele dia tinham tido o propósito de ali estarmos juntos durante aquelas horas. Lembrei-me de outros eventos noutras paragens, igualmente improváveis e igualmente preenchedores, que nos ficam na memória e nos fazem sentir uns felizardos.

Há uns anos, ao ler uma revista, tropecei numa citação de Plutarco, segundo quem o acaso é Deus quando viaja incógnito. Como é que a ciência e a razão explicam estes acasos?

On the road again


Maria Dulce Fernandes,

21830392_ZQaa4.jpeg

 

Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.

Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.

Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.

E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.

Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.

O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.

A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta – muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.

Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.

No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.

Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.

Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.

Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.

Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco” mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.

Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.

A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.

No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.

O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.

Bom Dia de Portugal para todos.