Do excelente ao execrável


Pedro Correia,

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Em 2019 apostei comigo mesmo que manteria níveis de leitura semelhantes aos que tinha no final da adolescência, quando devorava livros atrás de livros. No ano em que fiz 18, li 72. Nessas idades, o tempo parece sempre que nos sobra – ao contrário do que sucede nas décadas posteriores. Mas no ano passado levei muito a sério a meta que me impus, a tal ponto que acabei até por superá-la: 74 livros completos – não contabilizo, portanto, os três ou quatro que deixei a meio.

Em Maio, como já confidenciei aqui, verifiquei que me faltavam leituras para fazer uma lista consciente e convincente dos 25 melhores romances portugueses do século XX. Ou até dos dez melhores. Tinha acabado então de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que funcionou como ignição para prosseguir nesse trilho. Seguiram-se outras 38 obras literárias só de autores nacionais do século passado, escritas entre as décadas de 10 e 90. Nesta sucessão de leituras e releituras, a mais antiga foi A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro (1914) e a mais recente O Vale da Paixão, de Lídia Jorge (1998).

Os escritores que mais li ou reli foram Agustina Bessa-Luís (quatro romances), António Lobo Antunes (quatro) e Vergílio Ferreira (três). E não li apenas romances: também visitei ou revisitei alguns livros de contos.

Além dos já mencionados, também frequentei estes – vários dos quais pela primeira vez: Almada Negreiros, Alves Redol, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, Aquilino Ribeiro, Eduarda Dionísio, Fernando Assis Pacheco, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Helena Marques, Joaquim Paço d’ Arcos, José Cardoso Pires, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Manuel da Fonseca, Miguel Torga, Nuno Bragança, Raul Brandão, Rui Zink, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teolinda Gersão, Tomaz de Figueiredo e Urbano Tavares Rodrigues.

Li um pouco de tudo – do excelente ao execrável. Mas sinto-me agora capacitado para elaborar a tal lista dos dez melhores romances portugueses do século XX: irei divulgá-la aqui em breve, pondo-a em debate.  E eis-me também quase pronto a concluir a dos 25 melhores.

Hoje, primeiro dia deste promissor ano bissexto, quero destacar apenas alguns dos que mais gostei de ler ou reler em 2019, sem cuidar do lugar que lhes estará reservado no nosso cânone académico. Ei-los, por ordem cronológica de publicação: A Sibila, Barranco de Cegos, Montedor, Sinais de Fogo, Para Sempre, Auto dos Danados, O Último Cais e O Vale da Paixão. Cada um por seu motivo, foram dos que mais gostei.

Fica este breve balanço, na expectativa de fornecer boas pistas a quem visita o DELITO e funcionando como incentivo suplementar a mim próprio. Tenciono prosseguir em 2020 o meu plano de leitura: falta-me ainda conhecer cerca de duas dezenas de relevantes obras do século XX. Depois transitarei enfim para este século, mantendo-me ainda na ficção literária portuguesa. Nessa altura será a minha vez de vos pedir sugestões.

 

Leitura complementar:

Com olhos de ler

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

22 comentários em “Do excelente ao execrável”

  1. Pedro,

    curiosamente li este ano “O ùltimo Cais ” da Helena Marques e “Os meninos de ouro” da Agustina.
    Fernando Namora, Aquilino, Eça e Camilo foram outros dos autores que li.
    Ah e Torga e Fialho de Almeida…
    Li poucos livros, mas foram bem lidos.
    Forte abraço e que 2020 te traga muitas (e boas) leituras.

    1. Meu amigo, já lês bem acima da média nacional.
      Infelizmente, segundo as estatísticas, metade dos portugueses só «lêem livros» enquanto estudam, em função do currículo obrigatório.
      Nada mais que isso. Coisa tão triste.

  2. Por favor , tenha coragem : diga-nos quais foram os que achou execravel ! Para nos fazer poupar o tempo de tentar ler !

  3. Ai o Senhor também escreve livros? Estava convencido que era apenas jornalista. Agora tudo escreve livros. Faz bem escrever, pode até vir a ser eleito ” o personagem do ano”!

  4. sim, senhor… boa, essa de pedir sugestoes aos leitores.

    Mas quanto á leitura em quantidade, é tamanha, que me ocorre o ” porra!!! ” da parrachita no contra informaçao da radio.

    A sério, tiro o chapeu, bem haja o PC. E aplaudo o objetivo.

    Mais adiante se verá a reaçao dos leitores á lista proxima.

    Nao sente a necessidade de escrever o proprio livro ?

  5. Lamento discordar, mas dos nomes que encontrei no post, muito poucos deverão ser “execráveis”. Na verdade, cada um melhor que o outro, na minha opinião. Quem sabe, pegar nessa lista e dar uma lição de literatura a alguns editores, livreiros, distribuidores e ” fazedores de críticas, montras e top´s… podia ser que aprendessem alguma coisa, para além de faturação. Teria de ser bem esfregado na cara, lá isso teria…

    1. Discorde à vontade. Apetecer-me-á sempre mais falar do óptimo do que do péssimo. Infelizmente também deparei com algumas obras más ou péssimas. Poucas, felizmente.
      E obras-primas foram várias, não apenas as que menciono aqui. Há outras, como ‘A Escola do Paraíso’ e ‘A Casa Grande de Romarigães’.

  6. Não li ainda Montedor mas li A Amante Holandesa e Ernestina e encheram-me as medidas. Descobri Rentes de Carvalho somente no ano passado, mas felizmente a tempo. O próximo será Com os Holandeses.
    Também estou curioso dos execráveis.
    Bom 2020.

      1. Rentes de Carvalho é figura assídua em eventos públicos, já foi publicamente homenageado; publica numa editora de renome – a Quetzal – integrada num grande grupo editorial – Porto Editora – que consegue mobilizar recursos de marketing enormes, desde contactos com a imprensa à inclusão dele nos ditos eventos públicos. Já recebeu prémios. A cara dele já apareceu em capas. Não há livro dele que não seja amplamente recenseado quando sai. Admiram-no pessoas com voz na imprensa como Henrique Raposo (Expresso) e Bruno Vieira Amaral (LER), que até apresentam livros dele. Encontram-se facilmente entrevistas dele online.

        Discrimine ponto por ponto essa falta de marketing, contra-argumente – fico à espera.

        Tem consciência de que há escritores novos a quem as editoras fecham todas as portas? Que têm sorte se forem aceites por editoras independentes que no máximo lhes darão uma tiragem de 300 exemplares? Que serão mal distribuídos e provavelmente ficarão à margem de divulgação na imprensa? E que não ganham nada com o livro?

        E já agora, Rentes de Carvalho é um escrevinhador medíocre; é só o mais recente romancista que escreve ainda como se o século XX nunca tivesse acontecido; que ainda pensa que a arte do romance não mudou desde Camilo. E é por isso que é popular e publica na Quetzal – porque é sabido que vai dar dinheiro a ganhar; porque não é um risco; porque conta as historietas sentimentais-humanistas da treta que o leitor médio confunde com literatura; porque não o obriga a esforçar-se ou a ajustar-se a algo diferente e mais exigente. É um conforto para atávicos inseguros que odeiam experimentar coisas novas.

        1. Rentes de Carvalho tem 89 anos.

          Passou quase toda uma vida literária desconhecido do país, ignorado pela bempensância académica, marginalizado pelos cenáculos literários, posto à margem do circuito dos prémios que funciona em ‘petit comité’.
          Punido por não frequentar as tertúlias lisboetas do elogio mútuo, onde se forjam e arruínam reputações.

          Isto é factual. Não adianta perorar em sentido contrário.

          O facto de o Bruno Vieira Amaral, o Henrique Raposo e o Francisco José Viegas, genuínos admiradores da obra dele, o terem destacado em artigos de opinião na última década não invalida que só muito depois dos 70 anos este escritor tenha enfim conseguido merecida fama junto de leitores que lhe são fiéis e encontrar uma editora que faz jus ao seu talento como ficcionista e cronista.

          Nada mais fazem, no fundo, do que seguir o exemplo de José Saramago, que em 1968 saudou o romance de estreia de Rentes de Carvalho, ‘Montedor’, com palavras de claro apreço e consideração.
          «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (…), uma linguagem que decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor», escreveu o futuro Nobel, num apontamento de crítica literária.

          Subscrevo por inteiro: ‘Montedor’ é um romance muito corajoso, escrito e publicado em tempos difíceis. Talvez por isso, o escritor teve de esperar décadas até receber o reconhecimento que merece.

          Cravejá-lo de expressões pejorativas como se ele ocupasse um espaço editorial que devia estar reservado em exclusivo a escritores em início de carreira, não faz o menor sentido.
          Se estes escritores tiverem realmente mérito, só têm de fazer o que ele fez: continuarem a mostrar o que valem.
          Um dia serão reconhecidos.

          A lamúria cheia de autocomiseração é que não conduz a lugar algum.
          E a inveja maledicente ainda menos – sobretudo quando vem a coberto do anonimato.
          Nestes casos costuma até confundir-se com desonestidade intelectual – que é, no fundo, uma das piores faces da cobardia.

  7. Agora quem quer escrever bem ou filmar bem é obrigatório ter um bom smartfone. Não tem – não sai nada que valha a pena. Todo o escritor que esteja na berra, que queira ser medalhado, obrigatório um smartfone por mais piroso e ordinário que seja. Tanto o smartfone como o escritor …
    Até os jornais de larga tiragem, já só escolhem elemento que saiba manejar smartfone. Não tem, não escreve!

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