Louvor à prosa de Cardoso Pires


Pedro Correia,

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Ia lendo penosamente um laureado romance de um dos bonzos das letras pátrias, publicado na década de 80, e a cada página encalhava naquela prosa macilenta, mastigada e conselheiral, parida sem um pingo de emoção, com o intuito deliberado de vergar os basbaques ao “estilo” do autor.

A meio, enjoei – e pus o obeso livro de lado. Para desenjoar, peguei noutro. Com metade do tamanho e o dobro da qualidade: O Hóspede de Job, que já tinha lido há uns trinta anos, em edição da defunta Arcádia.

Não é o melhor romance de José Cardoso Pires, mas tem uma prosa vibrante, que ama o idioma e não trata o leitor com desdém. Reli-o em dois dias e deu-me grande prazer, em contraste com o calhamaço anterior.

 

«No largo de terra batida passeiam dois cavaleiros armados e perguntam com o olhar se é isto Cimadas – este terreiro, este poço.

Nem uma árvore. Tudo apagado, tudo branco; alto silêncio do meio-dia. Os cavaleiros, que trazem farda de cotim e carabina na sela, empinam as montadas ao sol. Fazem-nas rodar, movem-nas como uma arena deserta. Sabem muito bem que há gente na taberna e, a cada porta do largo, uma mulher muda a espiá-los.»

 

Confirmo nesta obra as maiores virtudes de Cardoso Pires enquanto ficcionista: criador de atmosferas envolventes e sugestivas, com notável economia verbal mas sem perder capacidade descritiva, enquanto mantém mão firme nos diálogos, que nunca soam a reprodução postiça.

Isto sim, é a literatura a que me apetece voltar sempre. Seja Verão ou seja Inverno.

12 comentários em “Louvor à prosa de Cardoso Pires”

  1. Eu, pelo contrário, considero O hóspede de Job um dos melhores romances de Cardoso Pires.
    Outros romances mais tardios (O delfim, Alexandra Alpha) têm uma atmosfera mais foleira e menor interesse social.

  2. Eu lixei-me porque a minha iniciação a Cardoso Pires fez-se pelo Valsa Lenta. Perdi aí o poder de ser cativado pelo resto da obra, magnífica que é.

    1. Você começou pelo fim.
      Ao contrário de mim, que comecei pelo princípio.
      ‘O Caminheiro e Outros Contos’.

      ‘O Caminheiro’ é um dos melhores contos de sempre da literatura portuguesa.

      1. Foi como deparar-me com uma mulher desnudada. Entre o encantamento e a lubricidade, o desconforto e a repulsa. Após este encontro, o guarda-roupa dela deixou de (me) seduzir.

    1. Cada vez me distancio mais daqueles escritores que adoram castigar os leitores com exibições de “estilo”.
      Parecem certos cantores que abusam dos trinados.
      Não há paciência.

  3. Fica já na lista de livros a ler, até pela nostalgia que do pequeno trecho que escolheu.

    No dia 4 de Janeiro de 2001 fazia horas para me encontrar com o alentejano que me viraria a vida do avesso, quando me telefonou a dizer que não podia vir jantar, entrei no CC mais próximo, fui à livraria onde ainda hoje compro a maioria dos livros que leio – e dou -, e comprei o Dinossauro Excelentíssimo. O único de Cardoso Pires que li. Procurei um sítio onde me sentar e comecei a ler nessa noite, enquanto comia um ‘cheeseburguer’, no prelúdio de uma vida imprevisível.

    Vou gostar de saber dessa vida do Alentejo de outrora, fora de moda, de que ainda chegaram laivos aos anos sessenta/setenta, quando o meu alentejano de má raça (assim lhe chama a mãe quando o vê trombudo), sentado num madeiro junto aos primos, ouvia a histórias de ‘medos’, almas penadas, tesouros e mouras-encantadas, contadas pela avó, à luz do luar, à porta de casa na pequena aldeia.

    Isabel

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