Já li o livro e vi o filme (262)


Pedro Correia,

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     FANNY OWEN (1979)

Autora: Agustina Bessa-Luís

Realizador: Manoel de Oliveira (1981)

Aquele que alguns consideram o melhor romance de Agustina originou (sob o título de Francisca) um entediante marco do cinema português. Ambientado no Porto sem sotaques nortenhos, dura quase três horas recheadas de monólogos e planos fixos. Com frases empolgantes como esta: «Se a fatalidade fosse mulher, casava-me com ela.» O momento mais trepidante da fita ocorre quando vemos dois indivíduos a cavalo… em trote lento. Típico filme de Páscoa: para ver na Sexta-Feira Santa, como agreste penitência para a remissão de pecados.

33 comentários em “Já li o livro e vi o filme (262)”

  1. Vale Abraão e Party ambos baseados em romance e texto da Agustina são belos filmes. Cheios de ironia. Viagem ao princípio do mundo e O estranho caso de Angélica são-no também. Aniki-Bobó, A caça, Douro faina fluvial (talvez superior ao Homem da câmera de Dziga Vertov, então se os renormalieássemos tendo em conta os meios disponíveis)l, O pintor e a cidade, … Todos os quatro são grandes filmes. Vou para casa, O passado e o presente (um cheirinho buñueliano), … Ando a descobrir o trabalho do Manoel de Oliveira. Por esta amostra, se ele tivesse filmado regularmente entre 1930 e 1970, este pequeno país teria tido a honra de ter abrigado um dos maiores da história do cinema. E só agora descobri isto. Que triste país o nosso!…

      1. E valeu (vale a obra) muito! Mas fez os filmes de um homem de idade, perdemos aqueles que teria feito o jovem.

        1. Teve um percurso semelhante ao de Saramago, que praticamente só começou a escrever quando já era “um homem de idade”.
          Sem prejuízo para ele nem para a literatura.

  2. Não vi o filme. E se é essa a sua transcrição cinematográfica, ficarei por ele, o romance. Lido largamente no Porto, sob céu cinzento, alguma neblina, noites de persistente chuvisco e tendo por fundo – sem perturbar, antes tudo robustecendo – apropriado sotaque nortenho. Foi apropriado, diria.

    Costa

  3. Concordando com o Pedro, questiono como é que Manoel de Oliveira pôde ser um cineasta tão gabado e premiado.

    1. Talvez porque ele fez alguns filmes extraordinários, talvez porque os franceses lhe descobriram qualidades (que nós nos recusamos sempre a ver nos nossos) e lhe deram visibilidade, nomeadamente no Festival de Cannes.
      Possivelmente o Lavoura nem viu nenhum filme dele…
      🌹
      Maria

      1. Possivelmente o Lavoura nem viu nenhum filme dele…

        É um facto, mas tentei. Uma vez fui ao cinema ver um filme dele, não sei se precisamente este. Saí passado um quarto de hora. Era positivamente insuportável.

        1. Somos dois. Também uma vez tentei ver um filme dele, mas saí antes dos quinze minutos de agonia.

        2. Era positivamente insuportável

          Só aguentou 15 min para avaliar um filme: confesso que esperava mais de si.

          Não sei se vale a pena, ainda assim vou contar:
          Um dia fui ver um filme do Abbas Kiarostami (não digo o nome porque o Lavoura nem 5 min aguentaria).
          Fiquei a ver e a pensar: “mas que raio de filme é este? mas do que é que este “gajo” anda à procura?”
          Mas fui ficando, só para ver aonde aquilo iria dar… já que tinha pago o bilhete.
          E foi dar a uma extraordinária e comovente conclusão: a vida vale a pena ser vivida, por vezes basta um pequeno nada para nos fazer desistir de acabar com ela.
          E saí do cinema emocionada e feliz.
          E as outras 3 ou 4 pessoas que estavam na sala também saíram com um brilhozinho nos olhos.
          Mas isso o Lavoura nunca vai entender se desistir ao fim de um quarto de hora.
          Mais tarde comprei o DVD e voltei a gostar, embora sabendo como ia acabar.
          E o Kiarostami virou um dos meus realizadores preferidos – mas aposto que o Lavoura iria detestar todos os filmes dele… são chatérrimos, lentos, lentos, não se aguentam nem 10 minutos

          🎬
          Maria

          1. Foi “O sabor da cereja”, suponho? Concordo, é um grande filme!

            Quem ainda não se estragou aprecia melhor “esses” filmes. As crianças, por exemplo. “O sabor da cereja” não é para crianças, é claro (coitadas!), mas “Onde fica a casa do meu amigo?” ou “O Passageiro”, ambos do Kiarostami, tal como o Charlot, o Buster Keaton e o Tati (mesmo o Playtime), são apreciados por crianças de tenra idade (da escola primária). Digo-o porque já fiz a experiência, e constatei que seguem os filmes com interesse, mesmo que lhes escape certas nuances. Mas isso não é diferente do que acontece nas mais variadas actividades, pois até a matemática é apreendida com diferentes graus de profundidade por pessoas diferentes. E depois temos o grau zero de tudo isto que é o consumidor que paga o bilhete para se divertir à brava com a fita. Mas, como dizia o Bénard da Costa, para a gente se divertir existe o sexo, não vale a pena ir ao cinema.

          2. Claro que é, Miguel, foi a minha estreia com este realizador e depois fui à procura de mais.
            Tenho-o cá em casa, e também o Close-up, o Shirin, a Cópia Certificada e o Like Someone in Love. No cinema também vi o Através das Oliveiras; mas ainda me falta ver muitos.
            Eu gosto de muitos tipos de filmes e de realizadores, mas adoro ver filmes diferentes, de países e costumes diversos, daqueles em que o rapaz nem sempre casa com a rapariga e são muito felizes; gosto de ser surpreendida.

            Acabei por não dizer ao Pedro que li o Fanny Owen mas não vi o filme; se ele passar na tv (e não for das 02h às 05h) tentarei ver.

            Quanto ao Lavoura, estou tentada a recomendar-lhe (embora eu nunca o tenha visto) o Le Soulier de Satin, do Manoel de Oliveira. São apenas 7 horas de filme, ele vê uma meia-horita e depois já pode dizer que também não gostou…

            Bons filmes, Miguel.
            🌹
            Maria

  4. O filme é para ser apreciado por caracóis O livro é jeitoso. À moda de ABL…que custa a avançar, nos trorcidos e tremidos da escrita, a pretender efeito, cheio de aforismos trocados vocábulos de 500€.
    Até o sebastiao josé, apesar da pequenez…,

    1. Nos livros de ABL, como diz, estamos sempre a tropeçar em alegorias e aforismos atravessados na narrativa.
      Felizmente não assim em ‘A Sibila’, que considero – sem originalidade alguma – a obra-prima desta escritora.

      1. O Pedro Correia num comentário diz que Agustina é uma grande escritora, noutro comentário diz que ao lermos os livros dela “estamos sempre a tropeçar” em coisas que estão “atravessadas”.

        Para mim, isto é a modos que contraditório. Num bom texto, o leitor não tropeça, nem há coisas que se atravessam.

  5. Um filme que não faz jus ao livro.

    Os filmes do Manoel de Oliveira são uma autentica elegia ao vazio.

    Só gostei do Aniki Bóbo, talvez pelo retrato infantil de um intemporal triângulo amoroso.
    E pela tenra idade em que vi o filme.

    De qualquer forma, é de invejar o espírito de um homem que fez aquilo de que gostava até findarem os seus longos dias.

  6. Do livro gostei bastante. Do filme… já percebi que é com o Diogo Dória e portanto obrigadinho mas passo. Já não tenho pachorra para ver filmes com gajos que deviam estar era a plantar couves e, sei lá, a praticar violência doméstica ou coisa assim.

    1. Ei, eu estava a brincar! Assim numa escala de boa representação, o Dória está entre o Ricardo Trêpa e o Brad Pitt. Abraços e Bom Ano.

  7. Agustina e Manoel de Oliveira estão muito bem um para o outro. Não sou uma apreciadora do cineasta embora lhe reconheça originalidade e valor.Dele vi filmes de que gostei sem exaltação e filmes que abandonei antes do fim. Agustina foi uma mulher muito inteligente e com escrita de bordado difícil. Se a escritora fosse um estilo, seria rococó. Mas não conheço ninguém que escreva como ela. O lavrado desenho das personagens é único. Tenho o livro mas suponho que ainda não terminei a leitura. Não penso ver o filme, mas pode que um dia me aconteça.

  8. Gostei do livro. Agustina não é das minhas autoras preferidas, mas reconheço que a sua capacidade de criar personagens complexas e completas roça a genialidade.
    Quanto ao filme, enfim… Não sou um grande amante de cinema, mas já vi uns quantos filmes de Oliveira e até gostei de alguns. A Caixa, por exemplo, uma prestação memorável de Luís Miguel Cintra. Mas este “Francisca”, tenham paciência, foi uma estopada monumental. Três horas de Purgatório!

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