Sobre a poluição instalada numa praia de Leça da Palmeira escrevi há dias o que convinha.
O espaço onde está é público; na minha terra, como na generalidade das outras, prolifera o esterco soi-disant artístico dos Pedros Cabritas Reis (que só não são legião porque nem todos dominam a arte da promoção, da propaganda e das influências no meio, não porque haja escassez de candidatos a aldrabões); e sou contribuinte (da variedade que não está isenta de IRS, o que, não me dando mais direitos, também não dá menos), isto é, pago estas coisas.
Tenho, como cidadão e contribuinte, uma palavra a dizer, e podendo ela, a palavra, estar errada, é ainda assim duplamente legítima – em nome da liberdade de expressão e do uso que é dado ao meu dinheiro.
Pedro acha que também tem uma palavra a dizer, e que não apenas o direito dele é igual ao meu como é ainda superior.
Mas não é igual: eu pago e ele recebe, ou seja, eu compro e ele vende, e só uma inversão ostensiva das coisas, e uma entorse à lógica e ao senso, é que pode autorizar a que se diga que ele, o produtor, é que decide o que eu devo comprar.
“A comunidade não o pode ser sem os artistas”, diz o iluminado, com razão, e eu acrescento que também não sem padeiros e escritores, ainda que, surpreendentemente, uns não exigem que se lhes compre o pão, se maçudo, e os outros que se lhes leia a obra, se for chata. Maçudo e chata na minha opinião, homem de Deus, não na deles, ainda que pelo menos no que toca aos escribas haja fortes probabilidades de que se imaginem génios, como milhares de autores esquecidos antes deles.
E mesmo que Cabrita se ache infinitamente superior ao padeiro, que é um mero artesão, não leva, suponho, a vaidade ao ponto de acreditar que nos mais de 60 anos que conta de vida não terá havido um escritor, unzinho, ou um pintor, unzinho, que nunca vendeu nada que se visse e a quem a posteridade reconhecerá o génio que ele, não sabemos se apenas com a inconsciência que talvez tenha, se com a lata que efectivamente tem, se atribui.
“Os artistas determinam o que é ou não é passível de ser considerado como obra de arte”. Portanto, Cabrita, que é um artista, na opinião dele, decide o que é, e não é, Arte, e eu, que na opinião dele e na minha, não sou um artista, não tenho nada a dizer. Não tenho eu mas têm os senhores edis porquê? Acaso o voto dá, em matéria artística, uma clarividência ao eleito que cruelmente falta ao eleitor?
De resto, se é unicamente o artista que faz também de crítico, que impede que todos os que se declarem artistas reivindiquem que os poderes públicos os sustentem, comprando-lhes as obras? E, já agora, o preço, quem o fixa? O artista ou o mercado das autarquias? Porque, se forem estas, temos um bando de leigos a decidir em matéria do foro reservado dos artistas, uma ofensa à hierarquia cabritiana; e, se forem aqueles, receio que não se entendam quanto ao mérito respectivo das obras e acabem à estalada.
Isto deveria bastar para arrumar o palavreado pueril e ingenuamente pedante deste fenómeno. Mas não resisto a comentar algumas deliciosas frases do texto para que acima remeto, no Público: Cabrita, a escrever, tem um lado cómico que falta às suas instalações.
“A realização da obra começa no momento da sua concepção. Imaginar a obra, pensá-la, é já fazer”. A sério, Pedrinho? Temos então que, de futuro, os corpos municipais bem podem, quando quiserem ornar uma rotunda com um trambolho delirante qualquer, ir pensando em fazer adiantamentos por conta. Bem lembrado, ainda que o Tribunal de Contas pudesse colocar algumas reservas à prática, tendo em conta que os senhores juízes, presumivelmente, não terão uma excessiva inclinação para as artes.
“A Linha do Mar, para profundo desagrado de alguns, é uma obra de arte. Afirmo-o eu, Pedro Cabrita Reis, seu autor, sem qualquer pudor ou arrogância, mas porque sim, porque tenho de o fazer, porque o devo fazer e porque o posso fazer”.
Lá pudor, pudor, realmente, não se encontra aqui muito. Mas a afirmação não será um tanto… suspeita? É que o nosso povo, para casos destes, sancionou há muito a expressão “elogio em boca própria é vitupério”. Ora, a voz do povo não será talvez a voz de Deus, mas mesmo assim faz-se ouvir nas eleições locais. Pelo que, ao povo, conviria talvez, já que paga, afagar com carinho o lombo, para dar a impressão que por ele não se tem um grande desprezo.
“… e já que temos de falar em dinheiro, é que a arte não tem preço. Uma obra de arte nunca será nem cara nem barata”.
Confesso: tenho simpatias por alguns, poucos, artistas, tanto que não desdenharia comprar um quadro de Tito Roboredo, que tenho aliás debaixo de olho. E esta ideia inspirou-me: vou pagar com um cheque sem cobertura, e ao pamonha do marchand é isso mesmo que vou dizer – não tem preço.
O artigo termina, no ponto 4, com um arrojado voo retórico que, descontado o exagero lírico e ribombante, prova que Pedro Cabrita Reis tem talvez mais jeito para redigir que para instalar coisas. Duvido porém que o Público lhe tenha pago pelo esforço: não vive, que se saiba, à custa do contribuinte.

O que determina o preço do objeto artístico é o mercado, como não poderia deixar ser, atendendo ao regime em que competimos e consumimos.
Incompreensivelmente, a decisão política, que está na génese do mesmo regime, é, por natureza, arbitrária, liberta de qualquer critério que não seja ela mesmo.
No fim de contas, o povo paga tudo, porque, desde sempre, a política para mais nada serviu senão para fazer pagar ao povo as mordomias e as fantasias de uns poucos.
João de Brito
Questiono porque é que esta obra de Pedro Cabrita Reis levantou tanta polémica. É que, em múltiplas cidades portuguesas há no espaço público obras horrendas. (Recordo, por exemplo, a “pila” no alto do Parque Eduardo VII em Lisboa, ou o D. Sebastião numa praça de Lagos.) Porque é que essas obras não são objeto de vandalismo e de polémica? Será que é por as vereações que as colocaram lá não serem da côr política que convém denegrir?
“não serem da côr política que convém denegrir?” Essa não tem pés nem cabeça. Qualquer que seja a cor política de quem as colocou há sempre outra cor a que pode convir denegrir o objecto.
E a propósito: cor tem acento circunflexo?
cor tem acento circunflexo?
Não tem. Peço desculpa pelo meu erro.
Qualquer que seja a cor política de quem as colocou há sempre outra cor a que pode convir denegrir o objecto.
Em princípio isso deveria ser verdade, na prática não é assim. Quem quer denegrir as obras (alegadamente) de arte é quase sempre a direita política, quase nunca a esquerda. Portanto, se a obra de (alegadamente) mau gosto for colocada por uma vereação de direita, ninguém dirá nada.
Está muita gente a atirar-se contra esta obra de Pedro Cabrita Reis porque dá jeito para denegrir, não só a obra, mas também a vereação PS da Câmara de Matosinhos que a pôs lá.
Pode não gostar do Cutileiro, mas ele é um escultor, não monta Legos.
Aquilo com uns naperons da Joana Vasconcelos por cima ficava digno dum Prado.