O guarda-chuva de Chamberlain


Pedro Correia,

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As primárias do Partido Democrata norte-americano, em 1960, foram extremamente concorridas. Entre os candidatos, destacavam-se John Fitzgerald Kennedy – representante da elite da Nova Inglaterra, sofisticada e liberal – e Lyndon Baines Johnson, um texano até à medula, representante da chamada “América profunda”, com raízes rurais e esclavagistas.

Estava em causa a escolha do nome que iria apresentar-se contra um candidato forte: o republicano Richard Nixon, vice-presidente do inquilino cessante da Casa Branca, Dwight David Eisenhower.

Kennedy e Johnson, cada qual apostado na vitória, esgrimiram argumentos e trocaram ríspidas acusações durante esta animada campanha interna, que culminou na convenção de Los Angeles em Julho de 1960. A dado momento, Johnson – que era o líder dos democratas no Senado – atacou John Kennedy em termos pessoais, não poupando sequer o pai do seu rival, o milionário Joseph Patrick Kennedy, que quando foi embaixador dos Estados Unidos em Londres, entre 1938 e 1940, revelou alguma simpatia pela Alemanha nazi.

«O meu pai nunca andou a segurar no guarda-chuva de Chamberlain», disparou Johnson, aludindo ao primeiro-ministro que capitulou perante Hitler em Munique. O que revela bem até que ponto o debate aqueceu nessa convenção do tudo-ou-nada.

 

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Kennedy conquistou a nomeação democrata – com 806 votos dos delegados, contra 409 recolhidos por Johnson e 287 distribuídos por vários outros concorrentes, entre os quais Adlai Stevenson, Hubert Humphrey e Stuart Symington. E logo o primeiro gesto público que assumiu, aliás incompreendido à época por vários colaboradores, foi estender a mão ao seu principal rival no interior do partido, convidando-o a ser o candidato à vice-presidência.

Uma aposta que valeu a pena. Em Novembro desse ano, a dupla John Fitzgerald Kennedy-Lyndon Baines Johnson bateu os republicanos por margem muito escassa: cerca de 110 mil votos. Sem a junção dos dois nomes complementares, concluem hoje os historiadores sem sombra de dúvida, a derrota dos democratas teria sido inevitável.

Apeteceu-me fazer esta digressão histórica para assinalar o contraste entre dois modos muito diferentes de estar na política: o que Kennedy revelou em 1960, superando até agravos pessoais, e o de políticos contemporâneos, nomeadamente em Portugal, que preferem subtrair em vez de somar. Como se o verdadeiro adversário estivesse intramuros e não no exterior. E como se não precisassem de cada militante nos combates eleitorais. Vivem obcecados com o guarda-chuva de Chamberlain, que nunca protegeu ninguém contra intempéries políticas.

16 comentários em “O guarda-chuva de Chamberlain”

  1. Há uma grande diferença entre umas eleições legislativas em Portugal e umas eleições presidenciais nos EUA. Nestas últimas, só há, basicamente, dois competidores, pelo que cada competidor deve fazer as alianças mais abrangentes que puder; nas primeiras, todos os competidores podem fazer eleger alguns deputados, pelo que alianças não são imprescindíveis.

    1. Agregar ou segmentar é um dilema que se coloca a qualquer político, em qualquer época, em qualquer quadrante geográfico ou ideológico.
      Neste aspecto, tanto vale para as presidenciais norte-americanas ou para as legislativas em Portugal.

  2. Na última eleição presidencial norte-americana, tivemos Clinton, da América liberal e sofisticada, contra Trump, da América profunda. Não houve uma aliança entre as duas, como na candidatura de Kennedy. As duas Américas estão a divergir cada vez mais.

    1. Entre a Clynton e o Trump nunca poderia ter havido ‘convites’ era de partidos diferentes.
      Por cá, ou em toda a Europa, na se compara com as eleições presidências americanas.
      Da outra vez, quando Marcelo se encontrou com Trump, este perguntou se não tinha receio de perder as eleições para o C. Ronaldo, ou que Marcelo respondeu que Portugal não é América. Não pareceu ser uma resposta paliceana, antes quis dizer que por cá não tínhamos trumpices. Até ver!!!

  3. A lição que eu tiro disso é que o Kennedy tinha uma mulher incomparavelmente mais bonita. Americano fosse e era nele que votava.

    1. Os americanos não pensam necessariamente dessa maneira. Jacqueline Kennedy foi criticadíssima, entre outros motivos, por ser:
      – Demasiado sofisticada;
      – Católica;
      – Fluente em francês (chamavam-lhe “estrangeira”).

      1. Em suma. Só predicados a engrandecerem ainda mais a encantadora elegância.
        Sabe lá o Pedro Correia no que os americanos pensam. Se bem que saber distinguir o inimigo externo do interno, abona muito a favor do sucesso.
        Que o diga o Sporting que ao contrário dos américas procura-os em todo lado quando internamente a infestação perniciosa rebenta pelas costuras.

          1. Que padres? Que missas? E de caminho, que religiões?
            Torna-se evidente que não conhece o Pedro Boucherie Mendes, e consequentemente não o lê.

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